Reconheço que alguns dos meus contos parecem irreais. Todavia, são mesmo verdadeiros…
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No sentido de ajudar os amigos que visitam este blogue, convido-os a fazer primeiramente a leitura do meu conto de Onze de Fevereiro de Dois mil e Oito, denominado “Préstimos à Disposição”, em virtude de alguns intervenientes serem os mesmos e haver alguma ligação entre aquele e este conto.
Poucos anos mais tarde, o pai do moço acidentado, que esteve entre a vida e a morte por inalação de gás queimado, sofreu um rude golpe com o falecimento de seu progenitor.
A empresa parou a actividade durante dois dias, a consternação foi geral e as honras fúnebres nos tempos mais próximos mereceram comentários pela sua opulência, tendo até o carro de transporte sido puxado por um “gato-pingado” e outro atrás a empurrar, vestidos à “maneira como mandava a sapatilha” da época.
As casas mortuárias, pelos menos nas aldeias, ainda não estavam na moda e portanto o velório foi feito em casa do defunto. O operariado, os encarregados e os amigos dos amigos dos patrões acorreram em massa e encheram a bandeja com cartões de condolências que a agência funerária colocou à disposição sobre uma pequena mesa para o efeito. E nem o “Bolota” faltou à chamada, não obstante estar sentido pelo desemprego que lhe bateu à porta, por ser altruísta e amigo de servir bem. É que, com a mudança da vereação, a Câmara Municipal convidou-o a recuperar o emprego, pois não são todos os dias que se arranja tão exemplar serviçal.
O caixote de madeira de mogno, com pegas e o Cristo pregado na cruz reluziam. Os paramentos pendurados nas paredes e duas velas em castiçais de prata junto aos pés do defunto, aliado ao profissionalismo da carpideira que quando alguém se aproximava da viuva e lhe dava os sentidos pêsames, chorava um pouco mais alto e referenciava a pouca sorte que tinha batida àquela porta, prestavam ao acto a solenidade conveniente. Em toda a volta daquele quarto, encostadas às paredes, havia cadeiras todas ocupadas por mulheres vestidas de preto e com lenços da mesma cor na cabeça.
Houve no entanto uma coisa que me despertou a atenção, por estranha, e cheguei mesmo a comentar com o “Maneças”. É que a viúva encontrava-se junto à cabeceira do defunto, com uma saia preta rodada, sentada numa cadeira de madeira, mas mais baixa do que as outras.
Enfim, disse eu. Talvez se encontre melhor instalada daquele modo. As horas foram passando e entraram pela noite dentro.
Os presentes começaram a debandar e o filho prontificou-se a ficar ali a noite a acompanhar a mãe, dado não fazer menção de sair da mesma posição. Esta descansou-o, dizendo que toda a gente se ia embora e ela ficava sozinha, não tinha medo porque o defunto não lhe fazia qualquer mal, pois tinha sido sempre um bom marido e não seria agora depois de morto…
Que não, ou ela se ia deitar e descansar ou ele ficava mesmo, a fazer-lhe companhia.
- Olha, filho. Estou muito bem, vai para a tua casa descansadinho da vida, porque eu cá me arranjarei. Nem fazes ideia de como estou bem, nem sabes onde estou sentada e o que faço. Estou aqui muito bem sentadinha na cadeirinha do penico…
O Maneças saiu porta fora e nem soube como foi possível aguentar a risada.
O Zé conseguiu-o e guardou todos estes anos o segredo, pois tinha a certeza de que nem o morto batia com a língua nos dentes.
Poucos anos mais tarde, o pai do moço acidentado, que esteve entre a vida e a morte por inalação de gás queimado, sofreu um rude golpe com o falecimento de seu progenitor.
A empresa parou a actividade durante dois dias, a consternação foi geral e as honras fúnebres nos tempos mais próximos mereceram comentários pela sua opulência, tendo até o carro de transporte sido puxado por um “gato-pingado” e outro atrás a empurrar, vestidos à “maneira como mandava a sapatilha” da época.
As casas mortuárias, pelos menos nas aldeias, ainda não estavam na moda e portanto o velório foi feito em casa do defunto. O operariado, os encarregados e os amigos dos amigos dos patrões acorreram em massa e encheram a bandeja com cartões de condolências que a agência funerária colocou à disposição sobre uma pequena mesa para o efeito. E nem o “Bolota” faltou à chamada, não obstante estar sentido pelo desemprego que lhe bateu à porta, por ser altruísta e amigo de servir bem. É que, com a mudança da vereação, a Câmara Municipal convidou-o a recuperar o emprego, pois não são todos os dias que se arranja tão exemplar serviçal.
O caixote de madeira de mogno, com pegas e o Cristo pregado na cruz reluziam. Os paramentos pendurados nas paredes e duas velas em castiçais de prata junto aos pés do defunto, aliado ao profissionalismo da carpideira que quando alguém se aproximava da viuva e lhe dava os sentidos pêsames, chorava um pouco mais alto e referenciava a pouca sorte que tinha batida àquela porta, prestavam ao acto a solenidade conveniente. Em toda a volta daquele quarto, encostadas às paredes, havia cadeiras todas ocupadas por mulheres vestidas de preto e com lenços da mesma cor na cabeça.
Houve no entanto uma coisa que me despertou a atenção, por estranha, e cheguei mesmo a comentar com o “Maneças”. É que a viúva encontrava-se junto à cabeceira do defunto, com uma saia preta rodada, sentada numa cadeira de madeira, mas mais baixa do que as outras.
Enfim, disse eu. Talvez se encontre melhor instalada daquele modo. As horas foram passando e entraram pela noite dentro.
Os presentes começaram a debandar e o filho prontificou-se a ficar ali a noite a acompanhar a mãe, dado não fazer menção de sair da mesma posição. Esta descansou-o, dizendo que toda a gente se ia embora e ela ficava sozinha, não tinha medo porque o defunto não lhe fazia qualquer mal, pois tinha sido sempre um bom marido e não seria agora depois de morto…
Que não, ou ela se ia deitar e descansar ou ele ficava mesmo, a fazer-lhe companhia.
- Olha, filho. Estou muito bem, vai para a tua casa descansadinho da vida, porque eu cá me arranjarei. Nem fazes ideia de como estou bem, nem sabes onde estou sentada e o que faço. Estou aqui muito bem sentadinha na cadeirinha do penico…
O Maneças saiu porta fora e nem soube como foi possível aguentar a risada.
O Zé conseguiu-o e guardou todos estes anos o segredo, pois tinha a certeza de que nem o morto batia com a língua nos dentes.























