25.2.08

LAVAGEM DE ALCATIFA

O Sebastião Coelho era minhoto. Tinha sido desde pequeno trabalhador na industrial corticeira ali para os lados de Santa Maria da Feira, numa das secções de preparação de colas, onde é usado metil, um diluente altamente tóxico, que causa males irreversíveis à sexualidade, à vista e até ao cérebro. Portanto, quando chegou aos 55 anos aparentava idade mais avançada, sexualidade extinguida e já tinha mudado de lentes uma quantidade de vezes. Os seus óculos eram extremamente pesados, dada a espessura das suas lentes e a sentir necessidade de as substituir com frequência. Foi portanto reformado ainda antes de completar a idade estabelecida por lei para a reforma daqueles que não sofrem de coisa nenhuma, tendo regressado por isso às suas origens.
Como não era ex-director bancário, ex-ministro, ex-secretário de estado, nem ex-de qualquer coisa e a quem dão umas reformas chorudas e indemnizações de vulto, sentiu necessidade de arranjar um qualquer emprego compatível com as suas competências e possibilidades, para angariar mais alguma coisa para o sustento da sua casa.
Procurou e lá conseguiu arranjar um “ganchito” numa empresa de limpezas, como ajudante de lavador de alcatifas.
A coisa não corria mal, o Coelho mais o seu chefe faziam uma boa equipa, executavam os trabalhos com perfeição e a entidade patronal estava contente por contribuir para a resolução de um problema humano, ocasionado pelas reformas de miséria que os portugueses têm, quando extenuados ou incapacitados já nada mais podem dar à sociedade.
Na estrada que liga Braga a Vieira de Minho, um empresário da noite montou um bar na garagem de uma sua vivenda, tendo efectuado alterações no piso superior, enchendo-o de quartos, todos com lavatório e bidé dentro dos roupeiros, de forma a que cada um deles tivesse a sua independência dos wc comuns. Mandou vir do Brasil, por atacado, uma boa dúzia de moças já com a rodagem efectuada, algumas delas já com vários Km em cima da pele, outras com revisões atrasadas e algumas nem sequer tinham efectuado a última inspecção no Centro obrigatório. Chamou-as de alternadeiras e na realidade elas alternavam com os clientes no consumo de bebidas e nas visitas que faziam aos quartos, na prática de prostituição.
Os clientes eram na maioria dos casos gente do campo que usava botas grossas por causa da sua profissão na agricultura. Homens que passavam o dia a trabalhar no duro, cujo suor corre do rosto e que ao fim do dia, sem sequer lavarem a cara, os sovacos e mais alguma coisa, se encobriam dos amigos para não serem conhecidos, escudando-se na luz vermelha da garagem, tornada sala de convívio e bar.
As alternadeiras, com roupa que na maior parte das vezes somente tapava desde a cintura para cima e até um pouco mais abaixo das mamas, lá se entrelaçavam no “gentio” no sentido de o “esmifrar” com o consumo de umas bebidas e umas visitas ao piso superior, para que satisfizessem as suas necessidades sexuais, pagas a peso de ouro. O fumo era mais do que muito, pois toda a gente fumava, aliado ao cheiro das perfumes baratos que elas usavam e daqueles que eles não usam, mais uma vez ou outra com bosta de vaca agarrada ao salto das bota cardadas, já gastas na calçada do sobe e desce de Vieira do Minho, Póvoa de Lanhoso, etc., tornava irrespirável o ar na garagem com porta basculante de ferro e sem janela.
A empresa de limpezas onde o Sebastião Coelho prestava o seu novo trabalho foi contratada para fazer uma lavagem de alcatifas aos quartos do piso superior, tendo havido o cuidado de chamar a atenção do orçamentista para não ser aquele serviço executado por mulheres e que o seu inicio seria a partir das 8,30 até à 16 horas, altura em que o bar abria ao público.
Tudo assente, dia combinado e a empresa no sentido de ter um melhor rendimento em tempo horário, manda l homem que trabalharia com a máquina de lavagem, outro para o aspirador e o Coelho para ajudar a mudar móveis e acarretar água para a máquina rotativa.
Àquela hora da manhã, ver as brasileiras a saírem do quarto, mulheres que se teriam deitado, aí por volta das 4:30, 5 horas, era desolador. Desgrenhadas, ramela ao canto dos olhos, pijamas a faltar botões e barrela, sem terem sítio para se acolher, bocejando pelos cantos, resolviam meter-se na casa de banho, 3/4/5 e assim que os quartos ficavam prontos, voltavam para os seus aposentos de forma a dormirem mais umas horitas.
O trabalho corria sobre rodas e o Coelho ia numa azáfama à casa de banho buscar água com o regador para dar vencimento ao homem da máquina. O que parecia correr bem, também tinha os seus escolhos. A casa de banho estava ocupada, ouvia-se o barulho do duche, obrigando o pobre coitado com os nós dos dedos a bater à porta. Compasso de espera, porta escancarada e pedido de desculpas para encher o regador. As “donas”, enchiam-no entregavam-no e o homem da maquina esvaziava-o imediatamente e pedia mais, mais e mais. Igual a tanta correria a caminho da casa de banho, só o coelho da “duracell”, mas esse como sabem trabalha a pilhas, que este Coelho não tinha.
Era uma cena irreal só apresentada em filmes italianos: as brasileiras abriam a porta completamente nuas, recebiam e enchiam o recipiente, o homem do aspirador e o da maquina, consolavam a vista a ver o espectáculo e o Coelho numa roda viva a levar e a trazer o regador.
Até que, numa pausa momentânea, o colega trabalhador do aspirador, pergunta assim:
Então senhor Coelho, que tal a paisagem? Qual paisagem, se nós estamos aqui e não vimos nada lá para fora? Homem, o material aí nu na casa de banho! Qual material nu? Risada forte e feio. É que o Coelho, coitado, sempre que a porta se abria ficava com os óculos completamente embaciados e não via nada, fazendo maquinalmente todas aquelas operações; todavia, pelo sim pelo não, tirou-os e o resultado foi o mesmo, o “metil” tinha feito os seus estragos.
Desgraçado de quem não vê, mas também tem uma vantagem: coração que não sente.
Era e ainda é um homem puro, por quem tenho admiração e amizade e sempre que o vejo não perco a oportunidade de dar uma boa risada à custa daquela cena.

49 comentários:

Capitão Merda disse...

Que gajas boas, Zé!
Não mas queres apresentar?

Olá!! disse...

hahaha coitadinho do Coelho cegueta... um serviço cansativo e sem direito a consolar as "vistas".
Beijos Zé, adorei a lavagem da alcatifa ;))))

Templo do Giraldo disse...

Lavagem da alcatifa e que lavagem meu caro.. Tas cá com um poder de mulheres.... isso é o que se chama mulheres de peso. Sim senhor...

Um abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Zé do Cão
A história é perfeita e comovente. Coitado do Coelho cegueta. Mas diz-me só uma coisa: as beldades são as gordas que apresentas?
É que se são ainda bem que o Coelho era cegueta!...
Beijinhos

Zé do Cão disse...

Queres que te mande alguma pela Páscoa? É só dizeres.
Um abraço capitão

Zé do Cão disse...

Olá!! coitado do Coelho, ainda hoje estive com ele. Tinha deitado uma canela abaixo e lá coloquei um pouco de betadine.
É um bom homem e muito meu amigo, mas isso não impede, que tivesse andado armado de coelhinho da "duracell".

Um bj grande
Fui ver a Floribela, estava atrapalhada com a hipótese de uma operação aos intestinos.
ahahahahah.....

Zé do Cão disse...

Templo, é Evora não há disto? Sabes que no Brasil há-de tudo.
Um abraço

Zé do Cão disse...

Silencio Culpado, estas foram só para ilustar o conto, estou convicto que era material mais apetecivil, não obstante a ramela ser igual.
Um...... bj grande

fotógrafa disse...

A prosa é gira...a foto é triste...coitadas das meninas...devem ser bem infelizes...
sei que é uma foto surrealista...mas é doença e bem triste!
abraço

Zé do Cão disse...

Pois fotografa, pelas caras não parece,até dava a impressão de estarem bem satisfeitas.
Claro que a foto foi somente para ilustrar o conto, tentando demonstrar com muito peso o que é o engano das meninas que vem do Brasil.
Diga-se que algumas são bem giras, confesso.
Um bj e não te zangues comigo, a vida é curta e para mim bem curta........

Olá!! disse...

hahaha aquela barrguinha não tem espaço para ter intestinos ...
beijos Zé

Templo do Giraldo disse...

Em évora há disso e muito mais. O que não falta por ai é beldades dessas:) Quantas queres?? poorrraaa...

Um abraço.

Templo do Giraldo disse...

Em évora há disso e muito mais. O que não falta por ai é beldades dessas:) Quantas queres?? poorrraaa...

Um abraço.

kuka disse...

Ó Zé! E ainda lhes chamam: Mulheres de vida fácil.

Anónimo disse...

Grande porra....nenhuma das Matronas deu um jeitinho ao coelho??pobre coelho,na sua servidão,nemhuma o serviu...BURRAS!!!!

São giras as gajas??,,,(giro era o burro da minha terra e não usava saias)

Um abraço:pandorabox

Rp disse...

LoL... Se tivesse lentes de contacto ;)
Abraços

Zé do Cão disse...

Ola!! Elas não têm é intestinos para a Barriga.
Bj minha querida

Templo, eu sei, eu sei. Juntinho à Praça do Giraldo, há aí um cafézito pequenito do Helder, numa rua que tem uma arcadas. Embaralhei-te?

Zé do Cão disse...

É verdade Kuka, mulheres de vida fácil.
Pois é, e quando aparece um bebado negro, é fácil?
Quem lhes chamou assim, não tinha o sentido das realidades.

Um abraço amigo

Zé do Cão disse...

Pandorabox, já estava a sentir a tua falta.
Para mim és simbolo do Blog (está bem)e animação para os escritos.
Quanto ao burro de saias, não lembrava ao diabo.
Já foste a "Mijas" na Andalucia?
Ali os Burros Taxis, andam de fraldas e os taxistas com uma alcofa grande e uma pá para apanhar as castanhas (obrigação do Aytamiento).
Voltanto ao Coelho, na segunda-feira escorregou e deitou uma canela baixo, como estava por perto e o post era desse dia, fartei-me de rir com ele à sua custa.

Bj e manda fazer uma permanentente à cachorrinha, porque o canito está farto de perguntar por ela.

Zé do Cão disse...

rp, deixa lá, o homem nem com lentes de contacto conseguia ver alguma coisa. Está sempre bem disposto, nunca se zanga, Acho que o "Metil"
também contribui para isto. Tirou isto, tirou aquilo, mas encontrapartida deu-lhe alegria.
Um abraço

caditonuno disse...

há aí umas alcatifas muito enrugadas, meu caro!

vsuzano disse...

a vida não é curta.... nós é que não a curtimos...

abraço

Moyle disse...

quando vi a foto e li o título comecei a visualizar de que "alcatifas" é que trataria no post. afinal a limpeza não era para essas, embora as houvesse e presumivelmente a precisar. de qualquer maneira, apesar da não confirmação da expectativa, o Moyle não sai defraudado pela leitura, muito pelo contrário.

Zé do Cão disse...

CaditoNuno. O gajo para arranjar material da pesada, também arranjava cá, não era necessário vir do Brasil.
Um abraço, amigo

Zé do Cão disse...

vsusano, essa é uma verdade. Como gostaria de contar, outras e outras que tenho. Mas tudo os seus limites...
Abraço e obrigado

Zé do Cão disse...

moyle, tive que ler duas vezes para perceber a que alcatifas te passava pela ideia.
Pelo que depreendo na foto, as alcatifas já deviam estar um bocados carecas, de tanto serem pisadas/esfregadas pelas botas cardas dos homens do campo, aliado à rodagem já feita em Paraguá - Brasil.
Abraços

SILÊNCIO CULPADO disse...

Zé do Cão
Meu adorável maroto. Já te respondi no Silêncio.
Beijinhos

Templo do Giraldo disse...

Arcadas a por aqui muitas meu amigo.. Mas o que não falta por aqui é mulheres de peso.

Obrigado por toda a força que me tens dado la no meu espaço, ja estas na minha lista de preferências.

Saudações.

Manuel Damas disse...

Tem um desafio no meu blog...

Olá!! disse...

Beijinho Zé

Raul disse...

É a primeira vez que venho ao teu blog tendo no silencio culpado encontrado o link. Gostei do que li e certamente tens muitos mais momentos pitorescos da vida escritos.Rir é uma boa terapia para a vida
Abraço

Zé do Cão disse...

Ola!! Esse beijo foi recebido na hora
incluíndo segundos.
Obrigado, sdoube-me tão bem que nem fazes ideia. Ás 7 horas já estava levantado a fazer o pequeno almoço.
Sabes para quem.........

Zé do Cão disse...

Raul, se tenho homem, se tenho. Alguns não podem ser contados, pelo facto de serem destinados somente a maiores de 80. E cada um de se lhe tirar o chapeu....
Um grande abraço e tenho-os sempre abertos para receber quem me pretender visitar......

Isabel-F. disse...

Que local mais degradante ....

e ainda bem que o Coelho é cegueta ...

bjs

Zé do Cão disse...

Também concordo, mas cuitado, quanto daria ele para ver aquelas beldades.
No fundo se não fosse cegueta, nem nunca tinha trabalhado naquela profissão, tinha continuado lá por Santa Maria da Feira.
Eu considero-me um safado, por rir à sua conta. Mas muitissimo amigo dele.
E ele sabe que sim.
Um bj

Lisa's mau feitio disse...

Olá Zé do Cão!

Não li o post, leio dpois c calma!
Apenas vim dizer que não sei o q aconteceu (resposta ao teu comment no meu blog).
Qdo me contas?

Beijinhos gdes!

Lisa

Templo do Giraldo disse...

Tao rapaz? ta tudo bem por ai?? tens andado um pouco calado. Espero que esteja tudo bem por ai.

Saudações.

Anónimo disse...

ò..Zé,,,"bota" pra fora essas para maiores de 8o anos.HOME....tenho cá uma fé...q até "encolho" na idade,,se guardas essas preciosidades podes arrebentar,e nem as "banhas das da foto te safam....(aguardo,,(ehehhehh))
q pensas,a vitória tem uma permanente de truz e umas gracinhas de fazer inveja a qualquer um(cão)....

(não..não conheço,mas fiquei com a pulga atrás da orelha)como vou pra lá!!???sou perdida pela Ria de Vigo e Sevilha,,,,manias

Um abraço Bom amigo:pandorabox

Zé do Cão disse...

templo, tenho andado atarefedo.
um abraço


Pandorabox. É complicado, atirar com algumas. Vou pensar bem.
"Mijas" é uma terra a poucos Km de Terramolinos-Malaga, lá no alta da serra, com uma vista impressionante encosta abaixo até Fuengirola e o mar. Tem cá um turismo de se lhe tirar o chapéu. Tem burros Táxis. As arvores são amoreiras e numa unbreira de porta, junto à campainha, tem um azuleijo com um desenho de um cavalo a despir-se atrás de um biombo com a indicação.
Aqui vive um veterinário. Vale a pena visitar. Se algum dia fores eu indico-te um hotel de 4 Est. com um preço belissimo, com um "pueblo andaluz" e a maior piscina da zona, primeira linha de praia que é um encanto e poucos portugueses conhecem. Razão, eles vendem tudo em França,Luxemb,a
Alemanha. Sou lá cliente há 22 anos.
Gostas da ria de Vigo, conheces o Samil? Concerteza que sim. Samil, sentido Bayona, logo após a primeira curva, Restaurante Timon,
lado direito, só se vê o estacionamento mesmo na estrada, fica em baixo, nas rochas do Mar.
Que delicia. Áh, e frente ao Hotel Baia, junto à doca, há um parque de estacionamento, que é um espanto.
Os carros ficam arrumado mecanicamento em gavetas como nos porta-aviões. Preço igual aos outros. Ao principio mete um bocado de confusão.Mas é um espanto.
Quanto à Victoria, entrega-lhe uma carracinha para por na orelha minha prenda de pascoa.
Um bj. do amigo

Zé do Cão disse...

Lisa's, vou entrar em contacto com Óla contar-lhe e depis ela conta-te.
Tá bem? Ou então dá-me um toque ao meu mail. Que já te enviei.

Bjs.

Lisa's mau feitio disse...

Zé do "Canito"!!

Já falei com a olá!!

ahahahahhaha

deve haver algum equívoco!!
eu não sou a tal!!!

alguém com o mmo nick!!

Mas a Olá vai explicar melhor!!!

Mas Marias há mtas na terra, Cão!!:D

Beijinhos!!!

Lisa
:)

Zé do Cão disse...

Tás a ver Lisa's, tás a ver.

O que é que o gajo poder pensar do seu progenitor? Tal tá a moenga!!

Ai nossa senhora, se ele não denuncia-se, bem aconchegadinho
daqui a uns anos dava um belo conto.

Bj.

Anónimo disse...

se pensas muito....estragas tudo!!bota pra cá e pronto..

sim,conheço essas bandas,,ui se conheço(conheço um pouco da Europa.)belos tempos,enfim...

carraça??blhec,,,a minha vitória é coisa fina ò tu...

Um abraço:pandorabox

Anónimo disse...

estou a imaginar (depois da apresentação)o Capitão a ser ESMAGADO com aquelas banhas,,,apresenta-as Zè olha q é uma obra de caridade,coitado do Capitão,sem gajas,,,

Um abraço:pandorabox

Zé do Cão disse...

O Capitão sem gajas?
Estas valem por cem.
ahahahahahahah.......


Que giro a Dama e o Vagabundo......
e além da carracita uma pulguinha...

luafeiticeira disse...

Incrivelmente treiste esta história, a mim ficou-me o homem que se reformou por invalidez e que teve que continuar a trabalhar no duro e os cabrões dos deputados...
beijos

Francisco Castelo Branco disse...

é uma boa fotografia......

Zé do Cão disse...

Pois é LUA, pois é.

Isto é o País onde tudo anda na lua.
Tal e qual, como dizes.
Bj.

Zé do Cão disse...

Fran. Castelo Branco - Homem gostei da tua visita, mas não me digas que só gostas-te da fotografia.
Na realidade são grandes lascas, mas nas arábias não serviam para Ódaliscas.
Em Portugal, há certos sitios onde tudo que vem há rede é peixe.
Um abraço