2.1.08

O preservativo

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Esta história verídica foi-me contada pelos próprios intervenientes, ao som de Mariachis em Acapulco, no Pacifico – México, onde nos deslocámos para assistir a um casamento de um familiar comum.
Quem não conhece Sesimbra? Aquela Vila de ruas íngremes de estoirar as pernas após um dia de praia em pleno Verão. A lota, o encanto do peixe, predominando os espadas a brilhar como prata, sobre montinhos de areia para serem arrematados, a cantiga dos homens que leiloavam as tecas, a azáfama dos carregadores.
Esta era a Sesimbra dos princípios dos anos 60, da serra de Arrábida, a pouca distância do Cabo Espichel e a fazer parte da região dos 3 castelos.
Hoje, a Vila tem 3 entradas a partir de Santana, mas naquela altura só tinha uma, a Cândido dos Reis, que termina frente à fortaleza de Santiago, onde esteve muitos anos instalada a Guarda Fiscal, derivando à direita para o Monte dos Vendavais e Porto de Abrigo e para a esquerda Hotel Espadarte e Praia da Califórnia.
Ainda hoje é uma Vila extremamente simpática, com gente trabalhadora e solícita. Todavia, no Verão, em plena praia, quando chegamos, para pôr um pé no chão é necessário levar um requerimento já preenchido, dado a multidão que já lá está.
Nem todos os habitantes iam ao mar pescar, mas todos a população trabalhava e vivia da e para a pesca. A vida era dura (ainda hoje os pescadores vivem uma vida dura) e os naturais, fruto do turismo desenfreado, são obrigados a abandonar a sua terra e ir viver para os arrabaldes, em virtude de não poderem suportar o custo de vida que ali se pratica.
Eduardo, filho de pescador, rapaz tímido, empregado do comércio numa loja da rua principal da vila, namorava a Margarida, moça bonita, jeitosa, um amor de boneca, a beleza dos 20 anos, que ele desencantou numa outra vila a cerca de 30/40 Km de Sesimbra.
Naquela época o comércio naquela terra era pobre, muito pobre mesmo, não havendo estabelecimento que não tivesse um “role”, livro para assentar os fiados... Fiados que seriam liquidados lá para o Verão, quando houvesse fartura de peixe. Isso ocasionava que os empregados de comércio também recebessem o seu vencimento no Inverno, a conta gotas.
Era a miséria e a vontade de comer de mãos dadas, passeando descalças no areal molhado por aquela linda água do mar, que só Sesimbra tem.
Quando a paixão bate à porta da juventude, esta remove montanhas e o Eduardo e a Margarida casaram num dia de Inverno naquela igreja que fica num largo, mesmo ali a meio da subida. Tiveram um casamento bonito, sendo como é óbvio limitado pelas dificuldades financeiras da época (diga-se que agora não são melhores).
“Just Married”, jovens, sangue na guelra, ânsia, desejo mútuo, a sexualidade em toda a sua pujança. Mas as cabeças do “Edu” e da “Marga” estavam no sítio e bem “encaixadas” nos ombros. Cuidado, Margarida, cuidado Eduardo: filhos já nesta altura? Nem pensar, estamos em princípio de vida e ela não está para brincadeiras.
O desejo era insuportável! Eduardo atendia uma cliente e pensava na sua “flor” e na maneira mais graciosa de ir desfolhando as suas pétalas uma a uma. Enquanto a consorte fazendo os choquinhos com tinta para o almoço, sonhava com o seu encantador “Edu”, o mais adorável e amoroso dos maridos. Após o almoço, entre beijos, abraços e uns sortidos apalpões, na despedida para ir executar mais meio-dia de trabalho, foi alvitrado por ela, para que fosse à farmácia e comprasse uma “camisinha”, alegando ele que tinha vergonha de o fazer.
Ao fim do dia, com a sua samarra de pele de raposa já coçada por anos de uso, comprada a prestações no estabelecimento onde trabalhava, o Eduardo só com uma moeda de 2$50 (“dois escudos e cinquenta centavos”) no bolso, venceu a sua timidez e dirigiu-se à farmácia situada a poucos metros do seu local de trabalho, disposto a comprar um preservativo a fim de satisfazer a necessidade de ambos. O frio era muito, tinha os pés gelados e por seu azar havia uma cliente na farmácia que estava num bate papo com a farmacêutica. Não teve coragem de entrar; nervoso e com vergonha esperou impaciente pela saída de quem lhe estava a empatar a f...da, circulando em frente à porta para cá e para lá até que a cliente finalmente foi embora. O homem faz peito, esquece a vergonha, perde a timidez, coloca os nervos atrás das costas, entra e quando a Dr.ª, idosa, pitosga e dura de ouvido, com a sua voz trémula lhe pergunta o que queria, foi-se abaixo, perdeu a coragem e disse que queria um preservativo, mas pouco perceptível. Aquela voltou as costas e foi lá dentro; demorou algum tempo que lhe pareceu uma eternidade e voltando, olha para o Eduardo e pergunta-lhe: quanto é que é de adesivo?
O Eduardo não queria acreditar, sente um arrepio pela espinha abaixo, faltaram-lhe as forças, as pernas tremeram-lhe, sentiu vergonha e responde: são “vinte e cinco tostões”. O adesivo é embrulhado ali à sua vista, é-lhe entregue, paga, recebe os salamaleques obrigatórios e costumeiros da comerciante solícita(?). Deixou de ter vontade em ir depressa para casa, mas lá foi, coitado, seguindo rua fora a subir aquela maldita rampa e dando ais em silêncio.
Assim que entra em casa, a “Marga”, com o seu sorriso maroto e cheio de cumplicidade, pergunta-lhe: “Edu”, compraste? Sim, meu amor, comprei, comprei, mas aquela velha meia parva da farmacêutica não percebeu ou não quis perceber o meu pedido, meteu-me na mão “vinte e cinco tostões” de adesivo. Vamos os dois ficar em branco, a não ser que queiras usar o filho da puta do adesivo.
A noticia perturbou a “Marga” e os chocos com tinta comidos ao almoço entraram em erupção nos seus intestinos, soando como o barulho dum gigante tremor de terra submarino, capaz de causar um tsunami e simultaneamente arrasar Sesimbra, escapando decerto o castelo por se encontrar lá bem no alto.
Tantos anos já passados são um casal feliz. São pais de 2 filhos, têm um neto e sempre que lembram a cena do preservativo/adesivo, dão entre si um olhar terno e comprometedor e uma valente gargalhada.

24 comentários:

vsuzano disse...

E o adesivo serviu ? ou era daqueles para a pele respirar e retirar passados 9 meses?

abraço, gostei da história, e de relembrar as moedas de 2$50....

zé (do beco) disse...

Amigo Zé, eram outros tempos. Hoje vendem-se nos hipermercados e em máquinas instaladas nos WC's dos Centros Comerciais. Mas esta história está um mimo, como sempre, a provar que escrevendo bem, qualquer assunto tem graça.
Outro dia vi uma reportagem sobre este tema e dizia um senhor que chegava à farmácia e segurando o colarinho perguntava: - tem camisas destas? não senhor, respondia o farmacêutico. - Então dê-me das outras, se faz favor (eheheh).
Um abraço e um ano novo feliz.

Isabel-F. disse...

um belo texto ... gostei muito ...


parabéns


bjs e um bom ano

Zé do Cão disse...

Aos meus tres primeiros visitantes deste post, o meu obrigado, pelas palavras bonitas. Que um Bom Ano também vos sorria.
Vsuzano, não me contaram se o usaram, mas como estão ligados à minha família, qualquer dia atrevo-me a perguntar.
Zé, amigo do Beco, quando acabo de escrever um texto, farto-me de rir sózinho. Ao ler o teu comentário, desatei a rir à gargalhada em voz alta que a "chefe da casa" veio ver o que se passava e desatou a rir também. Abraços
Dnª Isabel-f, é sempre bom receber carinhos e em especial de quem é vizinha. Não nos conhecemos mas o local de residencia é o mesmo. Obrigado

Olá!! disse...

hahaha Zé, no seu melhor, como sempre...
O penúltimo paragrafo está de ir às lagrimas...
Beijos e parabéns aos parentes responsáveis
PS... Eu vingava-me da bruxa da farmácia mas isso é outra historia rsrs

Violeto disse...

Lindo, pá! Obrigado.

zé (do beco) disse...

Zé: Quando eu era puto e trabalhava numa loja da Rua da Prata, havia lá um "morcego" que me mandava ir à farmácia comprar-lhe as camisinhas. Vinham numa caixa de alumínio (a marca acho que era Sentinela) e custavam 7$50 meia dúzia mas o gajo era tão forreta que as lavava e usava-as mais de uma vez (eheheh). E ainda se gabava, o cabrão.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Zé do Cão
Realmente és um contador de histórias impagável. Escreves bem, és vivo e jovial nas tuas narrativas.
Um abraço

Zé do Cão disse...

Zé, os tempos eram outros a vida era dificil e no poupar é que estava o ganho. Ainda decerto te lembras do que dizia o velho-Botas. "Produzir e poupar"

Dnª Silêncio culpado, lá diz o ditado que "Recordar é viver".

caditonuno disse...

gostei da história. mesmo depois da velhota nao ter percebido e ter trazido o adesivo, tudo se deve ter composto, penso eu.

kuka disse...

Bonita história amigo Zé. Conheci Sesimbra nesses tempos de miséria. Meu pai fez, algumas vezes, serviço de vigilancia nas praias e um dos anos calhou Sesimbra. Estive lá uma época balnear inteira. Dormía-mos num enorme barracão dos socorros a naufragos. Ainda recordo com muita clareza as cenas que presenciava: Os pescadores descalços a remendar as redes na rua principal, com a beata ao canto da boca. Os enormes espadartes a serem descarregados na praia. As traineiras que depois de construidas eram empurradas por cima de toros de madeira pela avenida até à praia. oram três meses riquissimos para mim.
Quanto às camisinhas...Acho que um dos filhos Edu deve ter sido por culpa da farmeceutica.

Zé do Cão disse...

Caditonuno, em tempo de miséria as coisas são complicadas. Não me contaram como resolveram o problema, se calhar teria sido com tripa de porco. Dizem os livros que antes da camisinha esteve na moda.
Kuka, foi rigorosamente como contas.
Quanto ao primeiro filho, não sei, mas que também se chama Eduardo é verdade. Um abração a ambos

Oliver Pickwick disse...

Ei, Zé! Li os três últimos posts. Gostei muito das variações entre o engraçado, comovente e a criica social. É um bom contador de histórias.
Voltarei para ler mais.
Abraços

sorrriso disse...

delicioso !!!
ahahahahahahahaha

SILÊNCIO CULPADO disse...

zè do Cão
Deliciosas as tuas histórias e a forma como as contas. Esse espírito jovem e activo que se conserve sempre.
Um abraço

Anónimo disse...

considero um texto bem elaborado e a ser verdade é espectacular.
Se tens mais cenas destas, atira cá para fóra que a gente agradece.

Lisa's mau feitio! disse...

Uma delícia este relato.
Assim ao estilo do "tudo acaba em bem quando se está bem"!
bjs gdes
Lisa

Zé do Cão disse...

Lisa, obrigado pela visita, dentro de 2, 3 dias, vai outra que felizmente também vai acabar em bem.

Anónimo disse...

Chiça....todos os dias marco o livro de ponto,,,bem q gostava de mais .....ok..ok...pobre da má resposta,,,sou Mulher quero mais e mais...genes né???


Um abraço--rsrs....pandorabox

Zé do Cão disse...

Pandorabox, far-te-ei a vontade na proxima segunda-feira, naturalmente fico contente quando a malta gosta.
Abraços e bjnhos, com o meu obrigado pela visita.

luafeiticeira disse...

Realmente sabes fazer uma grande e boa história dum pequeno acontecimento. Parabéns

Zé do Cão disse...

Minha querida luafeiticeira, com que então achas um pequeno aontecimento?
Se te tivesse acontecido a ti, gostaria de te ouvir. Rogavas uma praga à farmaceutica, que lhe dava uma trombose e não durava mais do que 15 dias.
Bj.

Vinicius manhaini disse...

Blz, estou querendo fazer troca de links de Blogs, se tiver interessado adiciona meu blog:
http://manhanini.blogspot.com
e me passa os endereços dos blogs que você tem, assim eu posso adiciona-los ao meu
Grande abraço e tomara que possamos fazer essa parceria

Se tiver interesse me responda ok
Obrigado

Meu email: vbmanhanini@gmail.com

Zé do Cão disse...

Tenho o Blog por pura distracção, e não estou interessado em nada mais do que não seja isso.
Aliás é uma maneira de divertir amigos e ser feliz assim.

Portanto não estou interessado.