9.10.07

Carapaus fritos

O meu amigo J.J. foi à inspecção militar ficou apurado e assentou praça no Quartel de Elvas.
Ir aos confins do Alentejo em 1954 era uma aventura das inolvidáveis, e ainda pior se utiliza-se as camionetas de passageiros, que saíam de Cacilhas, dado que paravam por todas as terras que se lhe deparavam e era festa na aldeia, sendo a única distracção ali existente. Ela levava o saco do correio, as embalagens de encomendas e acima de tudo o desejo de alguém da terra que anunciava a chegada e depois resolvia não ir deixando os familiares e amigos em ansiedade e agitação nervosa.
Na maior parte das vezes 2 a 3 furos pelo caminho, que o desgraçado do motorista e o cobrador tinham de reparar; era enfim uma quantidade de coisas que hoje seriam consideradas anormais, mas que na época era o pão nosso de cada dia.
Uns dias antes da partida, o J.J., rapaz pobre e com dificuldades, andou a visitar todos os seus amigos e familiares. A solidariedade entre os pobres foi sempre coisa boas dos portugueses, tendo o recruta arranjado de dádivas qualquer coisa como 2.000$00.
A irreverência da juventude faz milagres, e o nosso J.J., não esteve com meias medidas, assim que chegou ao Quartel tratou de meter os papeis para se desarranchar. Porquê ficar a comer comida da tropa se tinha 2.000$00 no bolso, era o que faltava, pobre sim, mas tanto não.
Foi chamado ao oficial que daria o aval ao seu pedido, militar de pelo na venta que tratou de avisar o soldado tal e tal que se amanhã quisesse voltar, não o poderia fazer.
Qual quê, tranquilo, porque o J.J. era homem para se aguentar e a tropa não era para toda a vida (na realidade aguentou-se e de que maneira).
Tratou de fazer pesquisa para saber onde em Elvas se comia bem e barato e passou a frequentar uma tasca (agora tasca, que naquela altura era denominada casa de pasto) onde comia conforme os seus desejos e à descrição.
Melhor não poderia haver e até dava para brincar com os colegas de formatura. Claro que os dois mil foram-se esgotando, e o J.J. deixou de ir a casa ver a família. Depois, quando ia almoçar, comia desmesuradamente para compensar o jantar que passou a ficar em branco e finalmente esgotados todos os recursos pedia aos colegas para lhe trazem algo do refeitório do quartel. Quando alguém da família lhe enviava uma carta acompanhada de 100$00, era certo e sabido que havia festa na Cidade e só não ia rezar à patrona do burgo, porque não era homem dado a essas coisas.
Fui visitá-lo, era bom e grande amigo, teve o cuidado de não contar as dificuldades que passava, convidei-o para almoçar e levou-me ao tal restaurante, onde como cliente já era conhecido.
Era inverno, Elvas é Cidade do interior, o frio enregelava o nariz e eu com a samarra bem aconchegada seguia atrás do J.J., já que ele conhecia o caminho e eu não.
As botas da tropa batiam na calçada apressadamente e o capote do militar, coçadíssimo, abanava.
O Gerente, pessoa bonacheirona, perguntou se ele tinha estado doente, em virtude de há uns dias que não aparecia.
Sentamo-nos e o menu era único: jarrito de vinho, pão alentejano (que saudades) arroz de grelos e carapaus fritos, à discrição.
O J. J. comeu, comeu até não poder mais e pede nova travessa de carapaus fritos enquanto eu utilizava o mictório.
Fiquei embasbacado com a rapidez com que comeu aqueles últimos carapaus que deviam estar deliciosos, como hoje já não há. A travessa estava vazia e eu nem sequer lhes tinha visto a cor.
Mais dois dedos de conversa para saborear os últimos momentos da minha visita, chegando a hora de ir embora.
Fui ao balcão pagar, atravesso o estabelecimento à frente com o J.J. a seguir-me e sinto algo que me batia nas pernas, olho para trás ao mesmo tempo que o dono da casa observava o espectáculo, e vejo isto.
O J.J. tinha metido a ultima travessa dos carapaus fritos nos bolsos do capote. Estes, como estavam rotos, deixam sair os ditos tesos da fritura, que lhe batiam nas botas e saltavam à sua frente. Não cheguei a dizer nada, porque o comerciante saiu-se com esta: Oh!.. Sr. J.J. Atão tá a fazeri uma figura triste, atão se me tivessi dito alguma coiisa, eu nãm lhe dava os carapaus?
Ao que o meu amigo responde: - Porra, você era capaz de dar uma vez, decerto não ia dar-me todos os dias.
Os outros clientes desatam a rir, o dono do estabelecimento também e eu nunca mais posso esquecer cena tão cómico-dramática ao mesmo tempo.
Sempre que vejo um militar fardado, olho para as suas botas a ver se delas saltam carapaus fritos.

6 comentários:

Capitão Merda disse...

Ehehehehe!
A fome é negra, Zé!

Zé do Cão disse...

Pois é.Muito especialmente há 50 anos. Trata de marcar o dia para nos enchermos de mexilhões.

zé (do beco) disse...

Ainda me recordo dos carapaus (chamados carapau de gato) serem oferecidos (na compra do outro peixe) pela varina que ia de Vila Franca às fazendas do Porto Alto (a minha terra) vender o peixe que sobrava da venda na vila e que já não cheirava muito bem (eheheh).
Mas é verdade, embora eu seja um pouco mais novo (nasci em 52), em finais dos anos 50 (e até ao 25 de Abril), a vida era mesmo difícil e a fominha era negra.

Zé do Cão disse...

Amigo Zé. Palavra que com a tua sabedoria, dava-te mais idade.....
Isto só vem em teu abono... Quem me dera ter essa ou 10 e saber o que sabia nessa altura.
Não é ser muito exigente, pois não?
Tenho saudades da tua falta....

Pascoalita disse...

Eu bem sei que é um pouco extemporâneo, mas tinha de deixar a "prova" de que li isto ahahahahahahah

Isto fez-me lembrar um dia, pela manhã, em que me cruzei com um militar que descaradamente me mostrou o "CARAPAU" eheheheh eheheheheheheh

Zé do Cão disse...

No tempo em que havia fome, um militar andar por aí a mostrar o carapau não era muito vulgar.
Já agora, pergunto, era carapau de gato, espanhol ou mulato?
este deixava escorrer os carapaus pelas pernas abaixo.

Beijocas