
Vocês fazem ideia do que é um "puto" de 11 anos, acostumado a viver no campo entre cepas e árvores de fruto, frequentar a escola primária, nunca ter ido a uma sala de cinema e de repente diariamente apanhar o autocarro para Cacilhas e ali o barco, atravessar o Tejo, olhar o Cais do Sodré, atravessá-lo cheio de medo para não ser atropelado, subir a rua do Alecrim, cumprimentar o Camões ( que só com um olho via mais do que eu com os dois ) e chegar à Veiga Beirão, com uma multidão de rapaziada à espera, ir ao passadiço do elevador de Santa Justa e ver Lisboa de outro ângulo? O espanto, as descobertas que eu fiz e as gravações que me ficaram para sempre na memória. Foi o máximo, considerava-me um herói, o grande protagonista da maior aventura da minha vida. Nos primeiros tempos, eu nem conseguia estudar...
Passava pelas ruas que meu pai me ensinou e me levava directamente pelo caminho mais curto, rumo à Veiga Beirão. Via as outras e pensava, onde iriam parar. Claro que decorridos 20 dias, tinha ido até ao Calhariz, ao Largo da Misericórdia assistir à extracção da Lotaria Nacional, ficando atento a tudo aquilo a ver se ouvia o pregão do 17.377, pois sabia que meu pai jogava num numero certo todas as semanas. Coitado, bem poderia esperar sentando, até hoje ainda não saiu. já tinha passado pela Travessa da Água Flor e dado um pulo à rua da Rosa, em síntese, estava a familiarizar-me com o Bairro Alto. Desci pela Calçado do Sacramento, conheci a rua Nova do Almada e a do Carmo e finalmente o Rossio. A Praça da Figueira ali ao lado, deixou-me perplexo.
Na rua do Loreto, um cartaz anunciava o cinema do mesmo nome e a que todos chamavam "Piolho". ( Fiquei mais tarde a saber que com aquela alcunha havia mais alguns e tive de ganas de os conhecer todos).Os filmes eram sempre de "cowboyadas", o preço para a minha bolsa era incomportável, mas consegui fazer alguns "amealhos" poupando na sopa que não comia, recebendo a recomendação diária de a ir papar ao restaurante " Perús" situado no Cais do Sodré, mais uns cobres para material escolar que não necessitava e estavam arranjados os primeiros "tustos" para as também primeiros sessões cinematográficas continuas.
Comprei bilhete de balcão, devia estar trémulo, era a primeira vez, entrei com o filme já a decorrer e sentei-me ao lado de uma mulher que tinha um xaile pela cabeça e por debaixo dele ia dando uma fumaças num cigarro. Tudo aquilo era uma novidade para mim. Os cavalos a correr e o "Sheriff" atrás dos bandidos que tinham acabado de assaltar um banco, ia atirando um "tiraços" sem acertar em ninguém. A "fulana", vira-se para mim e diz-me ao ouvido. Menino mete a cabeça debaixo do meu xaile e lê as legendas para eu ouvir. A partir daí comecei a apanhar o fumo do cigarro, mas para ser prestável, não só meti a cabeça debaixo do xaile, como a encostei todo derretido à cabeça dela, passando-me pela «mona» "milhentas" fantasias que não conhecia, mas que entre a rapaziada ouvia falar.
Quando cheguei a casa, a mãe Júlia reparou que o Zé estava continuadamente a coçar a cabeça.Foi buscar um pente mais fino entre dentes, colocou um jornal no assento de uma cadeira e passou-o pela minha cabeça, na tentativa de caçar alguns "javalis" que andassem ali perdidos no meio daquele matagal.
A sua queda no jornal, soavam a tiros dados com uma espingarda de dois canos, daquelas que já estão em desuso e parecem o nariz de um perdigueiro. Contou a mãe Júlia vinte e oito piolhos dos grandes. A seguir veio o interrogatório, desculpando-me, que decerto os tinha apanhado na escola. Mal sabia ela, que assistia aos primeiros passos das aventuras e desventuras do Zé.

































