31.8.07

Merda em dia de Futebol

Fim da década dos anos 50, Margem Sul, Cruz de Pau – Amora, sócio do Sporting com lugar cativo, possuidor de uma moto Triumph 350 cilindrada. Um luxo para a época. Quando o frio apertava usava por debaixo das calças umas ceroulas com elástico a apertar em baixo em cada uma das pernas. Hoje, pelo menos nos joelhos, não sofro de reumático. Se calhar tenho-o na tola, mas creio que não se nota muito é o que dizem.
Inverno, domingo, tempo ameaçador de chuva, cedo já tinha caído uns pingos. Leão convicto, preparo-me para ir até Alvalade assistir a um jogo de futebol entre o Sporting-Porto para a taça de Portugal, que nessa altura realizava-se em duas mãos. No Porto, o Sporting já tinha sido bem aviado com 2-0. Havia portanto que recuperar e superar, para seguir em frente.
Faço todo o ritual domingueiro dos doentes do futebol, sendo entre outros o de almoçar mais cedo, visto ceroulas, calças, samarra, pego na mota e nesse momento começa a chover, forte. Os planos são alterados, guardo a moto, substituo a samarra por uma gabardina de fazenda e dirijo-me para a paragem do autocarro que nessa época chamavam de camioneta da carreira, com destino a Cacilhas, já que nessa altura não havia ainda a ponte sobre o Tejo.
Na ânsia de não chegar tarde, apanho o transporte que vem de Setúbal, mais rápido e um pouco mais caro. Enquanto esperava senti um pequeno sinal de mal estar causado por uma cólica intestinal, mas nada que um apertão anal não resolvesse momentaneamente.
Ao entrar na já referida camioneta pela porta de trás, talvez o gesto de subir, deveria ter feito com que as tripas mudassem de posição e começo a mudar de cor. O único lugar vago, era no último banco por sinal corrido e que leva 5 pessoas. O cobrador avança logo para mim e mesmo antes de me sentar dá-me o bilhete que pago, fazendo simultaneamente uma descarga intestinal que só não chegou ao chão graças ao tal elástico que apertava as ceroulas às pernas.
O efeito da convulsão, deveria ter ficado abafado com o barulho que o transporte fazia, mas o cheiro começou a fazer os seus efeitos imediatamente. Na minha mão espalmada um montão de moedas esperavam que o cobrador se aproveitasse para trocar por nota, em virtude da falta de moedas pequenas que havia e entretanto eu já tinha puxado aquele fio de cabedal que fazia tocar a campainha colocado no tecto para que a viatura parasse na próxima paragem. Um passageiro incomodado alertou o cobrador para me despachar, em virtude de eu estar todo cagado.
Paguei viagem na Cruz para a Cacilhas, mas por este incidente, fiquei-me pelo Muxito, que para quem não conhece é qualquer coisa como 800 metros a 1km.
Regresso a casa não tão ligeiro quanto desejava, lavo-me e mudo de roupa, entre ela novas ceroulas e lá parto novamente em busca de um transporte similar que me levasse a Cacilhas, barco, autocarro de 2 andares e eis-me chegado a Alvalade, tendo durante todo o percurso os malditos intestinos dado mais 2 ou 3 avisos, de chegada de novo parto fecal. Enfim lá se aguentou e portanto afoito, ocupei o meu lugar naquele estádio que tanto adorava.
Ao tempo, a equipa dos violinos já estava desfalcada de Peyroteu, mas era sem sombra de dúvida a melhor de Portugal. Todavia, no futebol como em tudo na vida as coisas nem sempre correm bem e o que é certo é que ao intervalo o resultado estava em 0-2, que com os 2 do Domingo anterior o meu clube perdia por 4-0. Motivo para euforias não havia, os intestinos lá se iam aguentando e o ânus não abria.
Na segunda parte o Jesus Correia passa, como era habitual, para avançado centro e a faltar 3 ou 4 minutos para acabar o jogo o resultado já estava em 3-4. Quem é amante de futebol sabe quanto se vibra com os golos, podem portanto avaliar o sofrimento por que passei sem poder dar asas à minha alegria a festejar os da minha equipa com medo de uma golada mais atrevida sair do meu traseiro.
Até que, num rasgo genial daqueles leões indomáveis, Albano em cima da hora faz 4-4. A multidão entra em delírio e este vosso amigo levanta-se, e ali em pleno estádio faz um despejo intestinal, seguido de nova leva, desta vez ainda mais bem líquida, borrando badanas, fralda da camisa e peúgas, não chegando aos sapatos graças aos elásticos milagrosos que me minha mãe tinha colocado nas ceroulas, que jamais posso esquecer.
Dirigi-me a um dos sanitários do campo, papel higiénico nem vê-lo, despi, e despedi-me das ceroulas, da camisa, das peúgas deixando-as lá, limpei-me a umas páginas do jornal “Mundo Desportivo” do dia anterior, e já com a gabardina apertada até ao pescoço e a dignidade possível livrei-me de fazer de volta todo o caminho a pé, porquanto seria impossível assim, alguém aceitar a minha presença naquele estado.
Para os leões, informo que a desforra do Sporting-Porto foi em Coimbra a uma quarta ou quinta-feira, tendo o nosso clube eliminado o F.C. Pê por 5-2, com 0-2 ao intervalo.

6 comentários:

caditonuno disse...

finais dos anos 50? isso foi quase há 50 anos! que idade tens tu? 70? 80? só 1 reparo. nao é cágado, mas sim CAGADO. dantes eram as ceroulas,agora saoas cuecas. a mim nunca me deu dessas coisas. coitado do pessoal do autocarro, ficou com a merda até ao nariz!

abraço e escreve mais umas linhas pra eu vir aqui mais vezes.

Mazi disse...

Morri de Riso...
Bota-lhe fruta e bem vindo á blogosfera... ja agora fika aki um contacto...

www.osgajosdojardim.blogspot.com

Zé do Cão disse...

Acertaram na muge, moços!

ze do cao disse...

Caditonuno:- Estou enganado ou a rua onde tiras-te essa foto, chama-se
"Rua dos Chãos"?

zé (do beco) disse...

Meu caro Zé do Cão, com tanta caganeira num só dia ainda teve muita sorte não ficar o "Zé Cagão" eheheheh.
Gostei muito desta história. Até porque ela me fez lembrar algumas parecidas por que passei (parecidas mas não tão arrojadas eheheh).
Já agora parabéns. O seu Sporting acabou de ganhar ao Guimarães e o F C Pê já foi com os porcos, que é onde eles se sentem bem. Nem a Sra. De Fátima lhes valeu eheheheh.
Abraço.

Zé do Cão disse...

isto de futebol tem altos e baixos como os alcatruzes.
Nesta altura estão eles por cima, qualquer dia estaremos nós e depois outros.
Desde que não haja batota.
Há que ter a cabeça fria e moderação