29.12.08

A Cinza da Lareira


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Quem tem lareira, sabe quanto custa limpá-la e quanto custa limpar os móveis à sua volta.
O Zé era felizardo, possuía lareira encastrada (a chamada cassete) e tinha um depósito próprio para através do aspirador fazer uma limpeza eficaz, eficiente e sem dificuldades para evitar o pó a que atrás me referi.
Esta cena trágica/cómica passou-se no inverno de 2006, quando vivia numa pequena povoação do Concelho de Palmela. Peço a Deus que os olhos do outro protagonista não leiam estas linhas.
Ainda hoje, noutra casa, mas com o mesmo tipo de lareira, faço a sua limpeza somente uma vez por semana.
Quando o tal deposito está cheio, e isso só acontece ao fim de 3 ou 4 semanas, a cinza, coisa finíssima, é metida num saco de plástico enorme, repetindo a mesma operação por mais 2 ou 3 vezes. Quero dizer que o saco de plástico acaba por ter cinza acumulada de 3 meses, que diga-se já é bem pesado e de quantidade considerável.
Portanto é necessário desfazer-me dela.
Vez a vez a quantidade é pequena e vai para o contentor do lixo doméstico. Agora com um exagero destes já é mais complicado desfazer-nos daquele incómodo.
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Frente à minha casa havia a falta de um prédio, vendo-se por isso na rua do outro lado dois contentores de lixo doméstico que a serviam.
Não obstante a minha rua possuir seis daqueles contentores, achei, por questão de comodidade e a fugir a olhos indiscretos na distância ir despejá-lo, num dos outros que me referi e estavam na rua do outro lado. Com dificuldade fiz o trajecto e quando cheguei ao dito, reuni todas as forças que tinha, levantei o saco e ao tentar deitá-lo lá para dentro, este rompe-se e vaza de uma só vez a cinza de quatro meses.
Fiquei aliviado e prometi a mim mesmo nunca mais deixar atrasar tanto tempo.
O camião que fazia a recolha do lixo passava normalmente por volta das 10 horas da manhã. Nesse dia já tinha passado e portanto a recolha ficaria para o dia seguinte.
Fiz a minha previsão do pó que se levantaria aquando daquela operação e nisso, caros amigos, não falhei. No outro dia e à hora aprazada, quando senti que o momento se aproximava, vim para o jardim fazer de conta que apanhava hortelã ou um raminho de salsa.
O trabalhador/cantoneiro engata o contentor na parte mecânica da camioneta, aquele faz o pino e fica vazio, mas a poeira era tanta, tanta, que o desgraçado ficou completamente coberto daquele pó. O homem protestou, chamou nomes ao diabo e à sua sorte, mas como sabemos a vida continua e o trabalho tinha de prosseguir.
Ao passar pela minha porta e enquanto procedia a outra manobra de esvaziamento, disse-lhe assim:
Meu amigo, você está bem caçado, até as suas sobrancelhas e pestanas têm pó. Como arranjou isso?
Levei de rajada esta enorme quantidade de impropérios. “Estes filhos da puta, cabrões, paneleiros, fascistas, não têm mais nada que fazer do que atirar para os contentores do lixo, as cinzas das suas lareiras”.
Estava perdido de riso e ainda tive coragem para comentar. “Realmente isto não se faz, se fosse comigo nem sei o que faria”…
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Entrem com o pé direito, em 2009 que a coisa está preta…

15.12.08

PERU NO NATAL


No primeiro Natal que passei no Norte, tinham os meus dois filhos três e quatro anos.
Idade maravilhosa e as suas gracinhas fazem parte das nossas alegrias.
Os meus sogros, cheios de saudades dos netos, arrancaram à papo-seco por aí acima no comboio rápido e fizeram-nos a companhia.
A casa passou a estar mais cheia e o movimento passou a ser outro.
A “Dona” chegou do trabalho, trazendo como oferta um peru enorme. Aquilo não eram patas, eram uma garras afiadas, que se dessem no peito de um indígena rasgava-o até ao coração.
Foi um alvoroço. Quem mata, quem não mata, todos se faziam fortes, mas com um receio enorme de pegar no animal de tão grande porte. Até que surge a conversa. É preciso primeiramente embebedar o peru. Embebedar, pergunto eu. Mas com quê? Vinho tinto, champanhe ou verde? Não, diz o meu sogro. Os perus embebedam-se com aguardente.
Mas o único álcool que cá temos é uma garrafa de whisky! “Pois bem: vai com Whisky”.
Primeiro foram-lhe amarradas as patas, meu sogro abriu-lhe o bico meteu-lhe um funil goela abaixo e eu tratei de vazar a garrafa. Vazei, vazei, ficando somente um restinho para amostra.
Desamarramos o peru, deixámo-lo à vontade, o animal levanta-se e foge de nós, pára, mira-nos e começa a cambalear. Pata para a direita, pata para a esquerda, o seu corpo bambeia para todos os lados e cai no chão espumando da boca.
Entrou em coma, fiquei atrapalhado, pois nunca me tinha visto em assados daquele quilate.
Minha mulher com um facalhão enorme aproxima-se, corta-lhe a cabeça, seguindo-se depois a água quente para tirar as penas e a autópsia, até ficar só em cotos.
Todos adivinhávamos um opíparo almoço no dia de Natal.
Quando da cozedura, vinha da panela um cheiro esquisito, que se acentuou quando na mesa o queríamos comer. O Whisky fez os seus efeitos para embebedar o bicho, mas em contrapartida possivelmente pelo exagero ou abuso na quantidade, estava a sua carne intragável.
Pois mesmo com este azar, fruto da falta de conhecimento para executar uma tarefa que outros com a maior simplicidade o fazem, não foi perdido o espirito natalício, sendo a tradição quebrada com uns bifes e batatas fritas de pacote.
Uns anos antes, numa festa de fim de ano, onde várias famílias se reuniram para festejar aquela data, os perus servidos tinham sido alimentados a farinha de peixe e a canja de peru sabia a chicharro, carapaus., sardinhas e atum. Admira-me não ter sido aproveitado para constar em qualquer livro de culinária.
Foi um Natal e fim de ano inolvidável, coisa para nunca mais esquecer.
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Do mal o menos, desejo a todos as amigas/os um Natal feliz, com muitos “carcanhóis” e um fim de ano a entrar com o pé direito, neste mundo torto em que vivemos.
Pela minha parte, com a crise que está estou a sentir-me empenado.

2.12.08

LUA-DE-MEL NA MADEIRA


1978, Avenida 5 de Outubro – Lisboa. O Zé encontrava-se no escritório de advogado seu amigo. Este esperava a visita de uma filha de um seu conhecido, que lhe tinha telefonado informando que pretendia falar-lhe e que tinha casado há 15/20 dias.
A moça, assim que entra e depois de me cumprimentar e ao advogado, inicia a conversa com o causídico, tendo eu feito menção de me retirar, ao que ela se opôs.
Talvez pensasse que eu também era advogado, não percebi, mas, sinceramente, adorei a história.
Senta-se e começa a falar do namoro com o Miguel, rapaz que o advogado também conhecia, não sei se por namorar a filha do amigo, se de outra maneira qualquer.
Quatro anos de namoro, rapaz sossegado, até de mais, dizia ela, católico confesso e frequentador da igreja. Foi sempre, segundo disse a recente casada, muito respeitador, merecendo por isso a confiança dos seus pais, que se sentiam felizes por a filha ter arranjado tal peça, aliada a bom partido, dado que a sua família tinha bens ao luar.
Até ao dia do casamento, que se realizou na Igreja de S. João de Deus, ali na Praça de Londres, com o copo-de-água servido na Pastelaria S. João, na Avenida Paris, que na época, era a flor desta Lisboa que adoro.
A noiva desenrolava toda esta conversação com notório nervosismo e eu cada vez percebia menos. Por quê contar, com todos os pormenores, o casório? Tinha convidado o advogado para assistir e evitava toda esta “fanfarronice”.
A lua-de-mel, oferta dos pais do noivo, seria na ilha da Madeira, com viagem no barco “Funchal”, aproveitando um cruzeiro que aquele navio fazia às Canárias e à Pérola do Atlântico. Aqui, pedi licença e perguntei por que não faziam o cruzeiro completo, visto ser muito mais barato do que ficar na Madeira, em hotel.
Explicou a noiva que oferta dos pais do noivo não se discutia e que o regresso seria em avião, também à sua conta.
Pela manhã do dia imediato, praticamente toda a comitiva que tinha estado no casamento foi ao cais da Rocha Conde de Óbidos despedir-se dos noivos, acenando com lenços, a fazer lembrar os tempos próximos passados quando partiam para as colónias os soldados portugueses em defesa de não sei o quê.
Na noite do casamento o noivo sentiu-se mal-disposto, razão por que não fez a investida à sua amada e, durante a viagem, ou porque viu alforrecas ou enjoasse, a mulher chegou à Madeira virgem como tinha partido.
O barco chegou pela manhã, disseram adeus ao cruzeiro e partiram para o hotel, iniciando logo visita a Câmara de Lobos, Machico e Curral das Freiras para aproveitarem ao máximo a estadia, visto que nem um nem outro alguma vez lá tinham posto os pés.
O advogado olhava para mim, como a querer dizer-me “mas que seca, o que é que eu tenho a ver com isto?”, e eu, sinceramente, estava cada vez mais interessado em saber como acabaria a história e em que altura ela acabava por ser desflorada. Fazia-me confusão toda aquela conversa e estava desejoso de ver o fundo da panela.
Então, chama ela a atenção, “agora é que vai ser o melhor”.
Quem já assistiu ao “Amor de Perdição”, do Manoel de Oliveira, está disposto a tudo e portanto, qual raposa em pleno mato, arrebitei os orelhinhas de forma a não perder pitada do que se seguia.
Desejava não ver goradas as minhas expectativas.
Alegando cansaço (continuava ela), foi-se mais uma noite em branco e, pela manhã, alvitrou, ir eu ao salão tomar o pequeno-almoço, pedindo o seu servido no quarto.
Que tola ingenuidade a minha, como aceitei uma coisa daquelas! Comi tranquilamente, olhei o mar imenso e, quando acabei, estava disposta a quando chegasse ao quarto ter uma conversa muito séria com o meu querido. Juro que gostava muito dele.
Meto a chave na porta, abro e os meus olhos que a terra há-de comer, dão de caras com esta cena incrível. O Miguel estava todo nu, em posição de apanha-cavacas como se estivesse procurando qualquer coisa no chão. O empregado que lhe levou o pequeno-almoço, de colete às riscas com duas fivelas atrás, tinha as calças caídas sobre os sapatos, encostando as suas partes intimas, ao rabinho do Miguel, que estava a dar a dar. Aí o Zé não resiste e dá continuidade à cantiga “pio, pio, pio passarinhos a cantar”. O advogado dá uma valente gargalhada. Ela, com lágrimas nos olhos, não tinha vontade de rir.
Deixou as malas e arrancou para Lisboa, procurando o doutor, não para lhe tratar do divórcio, mas para o anular, dado não querer ser divorciada, mas solteira.
Foi um acto demorado, porque o rapaz aceitava divorciar-se, mas não queria a anulação. Correu muita tinta, variadas sessões à porta fechada, até que, finalmente, houve uma autorização da Santa Sé.
Para o que estava guardada aquela moça, coitada. Sonhava, como a maioria das demais, ter filhos e criar netos…
Se fosse agora, com a presumível legalização dos casamentos entre o mesmo sexo, ele também quereria ficar solteiro, sendo a diferença entre ambos é que ele já não era virgem, portanto já não lhe ficava bem ir com véu, grinalda e flor de laranjeira.

18.11.08

“Ai no me lo diga!”

(Caravela que habitualmente ornamenta a entrada do recinto da feira)


Nas minhas andanças por terras de Espanha, conheci um casal de Huelva, gente simpatiquíssima que vivia juntamente com uns tios já maiores, que tinham uma pequena mercearia de bairro. Os tios eram de Burriana, da Província de Castellon, comunidade Valenciana e desde que partiram à procura de melhor vida, nunca mais visitaram a terra natal.
A D. Carmen, nome da tia, tinha um horror às estradas, aos automóveis, aos comboios, tendo chegado a pensar que ela tinha medo de tudo quanto mexesse. Portanto, pouco saía de casa, a não ser para ajudar o marido na sua loja. Os sobrinhos, ele, Juan e ela, Maruga, esperavam ansiosos a visita da cegonha.
Certa ocasião, visitei-os aquando da realização das festas Columbinas, que se realizam na primeira semana de Agosto em honra de Cristovão Colombo, pois foi daquela Cidade espanhola, que partiu, à descoberta do novo mundo.
O Juan, Maruga, eu e a minha companheira Lurdocas que já foi interveniente no meu conto da atribulada “Viagem a Sevilha”, fomos ao teatro ver uma peça cómica, num desmontável sito no recinto das festas. Havia um artista que, por tudo e por nada, dizia esta frase: “Ai no me lo diga!”. Frase que pegou no nosso vocabulário e passamos também por tudo e por nada a dizer : “Ai no me lo diga!”.
Falando, em sua casa, das grutas de Aracena, que tínhamos visitado aquando da deslocação a Sevilha de tão boa ou má memória, a D. Carmen disse que nunca tinha visitado umas grutas e eu propus-me imediatamente a levá-la para ver aquelas, satisfazendo assim o seu desejo.
Que não, que tinha muito medo da estrada, mas, com paciência, lá a convencemos e, no outro dia, munidos de um piquenique, lá partimos no Fiat 500, subindo a serra de Rio Tinto a caminho das grutas, ficando o marido em casa entregue ao pequeno comércio.
Dado que a D. Carmen era dos “pesos pesados”, ia ao meu lado, sendo notório o “stress” que a senhora passava pelo medo que tinha. As conversas desenrolavam-se e, de quando em quando, lá ia “Ai no me lo diga!”. Parámos para petiscar e não levávamos nada fresco. “Ai no me lo diga!”. Nas curvas, nas grutas “Ai no me lo diga!”, que medo a senhora tinha e por que pressão estava aquele anjo sénior a passar.
Quando saímos das grutas já era noite, sentámo-nos numa esplanada, comemos qualquer coisa e começámos a viagem de regresso. Aí, a senhora confessa que estava com um medo de morrer, ao fazer a viagem de noite em plena serra. Claro que… “Ai no me lo diga!”.
Ocupámos os mesmos lugares na viatura e, quando estávamos a meio caminho, a D. Cármen, que ainda não tinha aberto a boca, demonstrou que estava atrapalhada e queria vomitar. A Lurdocas, para animar a malta, diz assim: “Ai no me lo diga!”. Eu paro o carro e, quando me debruço para tentar abrir a porta do seu lado, saiu pela boca da D. Carmen uma descarga que bateu no vidro e fez ricochete, ficando o raio da velha e eu em mísero estado. “Ai no me lo diga!”, diz o Juan. Entretanto, já tinha sido aberta a porta e ela, coitada, envergonhada, limpava-se com um pano, quando lhe dá vontade para segunda convulsão, debruçando-se ainda mais, para fazer directamente para o chão, ficando com o traseiro espetado e virado para mim e enquanto descarregava pela boca, dá um pum...mas um pum tão grande, tão grande, que se eu não tivesse a porta do meu lado fechada, saía disparado para a arcem (valeta) do outro lado da carretera e a protecção civil chamada para me socorrer, teria de me apanhar aos bocados.
A sua sobrinha diz assim: “Ai no me lo diga!”. Toda a gente queria rir, toda a gente se conteve, e à minha pergunta de se encontrar mais aliviada, respondeu. “Que vergoenza, que vergoenza”.
A partir daí, aquela viagem de regresso mais parecia um velório do que um passeio.
Com os meus botões, pensava: se ela se caga outra vez, temos caldo entornado.
Quando chegámos a Huelva, já noite dentro, ainda apalpei o meu braço direito, para ver se não estaria deslocado, porque um torpedo daquela envergadura tem efeitos devastadores, que o digam os militares americanos em missão no Iraque.
No outro dia, quando partimos rumo à capital portuguesa, toda a gente veio despedir-se de nós, excepto a D. Carmen que, por se ter esvaziado como uma boneca insuflada, não se aguentava de pé.
Para desanuviar o ambiente, quando os visitei novamente fiz a entrega de um macaco de cerâmica a subir uma corda, que me disseram nas Caldas de Rainha (vejam lá onde fui arranjar aquela obra) ser o macaco do azar, esclarecendo eu aos amigos de Huelva que se tratava do macaco da sorte.
O “mono” foi imediatamente pendurado na loja, para dar sorte, e, quando mais tarde voltei, vi aquela encerrada, as ervas já altas à entrada da porta e fiquei preocupado, julgando ter contribuído para a falência do comércio de ultramarinos que era a sua subsistência. Eis que veio ao meu encontro o amigo tendeiro e a sua amada Carmen dar-me um abraço bem forte, pois o macaco lhes tinha dado tanta sorte que se viram obrigado a mudar de local, para aumentar o negócio.
Confirmei que afinal estas coisas de macacos de sorte ou azar não passam de mito. A sorrir e ao ouvido dele e sem que a Carmen ouvisse, disse baixinho: “Ai não me lo diga!”

3.11.08

O Hipólito, Castanhas e o Tinto





Aproxima-se o S. Martinho, já faltam poucos dias para o dia 11 de Novembro.
Esta história passa-se em 1947 e o Zé ainda não tinha ido a Oeiras à Inspecção militar.
Não sei como, mas recebi um postal com uma vista de Zaragoza, convidando-me a entrar num jogo, enviando para o primeiro nome de uma lista de quatro ou seis lá inscritos com respectivas moradas, um postal da cidade onde morava ou era natural, eliminando a seguir aquele para onde escrevia e colocando o meu e respectiva morada no último lugar, remetendo para 6 amigos que por sua vez enviavam para outros, fazendo todos a inclusão do seu nome em último lugar em substituição dos que iam suprimindo.
Se não houvesse quebra no jogo, receberia umas centenas de postais num curto espaço de tempo. Calhou-me enviar um desses postais postal para uma moça de Zaragoza, residente no Bairro de Santa Isabel, nome alusivo em homenagem à nossa Rainha Santa, natural de Aragon, cuja Zaragoza é sua capital.
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- Na mesma época, o Albano, protagonista do conto “O Celular”, meu companheiro inseparável vivia em Amora, com seus pais, numa pequena casa de rés-do-chão.
O gás de bilhas ainda não tinha chegado às casas portuguesas e portanto a comida era feita em fogareiro a carvão ou a petróleo, este da marca Hipólito, construído por empresa do mesmo nome localizada em Torres Vedras.
Era bonito o fogão, amarelo, que as donas de casa punham a brilhar com “solarire”.
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A chaminé da casa do Albano tinha uma bancada feita em placa de cimento, onde era colocado o Hipólito, e na frente da dita chaminé colocavam uma cortina, para dar um ar mais gracioso à cozinha.
Ao lado da chaminé existia uma pia de pedra com buraquinhos que servia para deitar restos de comida, esta também tapada com uma cortina perfeitamente igual à da chaminé e que não era mais do que a sua continuação.
O Albano fazia anos dentro desta data e portanto, com um grupo de amigos, resolvemos comemorar os seus anos e o S. Martinho em simultâneo. A comida foi ao gosto de todos, línguas de bacalhau, batatas couves, azeite, pimenta, alho e como complemento castanhas assadas e cozidas. O vinho era bom (sabíamos lá nós, pequenos fedelhos, sem experiência nenhuma na arte de apreciá-lo, o que era bom ou mau) e o certo é que o Zé e o Albano, depois do repasto e a hora tardia, sentimos necessidade de curtir uma piela tamanha (primeira e última que o Zé teve na vida) na cama do Albano, onde dormimos os dois com foguetes, morteiros e bombinhas de carnaval à mistura, pondo a casa dos seus pais em alvoroço, já que agoniados e com o peso da “bilis” tivemos de dar algumas descargas ao mar.
Com a cabeça à roda, o estômago pesado, agoniado, salto da cama sem acender a luz e dirijo-me à cozinha, afasto a cortina da pia, quase meti a cabeça lá dentro e aqui vai obra. Que alivio… não sei se cheguei a dormir, mas às sete da manhã, a mãe do Albano levantou-se para tratar do pequeno-almoço para o marido, que ia trabalhar para uma fábrica de cortiça que havia na povoação.
Desata a gritar com o filho (eu era visita, escapava), ralhando porque o Hipólito estava em mísero estado, com toda a descarga que eu lhe tinha feito em cima. É que enganei-me e, em vez de afastar a cortina da pia, afastei a da chaminé e despejei-lhe para cima.
Que horror, que vergonha senti naquela ocasião. Andei uns dias que nem passava à porta daquela casa, onde fui sempre tão bem recebido. O Albano lá desbravou terreno e mais tarde, coitados, perdoaram-me o caso.
Entretanto, recebo resposta de Zaragoza, já acompanhada de fotografias da beldade Aragoneza, iniciando assim um namoro à distância de 1.000 Km., destinado ao fracasso. O Albano também arranjou borracho, mas desistiu pouco tempo depois, tendo eu alimentado sonhos, até que fui à terra dos “manhos” (naturais de Zaragoza) conhecê-la. Fui recebido com pompa, e estou convencido que toda a malta do bairro quis conhecer a ave rara, acabada de cair de pára-quedas nas terras de Alfonso I, o Batalhador, sendo muito bem recebido sempre que me deslocava lá, tendo ela retribuído com 4 ou 5 visitas à capital portuguesa.
Estávamos anos sem nos escrever e de repente iniciávamos o que nunca devíamos ter começado. Em Outubro de 2006, fui com o Albano até Barcelona ver a réplica da caravela Santa Maria (ahahah…) e no regresso, quando passávamos em Zaragoza, vinha com ele a recordar a historia do “hipolito”, quando alvitra para irmos visitar a “manha”, tendo eu anuído.
Comentei com ele que devia ir acompanhado de uma tortas para lhe adoçar a boca, respondeu-me: “vamos lá ver se não vens de lá todo torto, com uma arrochadas pelas costas abaixo”…
Bati à porta, abriu-a, cumprimentei-a e não respondeu, olhou para mim e bateu-me com a porta na cara. A caminho de Madrid, muito o Albano se riu e gozou à minha custa.
Dias depois, o Albano, o meu amigo companheiro de tantos e tantos momentos da minha vida, deixou o nosso planeta. Fiz a promessa de por estas datas fazer-lhe uma visita, trocarmos impressões, lembrar as nossas aventuras, até ao dia que me vá juntar a ele.

20.10.08

PASSEIO A PERNES



Talvez aí por volta de 1960/61, conheci, na empresa onde trabalhava, um agente de uma empresa de recauchutagem de pneus da Marinha Grande.
Orlando de seu nome, homem trabalhador, muito activo, que tinha gosto pelo trabalho que fazia.
Pessoa de trato fácil, simpática e, portanto, não lhe era difícil granjear amigos.
Não demorou muito tempo que, na minha empresa, os amigos se tivessem multiplicado e daí, certo dia, fez um convite a seis (entre eles, eu) para ir à sua terra, à matança de um porco.
Claro que não é coisa que se veja todos os dias e eu fiquei entusiasmado pelo passeio, pela camaradagem e pela visita a um lugar que não conhecia e que nem sequer alguma vez tinha ouvido falar, assim como a matança, coisa a que nunca tinha assistido.
Um sábado foi o dia escolhido e aos seis, mais o Orlando, juntou-se um seu amigo, que não conhecíamos.
Antes do início da viagem houve a apresentação da nova cara e, quando nos preparávamos para entrar na carrinha, constatámos que no seu interior não existiam bancos para nos sentarmos.
Foi uma surpresa grande, mas a juventude tudo supera e cinco de nós, com o convidado especial incluído, lá entrámos e sentamo-nos no chão do furgão, tendo o Orlando como motorista e o Óscar como seu acompanhante.
Metemo-nos ao caminho, não havia auto-estradas e as nacionais e municipais tinham mais buracos do que uma rede de pesca.
Já estão a ver uma viagem cómoda, confortável, rápida e ainda com agravante da viatura não ter janelas, portanto, tudo às escuras.
O Jonas, mais velho do que eu e que já é vosso conhecido do conto “El Rocio”, fazia parte do grupo e sentou-se ao meu lado, no início da viagem.
Com o andamento, curvas e contracurvas, rolávamos contra as paredes do furgão, sendo um desassossego permanente e sem saber por onde passávamos.
Lá chegámos, inteiros mas bem machucados e sem vontade de fazer retorno em tão incómodo transporte.
Depois, seguiram-se as apresentações à família do Orlando, umas festinhas no lombo do porco e assistir ao ritual da matança.
Recordo que até os animais de capoeira estavam em alvoroço com o barulho e a azáfama de todos a querem fazer parte daquele acto que, na altura, considerei bárbaro e que só tinha visto nos livros do Asterix, quando este apanhava um javali.
Os guinchos do animal tiraram-me a vontade de, mais tarde e aquando a refeição, trincar a sua carne, que estava estupenda, segundo a versão de todos os presentes.
Visitámos a nascente do Alviela, um dos rios que abastece Lisboa, e entretivemo-nos fazendo maroteiras uns aos outros.
Antes de regressarmos, fomos a uma pastelaria onde comprámos uns bolos especialidade da terra, já não recordo se pastéis de feijão, mas pelo menos eram muito parecidos.
O amigo do Orlando comprou quatro dúzias em embrulhos separados de duas cada e disse-nos que um era para a namorada e outro para levar para casa.
Pela noite, alguns, já com o grão na asa, iniciámos o regresso que, para não variar, foi igual à ida, exceptuando que, em dada altura, o Jonas encontrou duas almofadas que andavam, tal como nós, ora para cá ora para lá aos trambolhões e não esteve com meias medidas. Pega numa delas, mete-a debaixo do assento e dá-me a outra para fazer o mesmo. Do mal, o menos, sempre aliviava o rabo daquele pavimento de ferro, às ondas, de que todos se queixavam.
E lá viemos até Lisboa, rindo, contando anedotas, às escuras.
Todos vinham para a outra banda, ou seja para a margem esquerda do Tejo, exceptuando o amigo do Orlando, cujo nome já se me foi há muito, tendo-se apeado ali para os lados do Areeiro.
O carro parou. O Óscar, felizardo, que acompanhava o condutor, veio abrir a porta atrás, coisa que nós não podíamos fazer por dentro, e o dono dos dois embrulhos com os bolos tratou de os procurar.
Como não os encontrou, perguntou onde estavam, sendo entregues pelo Jonas e por mim, as almofadas que nos tinham feito um jeitão, toda a viagem.
Evidentemente que o que tinha sido bolos há umas horas, estavam transformados numa massa informe, com o feitio de umas badanas de cu, e a sair de um deles, pelos cantos, bocados de bolo que se me pegaram às calças.
O moço não podia pegar pelos cordéis que atavam os embrulhos, porque aquilo se desfazia e caía tudo no chão. Olha para dentro da carrinha e diz assim. “Isto é que está um trabalho bonito! O que é que eu faço agora a isto?” Realmente, aquilo parecia mais duas boinas bascas do que um pacote com bolos; só lhe faltavam as piroletas em cima.
O Jonas, com a maior descontracção do mundo responde assim. “Na hora de repartir os bolos, sempre chega mais um para comer. Assim, este inconveniente até te traz vantagens. Cortas à faca, dá para todos e fazes do tamanho que desejares. Como vês, aqui há solução para tudo”.
Sem dizer mais nenhuma palavra, o rapaz aproxima-se da cabina do condutor e dá este recado:
“Orlando, tu nunca mais me convides para dar passeios com cabrões e filhos da puta iguais a estes”!
Os embrulhos teriam andado num reboliço para cá e para lá e às escuras ainda alguém era capaz de os comer. Sentando-nos em cima, seria a maneira de escaparem a uma “degustacion” forçada. Mantivemos toda a viagem os embrulhos com os bolos debaixo d’olho defendendo-os sem unhas e sem dentes e afinal foi mal agradecido. Deus ensinou-nos a saber perdoar a quem nos ofende e foi isso que fizemos. Regressamos com a consciência tranquila, por ter prestado um acto de louvar…

6.10.08

A TROCA



Naqueles períodos em que o Zé andava tonto, não sabia o que queria, corria atrás de qualquer saia, a mãe Júlia não sabia o que fazer e atarantava-se também.
Queria que eu assentasse, queria que o seu filho seguisse as pisadas do irmão, fosse bem comportado, tivesse juízo, namorada e arrumasse de vez, talvez mesmo quisesse netos.
A nossa grande cozinha quadrada tinha uma enorme mesa de madeira, com dois bancos corridos, um de cada lado. Era ali que habitualmente comíamos as refeições.
Se por um lado eu corria atrás das saias, também não era menos verdade que as saias andavam num desassossego atrás de mim.
Lá no sítio, toda a raparigada sabia quando eu piscava o olho a alguma.
Como era possível que, sabendo elas que o Zé não era de assoar, tivesse tanta procura?
Fazia-me confusão, mas a vida era assim mesmo e portanto aproveitava a ocasião.
Não havia sábado que a mãe Júlia não tivesse que arranjar almoço para as amigas do queridinho. Claro, a coisa constava, a ”nena” tal foi almoçar a casa do Zé e no outro fim-de-semana, em vez de três passava a ser quatro ou mesmo cinco.
A mãe Júlia devia ter as suas preferências, mas observava as corridas, os segredinhos e ficava-se na sua.
Se eu me pirava, desatavam a falar entre si para ver se descobriam com quem tinha saído. E às vezes não acertavam, porque eu tinha o cuidado de lhes dar a volta.
Não sei como, mas na procura de convívio salutar, desinteressado e simpático, apareceu-me uma prima já em terceiro grau, disposta (segundo a sua opinião e das amigas habituais, séria candidata a cortar a fita em primeiro lugar na corrida desenfreada do amor) a vestir a camisola amarela, calções, dar corda às sapatilhas e apresentar-se ao sábado na hora do cozido à portuguesa.
Naquela capoeira já havia galinhas que chegasse, mas uma prima tem lugar assegurado na mesa. Sinceramente, a sua presença cheirou-me a fumaça e não demorou muito tempo que não confirmasse as suas intenções.
Residia numa povoação aí a 7 km da minha, mas para ela isso não era problema, pois tinha pasteleira (bicicleta da moda), com uma rede em cada lado das rodas de trás que era para não prender a roupa.
Passou a chegar sempre primeiro do que as outras e, sendo familiar, movimentava-se com desembaraço pela casa, sabendo por isso uma ou outra novidade.
Se eu não aparecia, era ela a primeira a indagar, a coscuvilhar para onde fui e com quem.
Era ela que intrigava, metia o veneno às outras e portanto estava a meter-me a vida num inferno.
Um dia, disse-me que no domingo próximo faria 20 anos e queria almoçar comigo a sós e sem o conhecimento de ninguém. Que sim, que contasse, pois iríamos os dois fazer um fim-de-semana a Badajoz. Ficou nas nuvens e cacarejou perante as outras durante toda a semana.
Comprei um broche (este em forma de papagaio, vindo expressamente da selva amazónica) para lhe oferecer, mandei embrulhar e meti-o no porta-luvas do carro.
Na véspera do dia aprazado partimos rumo a Badajoz, levando quase quatro horas, mais alfândega, para nos instalarmos no Zurbaran, unidade hoteleira de 4 estrelas. No quarto lavei-lhe as costinhas a seu pedido. Verdade que não ia muito à bola com aquela cara e feitio, mas já que estava, deixei estar e portanto seja o que Deus quiser amanhã se verá.
Depois de jantar saímos para dar uma volta, mas Badajoz ainda hoje tem pouco que ver, fará naquele tempo. A calle S. Juan, junto da Catedral, era o melhorzinho da Cidade e a “Alba” onde todos os portugueses compravam caramelos e brandy Pedro Domec era visita obrigatória.
Recordo bem. Numa farmácia mesmo ao lado da “Alba”, comprei uma pasta dentífrica, daquelas que quando se apertava saía com duas riscas à cores. Era novidade e ainda não tinha chegada à terra dos parolos (a nossa). Embrulhadinha, meto-a no porta-luvas do carro.
Dormimos alguma coisa. A moça tinha insónias e estava preocupada com medo que os seus pais viessem a descobrir que não tinha dormido em minha casa.
Mas aí já era tarde, o comboio que o Zé tinha apanhado seguia em velocidade acelerada sem admitir qualquer possibilidade de travagem, caso contrário podia ocasionar algum descarrilamento.
Quando partimos de regresso ainda o sol ia alto, mas tinha por hábito nas minhas viagens chegar sempre em noite cerrada para evitar alguns mirones indiscretos.
Já bem perto de casa, a Gertrudes faz-me lembrar que afinal tinha passado um fim-de-semana comigo, coisas que para ela era inolvidável, e que eu nem sequer lhe tinha dado os parabéns pelos seus anos. Anos que tinha guardado para mim (não pensem mal).
Dando atenção ao trânsito, disse-lhe que me tinha preparado para lhe fazer uma surpresa e que no porta-luvas havia uma prenda para ela. Pegou-a, não a abriu, mas pregou-me uma beijoca tão lambuzada de agradecimento que tive de passar com manga da camisa para a limpar.
A partir daí e até chegarmos, era outra mulher. Despedimo-nos, com a promessa de não falarmos às outras rançosas do nosso passeio, que ficariam ruídas de inveja se soubessem.
Dois dias depois, retirei a pasta dentífrica para lavar os dentes e, no seu lugar já quase asfixiado e algumas penas a cair, encontrei o broche que tinha comprado para oferecer à priminha.
Lembrei-me imediatamente do Eça de Queiroz, quando por engano trocou a relíquia vinda da Terra Santa e destinada à titi.
Até hoje, nunca tugiu nem mugiu, nunca mais foi à minha casa e nunca quis aceitar falar comigo para uma explicação.
Eu não tive culpa, ela é que pegou no embrulho errado. Mas que passou a andar com os dentes mais branquinhos, isso é incontestável.

22.9.08

O MEU CÃO “FIORE”

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Imagem rigorosamente igual, incluindo a raça, quando pôs na boca a dentadura da sogra do Zé


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Era um dia de calor insuportável. A sede do concelho da terra alentejana estava ao rubro; aquele mês de Agosto tinha rebentado todas as escalas dos termómetros.
Sentado na cadeira de verga, a fazer parte da mobília que tinha encomendado e vindo expressamente da ilha do Atlântico, naquela sala da casa de madeira, oferta do Governo da Suécia, após o vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, para fazer face à avalanche dos refugiados de Angola e Moçambique, eu olhava a televisão (note-se que não fui retornado e nem sequer alguma vez visitei as chamadas colónias ou províncias ultramarinas, algumas daquelas casas serviram para alojar outros que se encontravam a trabalhar nas terras alentejanas e não havia habitação para lhes oferecer).
A ventoinha trabalhava a toda a velocidade e o meu pensamento vagueava, como se circulasse num automóvel descapotável com o vento rude e grosseiro a bater-me na cara, tornando a minha pele mais morena e acentuando-me as rugas.
O Setter, cão irlandês que tinha adquirido por cinco mil escudos a um estudante de veterinária na Faculdade de Lisboa, veio deitar-se em cima dos meus pés.
Este acto contribuiu para eu vir à realidade e dou com o animal a mirar-me, olhos nos olhos, como se estivesse a implorar qualquer coisa. Mudei de posição, retirando os pés de baixo do seu corpo. Levantou-se, fitou-me e tornou a deitar-se do mesmo jeito, com os olhos postos nos meus.
Então percebi o que se passava e compreendi aquela voz silenciosa do meu canito.
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O cachorrinho foi tratado com todo o desvelo, acariciado, mimado e aprendia com uma facilidade invulgar os ensinamentos que lhe dávamos.
Fazíamos campismo e tínhamos uma caravana no Parque da Urbitur, no Guincho, dormindo numa barraquita improvisada que lhe arranjámos e bastou um sinal para entender imediatamente que ali era o seu local de pernoita.
Durante a semana, havendo poucos campistas, saltava e corria livremente por entre as tendas, em velocidade louca. Por vezes, nessas correrias, deitava uma espia abaixo e lá tinha que ir pôr tudo em ordem. No entanto, podia continuar a passar mil vezes por esse sítio que nunca mais tropeçava nela.
Aquela “criança” brincalhona, em casa de minha sogra, tendo-a apanhada distraída por ter colocado a dentadura na beira da banheira, meteu-a na boca e brincou, correndo e desviando-se, antes que à força lha tirassem.
A minha mulher, funcionária pública, ia ser transferida, a seu pedido, para uma unidade hospitalar perto de Lisboa, para não estarmos separados toda a semana, dado que o meu trabalho também se situava na zona.
Sentíamos que o nosso “menino” gostava tanto de mim como dela, pois quando os visitava à quinta-feira a sua alegria era demonstrado das mais variadas maneiras.
Mas aquela deslocação de lugar de residência obrigava-nos a pensar no que fazer com animal, se deixávamos de ter condições para o manter. Era um problema que teria de ser resolvido com brevidade.
A minha mulher tinha, no Hospital de Portalegre, um colega que era caçador e que se interessou pelo “Fiore”.
Uma noite, conversámos sobre o assunto demoradamente e alvitrei que ela fosse ver o alojamento que o colega tinha para oferecer ao nosso príncipe.
No outro dia veio com a notícia de que, amanhã vou a “Galoucha”, povoação sita mais ou menos a 7 km da capital do Alto Alentejo, para ver as instalações e o seu colega estava entusiasmado com a oferta.
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Implorava-me aquele olhar, demonstrando o desejo de não querer sair da nossa companhia.
Afaguei-o, não o demos e foi para Queijas, onde ficou até ser roubado.
Sentimos tanto desgosto como se de um familiar muito chegado se tratasse.

8.9.08

Sabrinas de padrão escocês


Depois daquelas cenas em que me vi envolvido por ter namorado duas “Margaridas” e da forma desastrosa como tudo acabou, resolvi ter juízo, ser bem comportado e não dar desilusões à mãe Júlia.
Eu bem tentava, de todas as formas, não contribuir para a sua infelicidade, dado que sabia que se preocupava muito com o seu “colibri”. Mas o tal cornudo da forquilha e do capote vermelho não me largava, colocando-me à frente dos olhos autênticos monumentos andantes, falantes e cheios de paixão.
Eu bem não queria, alhadas já me bastavam, mas ele segredava-me ao ouvido a todas as horas, que namorar duas ao mesmo tempo sempre era melhor do que ser só uma e prometia-me coisas que hoje me envergonho só de pensar nelas.
És um burro, dizia-me ele, há lá coisa mais saborosa… és um tonto, não sabes aproveitar as oportunidades que te dou.
É claro, acabei por seguir o seu conselho e mais uma vez acabou de maneira desastrada.
O Zé tinha a protecção da mamã, o Zé tudo quanto ganhava era para os seus devaneios, e a mãe Júlia era raro o mês que por debaixo da mesa da cozinha não lhe metia umas notitas na mão.
E, o Zé começou a namorar uma “brasa” de se lhe tirar o chapéu. Era boa rapariga e cheguei a pensar que finalmente ficaria por ali.
Residia num terceiro andar num prédio de seis, com dois apartamentos por piso, que tinha elevador cuja porta era de lagartas.
Seus pais fizeram questão de conhecer quem era o passarão que arrastava a asa à filha e acharam por bem consentir no namoro; passando às terças-feiras e quintas a visitar a apaixonada, durante ou depois do jantar e, desde que às vinte e três horas alçasse os cucos, dando por encerrada a conversa, que na maior parte das vezes, não passava de sussurros para que os “velhotes” não nos ouvissem.
Reparava que o papá tinha pouca confiança no Zé, já lhe devia ter chegado aos ouvidos alguns zunzuns, porque quando se sentava para ver televisão, colocava-se sempre em posição de não retirar um olhinho dos pombinhos e em tom baixo, mandava a mamã afastar-se da frente.
A coisa corria bem, mas ao fim de quatro ou cinco meses encontrei no elevador do prédio – e quando me dirigia para a “roça” – uma cara que não conhecia e de quem nunca tinha ouvido falar. Aspecto desenxovalhado, cara branquinha, pele fina, papo bem cheio e que cheirava a galinha do campo, coisa rara nas redondezas.
Encontrava-me já dentro do ascensor, iniciando o movimento para fechar a porta de lagartas, mas ao ver chegar aquela ave cheia de frescura, beleza a irradiar saúde e simpatia, levantei as orelhas, qual perdigueiro em presença de uma lebre e dei-lhe passagem.
Meti conversa e fiquei a saber que era empregada doméstica no 5º direito, desde há somente 7 dias.
O meu coração batia desordenadamente e lembrei-me das Margaridas (se fosse agora até me lembrava da cantiga do Marco Paulo, “eu tenho dois amores”). Qual filme desenrolado no “além”, vejo o “cornudo” rir-se e fazer-me sinal com a mão fechada, o dedo polegar virado para cima, como a querer dizer-me que eu não perdesse a oportunidade.
Nunca o elevador subiu tão depressa até ao terceiro andar como naquele dia, despedi-me com um sorriso e uma vénia e fiquei no patamar à espera, para ouvi-lo parar, abrir e fechar a lagarta, abrir e bater a porta de casa, nos dois pisos mais acima…
Respirei fundo, bati na porta da namorada que me esperava de braços abertos com o seu sorriso encantador e um olhar que só ela sabia fazer.
Nessa noite, o Zé pouco tinha para conversar e nem uma oferta para beber um copo, feito pelo pai da nubente me animou, e achei mesmo que as vinte e três horas demoraram a chegar.
Passei a desejar encontrar naquele transporte vertical, a Carla, nome da empregada doméstica e a imaginar qual o paladar que teriam as sopas e outros acepipes, feitas por aquelas mãos e que mais “melaços” saberia fazer. Os dedos polegares, tinham sinais de alguns cortes, fruto de descasca de batatas, mas isso não me interessava.
Talvez por coincidência ou por obra do “mafarrico”, sempre que ia subir na “caixa”, ela aparecia, trocávamos olhares e passámos a cumprimentarmo-nos apertando as mãos, que com o tempo passaram a demorar mais a separarem-se.
Um dia perguntei-lhe qual era o seu dia de folga e encontramo-nos no cruzamento das Amoreiras, local de tão boa memória, pelas aventuras e desventuras do arquitecto Taveira, dia em que chovia e que por isso julgava que ia faltar. Nada disso, a moça teve palavra. Passámos tempo a circular pelas ruas de Lisboa, falando de tudo ou de nada, coisas ao acaso. Beijamo-nos, apertámo-nos, fizemos juras de amor, sem sequer dar importância à traição que estávamos a cometer.
Tivemos vários encontros, todos à socapa evidentemente, sem que alguém e muita menos a Victória se apercebesse.
Para lhe fazer oferta de prenda em dia de anos, comprei na sapataria Violeta sita rua de S. Justa, umas sabrinas de padrão escocês. Nesse dia, que não coincidia com terça ou quinta, fui ao prédio disposto a entrega-los. Subi e desci o ascensor e ela não aparecia.
Fiz tantas viagens para cima e para baixo que a Victória, em casa, ouviu a máquina a trabalhar tanto tempo que resolveu ver do que se tratava.
Encontra-me no patamar com a caixa na mão, estranhou a minha presença e pergunta-me o que fazia ali e o que trazia na caixa. Não tive mais que fazer do que oferecer os sabrinas à namorada, que me beijou demoradamente, como agradecimento de tão gentil acto.
És um amor, meu querido, fazendo-me vir à face um vermelhão e um sorriso malandreco.
- Só podia ter sido o meu anjo da guarda a proteger-me perturbando e desfazendo a trama em que o “demo” me metia.
Pois foi, mas o anjo da guarda, julgando o caso arrumado definitivamente, bateu as asas e voou, deixando o Zé entregue novamente às traquinices do “diabo”.
A seu conselho resolvi voltar à Violeta, comprar outras sabrinas perfeitamente iguais, que entreguei à Carla, sem qualquer dificuldade.
Pouco tempo depois, e já se conhecendo, encontraram-se numa paragem de autocarro, calçando sabrinas iguais e estando ambas orgulhosas pela oferta que os namorados lhes fizeram.
Palavra puxa palavra e foi o desmoronar da ilusão da Victória, regressando a casa com muita baba e ranho e com vontade de me dar com as sabrinas nas “ventas”.
Assim que eu soube, através de um telefonema que a Carla me fez, nunca mais voltei ao prédio, não fosse o diabo tecê-las e ver-me envolvido noutra ocorrência desagradável, que desta vez era capaz de meter o José Botas, pai da Victória.
Vejam lá a ingratidão das mulheres, fui um mão abertas, calcei as duas moças e como pagamento do facto levava com as Botas do José no fundo das costas, que ainda me partia o cóccix.
A partir dali, fiquei com uma raiva ao guardião do inferno, que ainda hoje não o quero ver. E fiz uma jura.
Nunca mais fazer caso do diabo, namorar sim, mas uma de cada vez.

25.8.08

Acidente de Trabalho


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Meus caros amigos:
Nas andanças pelo mundo, o Zé foi aventureiro, namoradeiro, “cafageste”, como dizem os brasileiros, sei lá que mais coisas poderia acrescentar.
Fui um assíduo frequentador do Parque Mayer. Tinha pelas revistas à portuguesa um carinho muito especial. Não faltava em noites de estreia e houve algumas que as vi tantas, tantas vezes, que tenho a certeza que era capaz de substituir algum actor que faltasse. Havia um motivo para não deixar aquele recinto: é que a cantiga da Anita Guerreiro diz que os rapazes cheiram-lhes a raparigas e era esse cheiro que eu sentia quando lhe passava perto. O cheiro às coristas das revistas.
Tinha um amigo (julgo que já faleceu) que possuía uma casa com muitos quartos na rua Fernão Lopes, ali mesmo ao Saldanha, prédio já demolido, como todos os outros do mesmo lado dessa rua, que alugava quartos às coristas dos teatros do Parque Mayer.
Portanto já estão a ver! Cheiro a raparigas, coristas, e contacto fácil na casa do amigo que me as apresentava, deixando depois por minha conta os “ I love you”.
No prédio do amigo, no tempo do agarra, agarra, chegou a estar lá instalado o mrpp nos dois rés dos chãos, esquerdo e direito, tendo se calhar na altura sido ponto de encontro para o Durão Barroso, actual presidente da Comunidade Europeia, quando seu militante. De quando em quando havia visitas de outros partidos e a bordoada estalava por todo o lado, chegando alguns apaniguados do mrpp a refugiar-se, vindo pelas escadas de ferro das traseiras, em casa do meu amigo Sousa que residia no 3º andar esquerdo.
Os esgotos dos prédios antigos eram exteriores, de manilhas grés, feitas na cerâmica do Carvalhal, povoação situada perto de Terras Vedras. Era inestético, é verdade, mas em contrapartida quando por qualquer razão era necessário mexer-lhe, seria fácil a sua reparação. Estavam sempre situados nas traseiras e portanto não se viam, sendo as ligações das referidas manilhas feitas com cimento.
Um dia, nesse prédio houve uma rotura num desses canos ao nível superior do rés-do-chão, sendo necessário proceder à sua reparação.
O artista (pedreiro), no dia combinado com o proprietário do prédio, chegou cedo, montou escada que encostou à parede, subiu para confirmar bem o local da fissura, estudou a maneira mais conveniente de fazer um trabalho perfeito, preparou toda a ferramenta e atirou-se ao osso.
Antes porém, e não poderia ser de outra maneira, foi a todas as casas do lado esquerdo do prédio e recomendou que não fossem usados os esgotos, naquela manhã, porque ele ia proceder à sua reparação.
Todos os inquilinos tomaram conhecimento do facto e prometeram respeitar aquele pedido.
O homem iniciou o seu trabalho em cima das escadas, batendo com escopo e martelo ao nível da sua cabeça, partindo o grés da manilha, para poder fazer um remendo eficiente e definitivo para acabar com a anomalia.
Aí pela volta das 10:30, o Zé sobe as escadas do amigo para lhe fazer a costumeira visita, ouve a batucada do pedreiro, mas como é evidente não ligou ao assunto, até porque o desconhecia.
Chegado ao 3º andar, bate à porta, cumprimenta o amigo, que aproveitando a oportunidade da sua presença, pede para ficar ali em casa por 20 ou 30 minutos, dando-lhe assim a possibilidade de dar um pulinho ao Mercado do Matadouro, ali ao fim da rua, comprar abastecimentos para a comida do dia.
Claro que sim, e fico guardião do casebre pelo tempo que o Sousa se deslocava ao mercado. Judiei um pouco com um papagaio que tinha na gaiola preso por um pé e deu-me vontade de ir à casa de banho.
Na parede ao lado da sanita, existia uma janela que estava aberta e que dava para o saguão, ouvindo-se perfeitamente a labuta do pedreiro a arranjar a deficiência com esmero e perfeição, coisa a que eu estava perfeitamente alheio.
O Zé assenta-se e não é necessário dar mais explicações, porque todos nós sabemos o que o Zé fez. Acabado que foi o seu serviço, puxa a corrente do autoclismo e não tarda, que sente alarido, espreita pela janela e vê o pedreiro a ficar engasgado com a enxurrada que veio pelo cano abaixo.
Nesse preciso momento entra o Sousa, que ao ter conhecimento do uso inadequado da sanita ficou preocupado e tem este desabafo “ coitado do senhor, a fumar de charuto, quando nem toca em cigarros”.
Aí, não resisto e dou uma valente gargalhada, imediatamente abafada pelo barulho que ouvimos nas escadas.
O “sinistrado”, com a maceta na mão (coisa aí de 1 kg.) sobe-as e bate em todos os andares do lado esquerdo a perguntar quem tinha feito um trabalho daqueles, e que lhe dava com a maceta nos “.ornos” que o lixava.
Com os acontecimentos em desenvolvimento acelerado, optei em fazer figura de cobarde, não fosse acabar nas urgências do hospital de Santa Maria, ou estendido dentro de uma gaveta no piso -2.
O Sousa (era especialista em simulações) responde que dali não foi, porque ele nem estava em casa, tinha acabado de chegar naquele momento.
O certo é que o pedreiro desalvorou (sem ter feito o gosto ao dedo). Nunca mais lá apareceu e o dono do prédio teve que contratar outro para acabar o trabalho.
Todo o cuidado é pouco, até em casa e sentado na sanita um homem não está descansado, até naquele lugar pode originar um acidente de trabalho.
A seguradora deveria ter tido alguma dificuldade em atribuir, para estatística, o acidente na secção de Domésticos ou de Construção Civil.

11.8.08

Dor de dentes

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Em certo mês do ano de 1976, encontrava-me com uma dor de dentes.
Naquela altura, havia poucos dentistas no nosso País e uma consulta, paga a peso de ouro, era marcada muitas vezes com meses de antecedência.
A todos os dentistas que conhecia, já tinha batido à porta, sem resultado. Até que lembrei-me de repente da “consulta que resulta” e catrapus, pego na lista telefónica das páginas amarelas e procuro anúncio de dentistas. Eram duas páginas cheias deles e tratei de procurar um que fosse o mais perto possível do local onde trabalhava, ali para os Olivais, mais propriamente onde hoje está instalado o Centro Comercial Vasco da Gama, em plena Expo 98.
Logo no primeiro da lista, situado na Avenida Duque de Ávila, em Lisboa, informou ser possível ser atendido. Perguntam qual o dia que desejava e a hora pretendida. Caí das núvens e não me fui abaixo das pernas porque estava sentado. Como era possível, bater a tantas portas não conseguindo e, através da lista telefónica, tinha-se-me aberto o céu! Respondi: "logo de tarde, pelas 14 horas, aí estarei". Mesmo assim a senhora informou-me que se não fosse às 14 era na hora que eu quisesse.
Desligo o telefone e fico a matutar. Será que liguei a número errado e alguém do outro lado esteve a gozar comigo?
Confirmei, e para justificar a chamada, informei que a hora que tinha marcado não era a mais conveniente, pelo que perguntei se seria possível para amanhã e a que horas?
Com certeza, ficaria para o outro dia e que eu dissesse a que horas me conviria. Fico ainda pior do que já estava e das duas uma, ou o dentista era muito novato e não tinha clientela ou era algum barbeiro-ferrador que tinha vindo morar para Lisboa.
Portanto, foi cheio de medo e incertezas que no outro dia, à hora aprazada, lá me dirigi à Avenida Duque de Ávila disposto ao que desse e viesse.
Inspecciono o prédio, fachada com azulejos azuis, porta de alumínio e nenhuma tabuleta indicando que no rés-do-chão esquerdo existia dentista. Preocupado, constato que uma mulher com lenço na cabeça, um cabaz de vime na mão, com dois galos cujas cabeças carecas saíam do dito, tocava a campaínha da porta do tal rés esquerdo.
Se eu estava preocupado e cheio de dúvidas ao ver aquela cena ainda mais me preocupei. Se os galos não têm dentes, que fazia aquela mulher a bater à porta dum dentista?
Será para porem prótese? E logo aos dois? - Penso com os meus botões.
Aproximo-me e perguntei à senhora se conhecia o dentista e se era bom profissional.
Ah!... De maravilha, responde-me. Aliviei-me e fiquei tranquilo, só a dor não me largava, mas o espírito ficou leve como uma pluma.
A porta abre-se, a mulher, com o cabaz e os “carecas” lá dentro avança, e eu atrás, seguindo a ordem de chegada, fomos recebidos pela senhora que presumivelmente me atendeu na marcação para a consulta. Fiquei à porta, esperando que a fulana das aves fosse atendida e então apercebo-me de duas coisas:
A primeira, era que a da casa julgava que eu tinha alguma ligação com os galos e a sua dona, e a segunda era que a fulana dos animais de capoeira não conhecia o doutor nem ninguém da casa, mas tinha tido conhecimento de que aqueles iam abandonar a dita e, portanto, tentava ver se ficava com ela, razão por que levava os dois bichos para pagar o preço do favor.
O meu coração apertou outra vez, fiquei apático sem saber o que fazer e denuncio que nada tinha a ver com os galináceos, mas, sim, que tinha uma consulta marcada. Manda-me entrar e chama: - João, está aqui o senhor da consulta, continuando na conversa pois a perspectiva de umas canjas não era coisa para desperdiçar. Não fiquei a saber se eles mudaram ou não de dono, se acabaram de churrasco, de fricassé ou com arroz.
Os meus sentidos, a partir daquele momento, ficaram interessados em assunto mais importante. Saído presumivelmente da cozinha, do fundo do corredor, avança para mim um homem já muito velho, o doutor, andando vagarosamente, com uma bata que, em tempos, já deveria ter sido branca, com os cabelos da mesma cor, em pé, um Einstein autêntico. Manda-me entrar para um quarto, o consultório, sem dúvida, mas sem qualquer utilização há muito tempo. O chão, as secretárias, a cadeira do paciente, tudo que era sítio, encontravam-se cheias de envelopes que, vindos pelo correio, nunca foram abertos, jornais nunca lidos eram atirados ao acaso lá para dentro, ficando onde fossem parar. Senti vontade de chorar e fugir de tudo aquilo, mas a dor não me largava e segredava-me que era só mais um pouco de paciência e sacrifício, para acabar com o martírio.
Depois de afastadas as papeladas de cima da cadeira, sentei-me e avisei alto e bom som que não queria arrancar o dente, mas somente um arranjo.
- Combinado, respondeu o doutor, com a sua voz ciosa e vacilante. Acomodei-me, ele pega no holofote, tira a mão e este apaga-se. Coloca a mão e aquele acende-se, tira a mão apaga-se, põe a mão acende-se e diz para mim: Segure aqui. Segurei o holofote, acendeu-se e… agora imaginem, eu de boca aberta, segurando o holofote, e o doutor a arranjar-me o dente, sentindo-me, nessa altura, um paciente sujeito às experiências de um filme de “Boris Carlof”. Na realidade, só numa cena de filme cómico ou num número de palhaços de circo aquilo era possível.
Enfim, acabado o trabalho, e depois de receber a recomendação de, com a língua, não arrancar a massa acabada de colocar, pergunto quanto devia, e aí, mais uma vez, recebo outra surpresa.
- São 20$00. Para quem já perdeu a noção da paridade da moeda, esclareço que 20$00 é igual a dez cêntimos.
Caramba, o homem estava parado no tempo; há quantos anos, não era possível adivinhar.
Dois ou três dias depois, a massa caiu e a dor voltou, talvez redobradamente. Estou angustiado pela impossibilidade de resolver aquele problema tão complicado e que tanto mal-estar me causava, vou a um pequeno estabelecimento de comes e bebes que, nessa altura, existia na Av. 31 de Janeiro, quase esquina com a Avenida da Igreja, em Alvalade, na tentativa de comer qualquer coisa.
Quem já teve dor de dentes sabe que a alegria nos foge, o bem-estar desaparece e a tristeza nos invade.
O pequeno comércio estava cheio, eu, pensativo, esperava o que tinha solicitado, na expectativa de, pelo menos, meter alguma coisa no estômago.
Eis que vejo entrar uma amiga de longa data, que já não via há anos, acompanhada de um cavalheiro e que, ao reconhecer-me, aproximou-se, apresenta o marido e convidei-os a sentar e acompanhar-me na minha mesa.
As conversas da praxe, o que fazíamos, há que séculos não nos víamos, o casamento, o seu rebento, hoje um belo rapaz, já formado. Enfim, todas aquelas conversas que se fazem quando os amigos não se vêm há muito.
Quando nos despedimos, o marido da minha amiga ofereceu, como é hábito, que se algum dia necessitasse dos seus serviços, estaria sempre disponível e às ordens.
Naquela ocasião, com a dor de dente a apertar, pus a mão no queixo e disse: Meu caro amigo, o que eu necessitava, nesta altura, era de um dentista, pois ando aqui há um ror de tempo a penar com uma dor que não me larga.
Eureka, que disse eu... Puxa da carteira, ripa de lá um cartão, mete-me na mão e diz:
- Esteja amanhã nesta morada, às 9 horas, pois eu sou lá dentista e resolvo-lhe o problema.
Nem queria acreditar, mas hoje, tantos anos depois, continuamos a ser bons e velhos amigos e até são os meus padrinhos de casamento.

28.7.08

“Alfa Pendular”


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Sentei-me à frente desta máquina fascinante, com o intuito de escrever mais uma história ocorrida durante esta minha curta passagem pela vida terrena. É certo que ainda cá estou, mas segundo parece já tenho as campainhas celestiais limpas com “solarine”, afinadas, reluzentes e prontas para tocarem quando eu aparecer a bater à porta do céu.
Todavia, fui informado pelo meu subconsciente, que no inferno também preparam festejos e que já há uma quantidade de “cornuditos de elite”, pronto a raptarem-me na hora H, com o sentido de me acolherem definitivamente no seu convívio.
Portanto, eu que já há muito tempo estou preparado para iniciar a viagem, sinto-me constrangido e infeliz por saber a trama que se desenrola nas minhas costas.
Num dos lados o Céu e no outro o Inferno. No primeiro não me oferecem nada e entrarei (o que acho improvável) se tiver sido sempre bem comportado, no segundo oferecem-me uvas moscatel, pêssegos, bananas, anedotas picantes, licor de Ginja de Alcobaça, Tortas de Azeitão, Sardinhas, Tripas à moda do Porto, arroz de lavagante e voltas ao Mundo sem parar acompanhado de mulheres, mulheres muito lindas e boas como o milho.
Encontro-me pois num “tri-lema” e não estou a descortinar como vou sair desta enrascada. Julgo até que a dar-se o rapto não tenho alternativa, já que as tropas do Céu não estão tão preparadas e não possuem material bélico tão sofisticado com as do Inferno.
Só me resta então, fazer a minha luta com as armas que disponho, não fazendo caso de ofertas tentadoras, mantendo-me por cá mais uns tempos, gozar a vida e tentando fazer em cada dia uma história de amor e humor.
Nos primeiros dias de Junho passado desloquei-me a Braga e à Galiza, utilizando, até à Capital do Minho, o Alfa Pendular, com saída às sete da manhã de Santa Apolónia.
A carruagem em que viajava tinha muitos lugares vagos, sinal de que havia poucos passageiros, já que aquele comboio é de lugares marcados obrigatoriamente e portanto as faltas são notórias. No lugar de janela contrária à minha, mas uma fila à frente, viajava uma senhora de meia-idade, bem vestida, bem penteada, mãos bem tratadas e unhas arranjadas. Trazia uma pasta com muitas folhas A4 e entretinha-se a passar a vista por elas, fazendo anotações, como quem está a rectificar pontos escolares.
Admiti portanto ser professora, ocupando o tempo de viagem a trabalhar.
Em dado altura, vindo da carruagem bar, surge um senhor negro, grande, grande mesmo e com uma bunda enorme, sentando-se ao lado da professora.
Eu observava o caso discretamente mas com os olhos sempre em busca de algo para me divertir.
A Senhora mexia-se, virava-se de um lado para o outro, não estava bem. Julguei ser pulga atrevida, mas depois fiquei completamente esclarecido. O homem exalava um cheiro nauseabundo e pensei. Como é possível um homem bem vestido, sapatos engraxados, engravatado, pasta tipo “James Bond”, cheirar tão mal. Porque não foi à casa de banho vazar aquele bandulho, decerto, atulhado de couve-flor e feijão preto miudinho que os brasileiros mandam para cá.
Do meu lugar “observatório” apercebo-me que a coisa estava “preta” para aqueles lados, e só terminou quando a senhora resolveu telefonar a alguém que a fosse buscar a Gaia, pois estava agoniada e não podia fazer a viagem até Campanhã.
É que o grandalhão, assim que se sentou, tirou os sapatos para ficar com os pés mais à vontade e consequentemente aliviado de apertos.
Para dar a possibilidade da senhora poder sair, levantou-se mesmo descalço e passou ao corredor, vendo nessa altura, em cada uma das suas meias, dois enormes buracos, um nos calcanhares e outro à frente nos dedos grandes.
Em Campanhã esperava-me uma nossa “blogueira” que me queria conhecer, acompanhada do marido, de um dos filho e de uma adoptiva malhada e orelhas caídas (já é estrela, pois aparece com frequência na net), onde no futuro irão acampar um casal de carraças, que irão dar continuidade à sua espécie.
Cumprimentámo-nos rapidamente e fiz-lhe referência que era capaz de ter nascido uma história naquela viagem, e, não fosse ela colocar-me a mão nas costas e empurrar-me para o comboio, o Zé teria ficado em terra…
Portanto, meninos e meninas, nada de tirar os “chanatos” em publico, porque o sulfato de peúga tem um cheiro que incomoda todo o mundo.

15.7.08

Margaridas portuguesas nos Jardins de “Alhambra”

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Todas as histórias que o Zé vos contou até agora, tiveram um final feliz.
Não é com o intuito de variar, mas, pelo menos, contar uma que me marcou durante algum tempo, até me meter noutra, e que agora à distância em tempo acho que deve ser contada.
Pensei maduramente se deveria ou não contá-la e cheguei à conclusão que os amigos o merecem. Espero que as gentes femininas delirem e estou preparado para um puxão de orelhas.
O Zé, que sempre foi bom rapaz, filho de boas famílias, respeitador e cumpridor das suas obrigações, asneou e meteu-se numa alhada de se lhe tirar o chapéu.
Todos nós temos uma idade de ouro, e o Zé acha que a sua teve o apogeu na casa dos 27.
Namoradas nunca lhe faltaram, mas houve duas que lhe deram água pela barba.
E vamos aos factos.
Aí por volta de 1958 (que saudades tenho desse tempo) comecei a namorar a Margarida. Doçura, morena, cabelo e sobrancelhas bem preto que era a cobiça da rapaziada lá do meu sítio. Sentia-me vaidoso por ela se ter rendido aos meus pés e orgulhoso pela conquista.
As coisas corriam sobre rodas e a moça já falava em casamento.
Só que cá o rapaz não pensava da mesma maneira. O carvão, às vezes, está no fogareiro em chama viva e, noutras, mesmo a dar-lhe com o abano ela apaga.
Talvez porque a chama não estivesse tão elevada, atravessou-se no meu caminho outra Margarida, a quem a partir de agora passo a designar por Margarida II (autêntica Joana d’Arc) mais velha três anos, alta, espadaúda, que julgando chegar a sua hora, se atirou de corpo e alma nos braços do Zé, deixando-o aparvalhado.
Como explicar à mãe Júlia a embrulhada em que me estava a meter, se ela conhecia a Margarida I e também, na qualidade de mãe, gostava dela. Por falta de coragem ou cobardia, resolvi ir em frente, namorando as duas ao mesmo tempo e fosse o que Deus quisesse...
A Margarida I, submissa e ternurenta, e a Margarida II uma “rabiteza” dos diabos.
Tinha a vantagem de nunca me enganar no nome, quando falava da namorada ou quando lhes dizia ao ouvido aquelas coisas doces que qualquer mulher apaixonada gosta de ouvir.
Chegado o Verão, marco com a II férias num hotel em Torremolinos, por 15 dias. Mas, sem ela saber, marco 15 dias para ela e só quatro para mim e em Maiorca, na praia do Arenal, hotel cujo nome já não recordo; marco seis dias para mim e para a Margarida I.
Era necessário estar muito atento para não fazer confusão, já que as datas eram as mesmas.
Quando cheguei a Torremolinos, combinei com o recepcionista do hotel para me informar, na presença da Margarida II, que o meu pai tinha telefonado para eu regressar imediatamente, dado ter uns problemas nas adegas para resolver e a minha presença ser imprescindível.
E certo é que o plano resultou em pleno, tendo vindo no meu Ford Cortina, deixando a Margarida II lá sozinha, com a promessa de voltar para a trazer, ou então nessa impossibilidade, o regresso far-se-ia de autocarro até Lisboa, com uma data de transbordos de meter medo.
Assim que regressei, fui buscar a Margarida I, arrumei a sua bagagem na mala do carro, despedi-me da mãe Júlia, que me atirou um olhar enternecedor de felicidade e lá parti com a querida, com destino a Valência, onde apanharia o barco para a travessia e destino à ilha. A querida ia felicíssima, era a primeira vez que saíamos sozinhos e logo para um destino de sonho (não esqueçam que estamos em 1958).
O golpe estava perfeito, contentava as duas Margaridas. Mas o tal “cornudo da forquilha e que veste de vermelho” fez-me a partida.
O destino atirou-me por Beja, Aracena, Sevilha, Granada… E aqui cometi o grande erro da minha vida. Fomos visitar o palácio árabe “Alhambra”, monumento classificado pela Unesco como património do Mundo.
Quem já lá foi conhece o roseiral à volta daquele espaço, que tem muitos repuxos de água em arco.
É um encanto e sítio adequado para fazer umas “kodaks”, desfrutando de momentos idílicos entre namorados.
A Margarida II, em Torremolinos sem a minha presença e achando interessante alargar os seus conhecimentos do mundo, adquiriu uma viagem em excursão de um dia anunciada no hotel, com almoço incluído e visita ao “Alhambra” em Granada, no mesmo dia.
Aqui, peço a vossa colaboração para imaginarem o Zé todo embevecido a tirar umas fotografias à sua amada Margarida I, no meio das rosas vermelhas daquele roseiral (era mais uma flor naquele jardim), quando apareceu a Margarida II, que sem dizer água vai, prega uma “bolachada” na cara da Margarida I que a moça, coitada, nem soube de que terra era. A minha primeira reacção foi de surpresa e, como a II ia continuar a malhar, corri para ambas e apartei-as, querendo impor moral, quando eu já não a tinha.
O enxame de turistas que estavam por ali desatou a tirar fotografias, parecendo uma noite de gala em Nice, na chegada das celebridades para um festival de cinema, mas ninguém se metia.
A Margarida II, vem de mão aberta para me oferecer uma rosa igual à que já tinha dado à sua homónima e eu só tive tempo de me baixar, quando não, ficava com dois ou três dentes partidos.
A cena seguinte foi as duas a puxarem pelo pólo que o Zé trazia vestido, esfarrapando-o, como se quisessem ficar cada uma com a sua metade (seria o espólio da minha fraca herança a dividir por ambas) e, simultaneamente, com umas lambadas à mistura, em que o Zé era o mais visado, servindo de bombo da festa.
Aparecem dois guardas no local, que, ao aperceberem-se de que o assunto de amores e desamores seria resolvido definitivamente com uns cabelos arrancados e uns borrachos nas bochechas, pôs os três na rua.
A viagem a Maiorca terminou à porta do “Alhambra” e com o desejo manifestado pela Margarida II de voltar já para Lisboa na nossa companhia.
Respondi-lhe que sim, desde que viesse algemada e com mordaça, não fosse dar-lhe outra fúria, mas a Marg. I sentenciou que preferia voltar para Portugal a pé do que com aquela companhia.
O destino da flor II ficou traçado naquela altura (ou o meu), só a vi de relance três ou quatro meses depois e o da I ficou também definitivamente arrumado, quando chegámos a Lisboa.
A viagem de regresso foi penosa e sentia-me arrependido de as ter atraiçoado (se calhar fruto dos sopapos que apanhei).
Ainda pensei em enviar-lhes as fotografias que tinha tirado naquela férias, mas como estavam incompletas, pois faltavam os seus melhores flashes tiradas pelos turistas, armados em papparazzis, desisti da ideia.Nas historias de vida de um homem “nem tudo são Rosas. Às vezes também são Margaridas e com espinhos bem aguçados”.

1.7.08

Carteiro-marreco


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Estória de uma desgraça que dá vontade de rir
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Quem não se lembra dos carteiros que faziam a distribuição de correio a pé, de bicicleta e, já mais tarde, de motorizada?
Eram simpáticos, diligentes e amáveis. Toda a gente os conhecia e às vezes até lhes era pedido que lessem a correspondência, pois os destinatários não o sabiam fazer.
Para ser carteiro, tinham que se inscrever, fazer provas e ter a quarta classe, ao contrário de agora, que, segundo parece, são escolhidos à molhada e executam o trabalho sem nenhum brio.
A maioria, coitados, são contratados por uma semana, 15 dias ou 30 e apenas para substituir em férias ou em doença, sem nenhuma preparação e são atirados para a rua sem sequer lhes dizerem ou ensinarem a responsabilidade que têm sobre os ombros.
Por estas e por outras é que o País está tão mal servido por um serviço que, sendo público, é de tamanha responsabilidade.
O Manuel era carteiro já há muitos anos. Era homem honesto, estimado por todos e a todos fazia favores de mãos abertas.
Tinha um defeito nas costas e, por isso, toda a gente lhe chamava marreco. Era pobre e nas horas vagas fazia uns recados, tratava de umas papeladas nas Finanças, nas conservatórias, pagava a luz ou a água. Enfim... lutava pela vida, já que ela sempre lhe tinha trazido agruras.
Até que, um dia, instalou-se na sede do concelho um solicitador, que tratou imediatamente de apresentar queixa pelo facto do carteiro fazer aqueles pequenos favores à população, que era rural e nem sequer sabia da existência da individualidade queixosa.
E o certo é que o Manuel carteiro lá teve de se sentar no banco dos réus no tribunal da comarca.
Constatou-se depois que o senhor solicitador não tratava das insignificâncias que o Manuel resolvia e que o tribunal, cumprindo a lei, lhe aplicou uma condenação com pena suspensa por dois anos.
Aos pobres tudo acontece e o Manuel, no cumprimento da sua actividade como profissional dos CTT, foi, em Arrentela, atingido por uma arvore centenária que lhe caiu em cima, num dia de temporal.
Ficou em mísero estado, esteve internado cinco meses, fui visitá-lo. Tinha amizade por ele e nunca lhe chamei marreco, não obstante ele, às vezes, falar comigo assim:
Oh Zé, anda cá, faz cá um favor ao marreco.
Quando entrei no quarto particular da clínica onde se encontrava, riu-se, ficou radiante com a minha presença e confidenciou-me: “Agora é que eu estou bem. Vê lá tu que até tenho telefone à cabeceira. Só foi pena a filha da puta da árvore não meter caído em cima da marreca, para ver se eu ficava direito”.
Eu que era, e sempre fui muito seu amigo e tinha pena da sua infelicidade, ao ouvir aquele fraseado, desatei a rir e disse-lhe:
Olha lá, em Arrentela há mais arvores centenárias, que se te caem em cima limpam-te o sebo de vez..
Morres, podes ter a certeza, mas tens a consolação de morrer direito.
Coitado, já faleceu, mas com a marreca, e o velho ditado, mais uma vez foi confirmado.
Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

13.6.08

Copo de água em Monsul

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Depois de já estar familiarizado com as gentes do Norte, fui, algumas vezes, convidado para casamentos de pessoas conhecidas.
Ente eles, houve um onde ocorreu uma cena que não posso deixar de relatar, pois os seus contornos foram engraçadíssimos.
Um casal a viver na margem Sul do Tejo, ele bracarense, ela da terra onde está instalada a Siderurgia Nacional, com um casal de filhos já maiores, também foram convidados, dado serem familiares do noivo e meus amigos.
Nos meses de Verão, são quase sempre escolhidos para a realização de casórios e na igreja do Bom Jesus de Braga, os residentes e os emigrantes que vêm a propósito para o enlace, dão um movimento que mais nenhuma igreja do País consegue igualar. Não faço ideia de quantos casamentos se realizam a um sábado ou domingo naqueles meses, mas garanto-vos que são muitos, muitos mesmo.
O casório em causa, realizou-se na igreja da Madalena, na encosta da Falperra, a poucos quilómetros de Braga e do Bom Jesus e quem estiver num destes sítios para se dirigir a Braga, pode fazê-lo directo ou com passagem pela outra igreja.
No local e antes do seu início, foi distribuída uma folha de papel com um desenho do percurso onde se realizaria o “petisco”, de forma a eliminar dificuldades que alguns tivessem, já que o local era em Monsul – Póvoa de Lanhoso, longe da cidade de Braga, e numa quinta que só poucos conheciam.
O tempo de ausência, aliado ao desenvolvimento das cidades, fê-lo perder a noção exacta dos sítios que, na sua meninice, lhes foram sempre familiares, pelo que lembrei aos recém-vindos para terem cuidado e não se perderem. Sem problemas, disseram-me, dado ser colocado um pouco de tule nas antenas de rádio de todos os carros e, portanto, não era difícil seguir o que ia à frente e, consequentemente, o de trás faria a mesma coisa.
A família Costa, nos dias em que estivessem na Cidade dos Arcebispos, ficavam num apartamento de um sobrinho na Rua Conselheiro Lobato (ali bem pertinho do Estádio 1º de Maio), que estava, como sempre, um brinquinho para receber familiares e convidados.
Quando todo o ritual do casamento católico acabou, os convidados dirigiram-se aos automóveis e partiram a caminho de Monsul. Uns descendo directamente para Braga e outros subindo com passagem pelo Bom Jesus. O Costa seguiu um que subiu e fez o percurso pelo Bom Jesus e aí, com os olhos postos no tule da antena, não se apercebeu de que o perseguido desaparece e ele estava atrás de um outro carro vindo de um outro casamento realizado no Bom Jesus.
O filho varão, com o papel na mão com a indicação do percurso, achava que tudo corria às mil maravilhas, pois a Póvoa de Lanhoso já estava à vista.
Na chegada à quinta onde os convidados iam acamaradar e encher a “pança” à conta dos pais dos nubentes, o Zé já tinha dado pela falta da família Costa e já tinha alertado o seu sobrinho (cedente e dono da casa, onde aqueles ficavam), para a sua falta, resolvendo este voltar atrás para ver se os encontrava.
Entretanto, os Costas chegam à quinta onde se realizava o casamento do carro que o antecedia, dirigem-se ao pavilhão, sentam-se e dá-se início ao repasto. Estranharam não ver ninguém conhecido, mas, naquelas ocasiões, á sempre muito gente e portanto, à vontade, iniciaram a refeição com uma canja de galinha. A filha, alta, calmeirona, levanta-se para dar uma olhadela aos convidados e à mesa de honra, sentando-se imediatamente, diz aos pais:
Vamos embora, estamos enganados o noivo é mulato.
- Nem um mergulho no tanque da quinta era capaz de fazer mais calafrios do que aqueles que sentiram a família Costa.
Na estrada, o sobrinho não os encontrou, na cidade tão pouco, até que resolveu ir a casa e então depara-se com o espectáculo da mãe e filha estarem de volta do frigorífico a tentarem arranjar alguma coisa para comer, o filho sentado a ver televisão e o chefe da família e pai Costa, já em cuecas, a bracejar e a protestar por não ter conseguido desfiar o fio da meada.
A partir daí, uma alma nova voltou e lá partiram todos de novo para o seio daquele casamento, que os fez fazer uma viagem tão longa e faziam tanto gosto de desfrutar com a família.

3.6.08

El Rocio



Peregrinos em pleno Parque Doñana a caminho del Rocio
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Na província de Huelva – Espanha em pleno Parque Natural Doñana e a 15 Km de Matalascañas, existe uma povoação de nome El Rocio.
Povoação de ruas de terra solta de grande movimento de cavalos e a lembrar os filmes do Oeste Americano, pois à frente de todas as casas existem armações de madeira para prender os equídeos.
A terra tem como sua Santa Padroeira a Senhora del Rocio realizando-se a sua festa anual no mês de Maio.
Festa Rocieira, cavalos, charretes, carroças engalanadas, sírios vindos de toda a parte, contribuem para fazer daqueles dias uma romaria de cariz extremamente popular, vendo-se em toda a parte as danças de flamengo, acompanhadas pelos cantos dos romeiros.
É festa e local que aconselho a visitarem, tal a beleza que o conjunto de peregrinos e romeiros nos oferece.
O Zé foi campista e durante muitos anos passava os fins de semana a correr e a frequentar os acampamentos colectivos que se realizavam no país. E foi neste convívio semanal que arranjei grandes amigos e aprendemos a ser desenrascados para resolver todos os problemas que de ocasião nos surgem. Mais tarde, enveredei pelo campismo/comodismo e agora quando me desloco uso o hotel.
Entre os amigos que conheci, havia dois casais (pai, mãe, filho e nora) que aliavam aos conhecimentos da actividade, uma dose de humor invulgar, sendo por isso pessoas de fácil relacionamento para amizade duradoira.
Com grande antecedência combinamos ir ao Santuário del Rocio nos dias da romaria para poder apreciar aquela festa.
O percurso seria feito em 2 viaturas, pois cá o rapazote não dispensava a Silvia, namorada de então.
Metemo-nos a caminho de Vila Real de Santo António, navegámos no rio Guadiana para fazer a travessia e assim que chegamos a Ayamonte. O Jonas (cabeça de casal) na outra viatura, resolveu meter gasolina super no seu “Ford-Balila” de cor castanho claro comprado em 2.ª mão por três contos.
Para vos dar uma ideia da velocidade supersónica que o bólide dava, conto que, por empréstimo utilizei-o numa viagem da lagoa de Albufeira-Sesimbra, até Cacilhas, com uma caracoleta a passear no vidro da frente e sem que o animal caísse do vidro.
Depois de atestado e enquanto houve gasolina normal nos canos a coisa correu bem. O pior foi quando chegou a super ao carburador.
O carrito ou porque já se sentisse em plena romaria no meio da “cavalada” ou a comida não fosse a apropriada para o seu estômago começou a soluçar, até que parou definitivamente.
Todos opinavam, sendo necessário fazer uma assembleia informal para decidirmos o que fazer, recaindo a solução na substituição da gasolina super pela normal na esperança de que fosse esse o causador do mal que afectava o seu bom funcionamento.
Na realidade, confirmou-se a preocupação. Substituímos a “cevada, por palha” de fraca qualidade e o animal até ao “Rocio” jamais parou.
Chegamos ao destino no pino do calor, arranjamos um bom local para montar as tendas, (há quem lhe chame barracas) com a ligeireza e prática adquiridas ao longo dos anos.
O Jonas estende o pano de chão, começa a bater estacas e a Adalberta, sua mulher, entra de gatas dentro da tenda, ainda sem mastros e começa imediatamente a fazer a cama, ficando com o rabo virado para a entrada.
Tudo isto é feito com sincronismo, pelo que o marido, chegada a sua ocasião também entra de gatas para montar os mastros.
Metendo a cabeça dentro da tenda, e sentido um aroma conhecido disse com a maior alegria e inocência:
Que bom Adalberta, trouxeste bacalhau.
Só a gargalhada geral o fez perceber que o cheiro não era do “fiel amigo”.
Mas campista é campista e o Jonas, desembaraçado e solícito, pega num alguidar de plástico e dirige-se aos lavatórios para fazer uma saladas para todos.
A nora bem o chamava; Jonas venha cá, dê cá o alguidar, Jonas venha cá, e ria desalmadamente sem que o sogro fizesse caso do chamamento, acabando para fazer uma salada deliciosa com tomate, alface, e pepino, bem temperada a preceito.
O petisco era de primeira, mas a Adalberta e a nora não tocaram na salada, até que, com esta já quase a acabar o Jonas comenta. Então vocês não tocaram na salada?
A nora com o ar mais divertido deste mundo responde!
É que este alguidar não é o da salada, é da gente se lavar por baixo.
Foi lindo “El Rocio”, a missa, os cantares e devoção dos romeiros, mas o que mais ternamente recordo são as genuínas peripécias do campismo e as suas capacidades de improviso.
A partir daí, o Zé e a Silvia em gamela colectiva e em alguidar de plástico nunca mais comeram salada.

20.5.08

Avante Camarada, Avante


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O 25 de Abril trouxe-nos coisas boas, coisas más e coisas assim. Fundaram-se partidos, inteiros e lascados. Começaram as festas dos partidos (o nome foi posto a preceito e a condizer com a realidade), grande parte das vezes em conjunto, rosas com laranjas, vermelhos com semi-vermelhos e até azuis e amarelos, que depois de muita música, muita charanga, muitas “minis”e muito tinto à mistura, acabava em cada zaragata de se lhe tirar o chapéu, regressando a casa muitos filiados com as bandeiras descaídas, já murchas e com eles partidos, alguns mesmo irremediavelmente partidos, (com ligaduras na cornadura) depois de terem passado pelas urgências hospitalares.
Decorridos que eram mais 365 dias, e depois de uma publicidade bem abundante, as festas lá se continuavam a fazer, mas mais individualizadas.
O PCP instalou-se na Cidade de Amora, mais propriamente na Quinta da Atalaia. Anuncia sempre festas de arromba, convida ou contrata artistas e oradores e, para não fugir à regra, são sempre os mesmos a puxar pela garganta e a botar palavra.
Dos mais variados recantos do Portugal Conhecido, partem com destino àquele recinto camionetas cheias de folgazões, outros com muita fé, que esperam passar três bem vividos dias no convívio das gentes da mesma cor e assim a comissão organizadora arrecada mais uns milhares de euros que servirão no futuro para poderem ser gastos em campanhas eleitorais, já que as dádivas de outras origens estão severamente sob controle. De uma dessas terras conhecidas (dos naturais), a comissão local organizou uma excursão de camioneta a preço módico e pago a prestações sem juros para uma deslocação àquele recinto e durante o período da realização do evento.
Maria Imaculada, menina de 18 anos, prendada e com gosto esmerado para fazer renda de bilros, que aprendeu com uma tia solteirona que usava óculos e tinha borbulha escura na parte lateral direita do seu nariz, inscreveu-se e à “titi”, depois de ter o consentimento da progenitora, já que o seu pai, ocupado com os trabalhos no campo, pouco se importava com essas coisas.
Dois dias antes da partida, a Maria Imaculada estava esfuziante, alegre, mexida, ia pela primeira vez a uma festa fora da terra e visitar Lisboa, coisa com que tanto sonhara, recebe a notícia que por indisposição ocasional a sua tia e protectora na viagem não poderia dar o passeio.
A Maria Imaculada roga, pede à mãe que a deixe ir sozinha, porque já não era criança e sabia bem cuidar de si. Contra sua vontade, pois as mães sabem sempre como são as irreverências da juventude, lá acedeu ao pedido e a Maria Imaculada, de cabaz e farnel destinado à viagem, lá partiu rumo ao Sul. Olhando através da janela ainda vê a mãe com uma lagrimazita ao canto do olho, preocupada por alguma desgraça que acontecesse e pela falta que a menina lhe fazia em casa.
Tudo correu bem e pelo caminho os excursionistas trocaram de migalhas numa sã e leal camaradagem, não fossem eles do PCP.
Logo na primeira noite e junto do palco principal, a Maria Imaculada conheceu o Jorge, um rapazito alentejano, bem parecido, uma carinha laroca, que com os seus 21 anos, deitou o coração da Maria Imaculada abaixo, ela que nunca tinha estado apaixonada por ninguém.
Foi um amor à primeira vista e o rapaz, depois de muita conversa, mimos e subterfúgios
(para provar que afinal os alentejanos não são assim tão lentos), saltou-lhe “práspinha”. A principio e com a emoção a coisa nem lhe soube mal nem bem, mas um jovem na flor da idade é imparável e com a continuação passou a sentir-se à vontade, mais desinibida e já não queria outra coisa, porquanto afinal aquilo tinha emoções e sensações que nunca tinha sentido. Foram portanto até àquela altura os melhores três dias da sua vida. Sozinha sem ter que dar contas a ninguém e ninguém da família para conter as arremetidas que o alentejano lhe dava.
Portanto, quando a festa acabou e voltou outra vez à realidade, sentiu uma grande nostalgia por se aperceber que tinha de voltar novamente às origens e que o Jorge nem sequer lhe tinha dito de onde era. Por isto não viria mal ao mundo, porquanto ela, durante três dias, também nem soube de que terra era.
E o nosso Jorge que tinha sido tão amoroso, tão terno; à partida, nem quis aparecer junto à camioneta da excursão, não fosse a moça desmaiar nos seus braços.
Quando chegou a casa de mãos a abanar, pois até o cabaz com que tinha levado o farnel ficou esquecido logo no primeiro dia, a perguntas dos familiares desejosos de saber como foi e como tudo tinha corrido, lá foi dizendo que o Carlos do Carmo cantou todos os dias e a todas as horas (ela não tinha visto outro), fazendo a admiração dos pais, lá se deitou, imaginou e sonhou com o Jorge Alentejano.
Pela manhã, acabou por contar à sua mãe tudo o que tinha acontecido na Quinta da Atalaia e tim por tim. Aí a “Nai”, qual locomotiva a carvão, trata de arranjar a Maria Imaculada, veste o seu melhor fato e a toque de caixa dirige-se ao Centro de Saúde local onde procurou o seu Médico de Família.
Para explicar o que pretendia, não está com meias medidas e dispara logo à primeira pergunta:
Senhor Doutor, a minha filha foi numa excursão a Lisboa e perdeu os 3 na Festa do Avante.
O Médico, que por sinal é um pouco gago, responde-lhe: “En.en.então qé..qué..quer que vá lá à pró-pró-procura? E, se-se-se não achar, o que- que faço? Éla é que-que sabe onde os per-per-perdeu que-que vá lá.”
Mas, Sr. Dr., veja lá que só sabe que se chama Jorge e que é alentejano. Agora o que é que eu faço?
Gaguejando ainda mais, o médico respondeu-lhe... “que.. que vó..volte lá pró-pró ano, porque ele dé-dé deve lá-lá estar, sa-sa-são sem sempre os me-me-mesmos a ir à fé-festa...”

8.5.08

Praga nos Arbustos


A lagartagem era esquisita, mas não era
do Sporting

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Nos meus primeiros anos de casado vivi no Concelho de Oeiras, ali bem perto do Estádio Nacional.
Adquirimos uma moradia geminada, numa pequena urbanização que tinha à sua frente um quintal que ajardinei, colocando uns arbustos e umas trepadeiras a separar os dos outros vizinhos e no corredor de acesso ao portão e porta de entrada, uma cepas em latada da casta alicante.
Os vizinhos pareciam todos boas pessoas, mas por isto ou aquilo o que é certo é que não fizemos grandes amizades. Estivemos por lá cerca de 3 anos e quando nos deslocámos para ir viver para o norte, não sentimos grandes saudades do abandono. Todavia, era uma povoação simpática, às portas de Lisboa e a poucos Km da linha do Estoril.
A casa ao lado era rigorosamente igual à nossa e era habitada por um casal, ele comandante da armada, ela doméstica, que tinham um casalito de filhos de idades mais ou menos 7 – 12 anos, sendo ela, a mais velha e espigadota.
Aos domingos, no Verão, o Comandante, como não podia passar sem uma ondas alterosas do Oceano Atlântico e não as tinha, metia-se no jardim do quintaleco dentro de uma piscina de plástico que deveria ter sido da criança mais nova, quanto tinha aí uns 2 ou 3 anos, pernas de fora e copo de whisky na mão e ali estava de olhos fechados, horas e horas a desfrutar, imaginando umas apetecíveis férias nas Maldivas ou uma abordagem da sua corveta em alto mar a traficantes de droga.
A vida corria monótona, até que os arbustos começaram a ser comidos por uma praga de bicharada e havia de os socorrer depressa. Dei uma passagem pela loja do agricultor, sito na rua Passos Manuel em Lisboa, falei com o agrónomo de serviço e lá vim munido de um frasco que continha o remédio milagroso para acabar com a referida praga, não sem antes receber a recomendação especial de vestir uma roupa velha, encapuchar, usar óculos especiais e fazer a operação de noite, já bem tarde, aí por voltas das 2 da manhã, de forma a não incomodar ninguém em virtude do produto ser extremamente tóxico e ser a hora em que habitualmente a bicharada vai fazer a ceia, e que teria de fazer duas aplicações para obter bons efeitos.
A menina frequentava a escola C+S ali para os lados de Linda a Velha e apaixonou-se por um colega de turma um ano mais velho, que passou com muita regularidade a visitar a casa da “nena”, especialmente em períodos em que o Comandante por força do serviço não ficava em casa.
Claro que a partir de certa altura a vizinhança já comentava estes encontros chamados desusados para quem tem 13 anos e com a conivência da mãe da pequena.
E o lourinho, tal era a cor do seu cabelo, não obstante ser novinho lá se entretinha até altas horas da noite nos dias das visitas, tendo sempre o cuidado de quando saía, furtar-se a qualquer encontro que denunciasse a sua presença.
Uma noite em fim de semana, andando de gatas debaixo dos arbustos a efectuar a segunda e última operação de pulverização, com o sentido de exterminar definitivamente a bicheza, com toda aquela indumentária já enumerada, surge do portal principal da casa da vizinha o lourinho, com uma gabardina vestida não obstante ser primavera e não estar prevista queda de chuva.
Eu, agachado e quieto. O único barulho que se ouvia era o da pulverização que como depreendem é quase imperceptível, qualquer coisa como fe..fe..fe..., não parei, para que se alguém me visse não ficasse com a ideia de que eu estava ali às escondidas a observar o que se passava no quintal do meu vizinho, portanto quieto, mas pulverizando.
O silencio era total e o jovem ouviu aquele fe..fe..fe.., espreitou por entre os arbustos mesmo no sitio exacto onde eu estava a injectar.
Evidentemente apanhou em cheio com uma pulverização nas ventas, abriu o portão, fugindo a sete pés a espirrar, estando cerca de 15 dias sem voltar.
Fiquei preocupado pela sua falta, admitindo que lhe tinha causado alguma crise de rinete ou brotoeja, afinal apareceu para se despedir da sua causa perdida, já que o Comandante, entretanto, tinha descoberto que afinal o rapaz não ia a sua casa com o sentido de namorar a sua filha, mas sim a mãe (jovem e bonita), pelo que resolveu ficar mais vezes em terra, não fosse às vezes por causas desconhecidas sentir-se enjoado e com alguma dor na cabeça…

24.4.08

Viagem a Sevilha



O Zé sempre gostou muito de pombinhas e esta, no Parque Maria Luiza em Sevilha, não resistindo aos meus encantos veio dar-me um beijinho.

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Namorei uma morena, uma bela rapariga de vinte e tantos anos, natural de Castelo Branco, mas a viver em Paço de Arcos desde os 6, para onde veio em companhia dos progenitores, que tinham acabado de arranjar trabalho naquela vila da linha do Estoril.
A moça era bonita (com aquela idade todas são), graciosa, trabalhadora e terminámos nem sei bem porquê. Qualquer coisa de arrufo de mal me quer, bem me quer, o certo é que me voltei para o outro lado, como quem acorda estremunhado e tem necessidade de dormir mais um bocado e não dá atenção ao que o rodeia.
No entanto, durante o nosso tempo de convívio fomos felizes, soubemos viver a vida à nossa maneira, como pudemos ou nos deixaram.
Por nos ter acontecido algumas situações de bom humor, não vou deixar desperdiçar a oportunidade de contar um caso ocorrido na Cidade de Sevilha, onde nos deslocamos para assistir à Feira de Abril.
As “maçarocas” andavam em baixo e portanto, a tempo e horas, resolvemos marcar a nossa viagem de forma a não deixar nada ao acaso e evitar qualquer surpresa desagradável. Afinal, pelos vistos foi deixa andar e fé em Deus.
O Zé tinha uma viatura 500 da marca Fiat, que fez a viagem numa média de 40/50 Km hora, muito bom para a época, já que as estradas, especialmente as espanholas, nalguns sítios eram só um buraco. Na altura e à falta de melhor, era uma “máquina”, na gíria dos entendidos, especialmente aqueles, que, como eu nunca tinham tido outro…
O calor era insuportável. Fizemos a visita nos últimos dias da Feira e esta encontrava-se no auge, as sevilhanas com os trajos regionais e festivos, montando os cavalos sentadas de lado, agarradas à cintura do cavaleiro também com o trajo a rigor, as “charretes” das casas senhoriais com os senhores das terras e suas “donas”, as flores nas orelhas, os empregados também vestidos a condizer e a conduzir as ditas, com destino ao picadeiro, com as ruas engalanadas de bolas brancas e vermelhas, as “casetas”, milhares de pequenas esplanadas particulares e poiso de descanso para uns pés mais doridos; depois de percorrer todas as ruas da Feira, estávamos exaustos.
Quando nos sentimos bem num lugar, o tempo passa rapidamente sem darmos por isso e foi o que nos aconteceu. Portanto, já noite alta desatámos a procurar local para pernoitar e a todas as portas que batemos não era possível satisfazerem os nossos desejos, até que, já desesperados, lá conseguimos um “Hostal” que nos acolhia por um preço igual a um hotel de 4 estrelas. Naquela altura não há que pensar; é pegar ou largar, mas iria desajustar todo o orçamento daquele passeio.
A entrada da unidade hoteleira dava para um pátio andaluz, sendo o seu recheio composto de muitas flores, duas cadeiras de verga, onde numa delas estava sentada uma mulher grande e gorda, que na minha imaginação admiti ser a dona. Não me enganei.
Foi-nos atribuído um quarto com cama de casal num terceiro andar, cuja subida era feita através de escada por dentro do referido pátio. Depois, lá em cima, tinha um corredor que servia todos os quartos de cada andar e portanto a patroa, cá debaixo praticamente controlava todo o movimento no “Hostal”, sem levantar o “assento” da cadeira de verga.
O quarto era modestíssimo, não tinha casa de banho, mas tinha cama, duas mesas de cabeceira, uma cadeira e um roupeiro que naquele tempo se chamava de guarda-vestidos, uma janela já carcomida do caruncho e um lavatório assente em suportes de ferro fundido com arabescos e as ligações às duas torneiras que pingavam, com tubos de chumbo a sair da parede.
A Lurdocas, era assim que eu chamava à minha companheira de amores e de viagem, necessitou de se lavar e, como não tinha outra maneira mais à mão, resolveu lavar os seus “baixios” no lavatório, usando para se colocar à altura do mesmo a cadeira existente no quarto.
Ainda lhe chamei a atenção que aquilo podia dar para o torto, mas não aceitando a minha observação, coloca água no lavatório (quente não havia), sobe a cadeira virada para o dito, volta-se, quer sentar-se mas o espaldar da cadeira era um pouco mais alto, impedindo uma boa execução do serviço.
Com jeito a mais, ou falta dele, assenta o “sim senhor” no lavatório com a mesma naturalidade e à vontade como se estivesse no bidé. Os suportes não aguentaram o seu peso, os tubos de chumbo dobraram, partiram, e o lavatório cai no chão fazendo um barulho medonho e a água, sem nada para a impedir, saía com força de 8/9 bares, ficando a Lurdocas estatelada no chão. Não se magoando, já que Deus à menina e ao borracho põe a mão por baixo, levanta-se imediatamente e coloca um dedo de cada mão nos buracos de onde saía água na tentativa de a fazer parar. Espera aí que já paras, aquilo foi uma lavagem tipo máquina de estação de serviço; as partes intimas onde já tinha passado o sabonete estavam cheia de espuma e a água em repuxo e alta pressão pela colocação dos dedos a impedir a sua saída tratou de fazer a lavagem definitiva e completa, faltando somente secador, para pentear e fazer risca ao lado. Estávamos os dois em pânico, abri a porta e lá de cima debruçado no balcão chamei a patroa, desenrolando-se esta conversação:
Senhora... Senhora...
Cunho, Cunho, já me desgraciaste, foste labar el culo no lababo. és el costumbre...
Deu-me vontade rir, porque me apercebi que pelo barulho que o acidente fez, ela soube logo do que se tratava, pois decerto a outros já teria acontecido a mesma coisa.
E o mais curioso é que nem se deu ao trabalho de ir lá acima, foi-se à torneira de segurança, fechou-a e o “Hostal” esteve sem água até ser reparado no outro dia, tendo a brincadeira custado ao Zé a quantia de 250$00 (muita massa), fazendo com que a visita à Feira tivesse terminado logo ali, não sem antes primeiro tirar umas fotografias com as pombinhas no parque Maria Luíza. Regressámos à capital portuguesa de imediato e a fazer refeição de sandes de atum durante toda a viagem, exceptuando uma pequena paragem em Badajoz para comprar uns caramelos da marca “Solana”, que eram iguais aos nossos da marca “Vaquinha” e que eu tinha o cuidado de oferecer a amigos que tivessem dentes postiços, pois adorava ver os gulosos atrapalhados a retirar com muita dificuldade aquela pasta agarrada à dentadura, ocasionando sempre umas valentes gargalhadas.