25.8.11

Na Camarga - França


em Mil novecentos e setenta e um, mandei dar uma revisão ao Ford Cortina, enchi o depósito com gasolina súper e com a "Lurdocas" (já vossa conhecida dos textos "Viagem a Sevilla de 24 de Agosto de 2008 e "Ai não me lo diga" de 18 de Novembro do mesmo ano), partimos para Espanha, França, Italia e Suíça, fazendo campismo. Os dias eram os que fossem necessários e o percurso, o que calhasse. O verão estava no auge, os dias eram grandes e sem dúvida a antever um passeio inolvidável.
Os pormenores foram alterados logo ao segundo dia, quando em Barcelona depois de ter comprado na véspera bilhetes para uma volta à cidade da parte da tarde, faltámos por descuido, tendo atribuído todas as culpas à "Lurdocas" quando na realidade eu não medi, nem fiz cálculo certo ao tempo gasto numa outra corrida que fizemos a Monserrat, pela parte da manhã.
Apresenta-mo-nos em cima da hora, junto à nova praça de touros de Barcelona, quando o local de partida era junto à velha.
Na auto estrada do Mediterrâneo, já em França, partiu-se o para brisas da viatura, era lusco-fusco e não fosse a aparição de uma brigada de "Gendarmes" estariamos em maus lençóis.
Os policias circularam à nossa frente e na primeira saída deixaram-nos junto a uma gasolineira. Tivemos a sorte, de na dita, estar a abastecer um espanhol naturalizado francês, pois tinha quando criança fugido na companhia dos pais à guerra civil espanhola e por lá ficaram, até que com a mudança dos tempos, Franco, autorizou a abertura da fronteira àquela pobre gente.
O Senhor, cujo nome já não recordo, era taxista, tinha um furgão Citroen e um ligeiro, a que dávamos o nome de "boca de sapo" aqui em Portugal. Prontificou-se a arranjar-me no outro dia pela manhã uma oficina de um seu amigo para resolver o problema da colocação de um vidro novo. Logo nessa altura procuramos a oficina, não obstante esta estar quase a encerrar, tendo optado por irmos ficar a um hotel, por indicação do francês/espanhol. Colocamos a nossa bagagem no local de pernoita, e tivemos de ir jantar a um restaurante, já que o hotel era residencial e não servia refeições, e portanto o nosso guia/forçado, taxista de profissão, fez-nos esse serviço, ausentando-se para jantar, mas com o compromisso de nos ir buscar para regressarmos à unidade hoteleira.
Quando nos aparece, conduzia o "furgão", que já vinha cheio de rapaziada que ele transportava para uma festa numa povoação ali perto, onde ia haver "boi na rua". O Zé e a "Lurdocas", perdidos por dez, perdidos por mil, resolvemos acompanhar aquela gente no folguedo. Só então tivemos conhecimento que estávamos em plena região da Camarga e que o "boi na Rua" era o culminar e prato forte daquela festa. Optamos por nos recatar e deambulamos pelas ruas mais iluminadas da povoação,e enquanto apreciávamos as barracas de feira, íamos dando um olho à procura de um melhor lugar para nos colocarmos a recato de alguma marrada, quando o boi ou bois fossem soltos.
Deus põe e o diabo dispõe. Começou a cair uma chuva tão forte, tão forte, os pingos pareciam bagos de uva dos grandes e pelas ruas a água corria em enxurrada. o taxista encontra-nos e leva-nos de regresso ao hotel, voltando ele para a festa, pois os seus clientes, andavam por lá.
Às 9 horas da manhã, o homem esperava-nos à porta, e com a bagagem fomos à oficina saber como estava o assunto da minha viatura. Um estafeta tinha ido a Nice buscar o vidro, e como tínhamos de esperar muito tempo, o taxista propôs-nos para nos levar a passear. A minha boca começou a ter um travo amargo, pois achei que o homem se estava a aproveitar da minha má sorte para conseguir uma boa receita pelos serviços que me estava a prestar. Nem disse que sim, e eis que ele abala direito às praias do Mediterrâneo, onde pelo caminho tivemos ocasião de ver as marismas ou sapal, as salinas da Camarga, e parte das suas 400 aves, entre elas os flamingos vermelhos.
Há hora do almoço, perdi a vontade de comer, estava em depressão e pensando já em regressar
a Portugal, o dinheiro não chegaria para tanto. A "Lurdocas", olhava-me angustiado e pela tarde
ainda fizemos mais uns largos quilómetros.
Lá pelas 19 horas o carro estava pronto, esperei a "dolorosa" intranquilo, e quando me foi apresentada a factura, dei um sorriso que deveria ser amarelo dado o meu estado de espírito.
O valor era perfeitamente aceitável e creio mesmo que se fosse em Portugal, seria mais caro.
Perguntei ao taxista quanto lhe devia, e ele sorrindo dissemos que fossemos ali a uma esplanada bem perto, beber uma cerveja e que me apresentaria a conta. Comentei com a companheira, que voltaríamos para trás e faríamos as férias em Benidorm num parque de campismo, sem as andanças do automóvel.
Sentámo-nos, bebeu uma cerveja, e eu um copo de água para empurrar a saliva que me atormentava, pagou a conta e tem este discurso.
Palavras textuais do taxista. Eu já tive acidentes, eu já passei por dificuldades, quando longe de casa. Tudo quando fiz, foi no sentido de vos ser agradável, portanto não tem preço, não me pagam nada. Que continuem a vossa viagem, com felicidade... Apertando-me a mão fortemente.
Fiquei siderado. Estava exausto, não tinha palavras, não tinha nada com que pudesse pagar aquele gesto.
Não sabia como vincular a minha gratidão... Fiquei com a sua morada e ofereci-lhe um mapa de Portugal, editado pelo Automóvel Clube de Portugal, já bem velho por sinal, onde assinalei onde morada, e que gostaria num futuro próximo poder-lhe pagar da mesma forma.
Um mês depois, um camionista da empresa onde trabalhava, deslocava-se a Itália em serviço, e por ele enviei àquele bom Samaritano uma caixa com 6 garrafas de Porto Ferreira "Vintage". Nunca soube se chegou a entregá-las, pois despediu-se no regresso, e não tive ocasião de falar-lhe, nem saber para onde foi residir.
A partir daí, o meu carro, quando em viagem tem sempre na sua mala 6 garrafas de Vinho do Porto, para o que der e vier, e digo-vos que já tenho usado muitas, até para oferecer a quem não me fez favor nenhum.

36 comentários:

Magia da Inês disse...

°º♫
°º✿
º° ✿♥ ♫° ·.
É!... Estamos tão acostumados com a exploração de todos que nem imaginamos que possa existir alguém de boa vontade... que tem prazer em ajudar... sempre esperamos o pior das pessoas...
É bom ler esse relato, ajuda-nos a ter uma réstia de esperança no próximo.
Quantas aventuras já vivestes, não é?
Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil °º♫
°º✿
º° ✿♥ ♫° ·.

Pascoalita disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pascoalita disse...

Passei de fugida e fiquei agradavelmente surpreendida com o novo texto.

Minha nossa! Quantas aventuras vividas eheheh

Puxa! Nem sei se em 1971 eu já tinha visto o mar pela primeira vez e tu aventuravas-te assim, por esse mundo fora ehehe

Amanhã passo com mais tempo


jinhos

São disse...

Oh, meu querido amigo, ainda há pessoas verdadeiramente extraordinárias, graças a DEus!

Como tu és também, diga.se a verdade...

Um bom fim de semana para ti e família, Zézinho.

Capitão Merda disse...

Eheheheh!

Zé do Cão disse...

Magia

Já lá vão 40 anos. O Taxista presumivelmente já faleceu.
Fiquei sempre com peso na consciência, por ter julgado mal aquele SENHOR.
Se o encontrar lá por cima, dar-lhe-ei um abraço e agradecerei as coisas que ele me mostrou na região da Camarga.

Beijos

Zé do Cão disse...

Pascoalita
Como o tempo passa. Quantas aventuras eu tive? Quantas coisas belas, lindas e gostosas me passaram e acompanharam nesse passar.
Não vivo de saudades, e tu sabes isso,mas recordar é viver.
Depois, desse passeio, outras historias teria para contar.
Zangamo-nos em Marselha e um campista à noite colocou o rádio muito alto para não nos ouvir. Em Géneve numa relojoaria, uma empregada talvez aí de 19/20 anos, ui...fazia a montra dos relogios, mas estava com o "sim senhor" virado para a rua. Abaixa-se, e...
uma multidão apreciava o seu trabalho... Ela dá por sim, fica desorientada, atrapalha-se e as prateleiras da montra cheia de relógios vem abaixo. A multidão delira e corre finalmente uma cortina para acabar com o espectáculo.
Em Montreaux quis comer um cachorro, mas como não o nome, apontei para um cão de peluche que tinha um barril pendurado ao pescoço (S. Bernardo), resultado o gajo embrulhou o dito e meteu-me na mão. Comprei-o, mas fiquei cheio de fome na mesma.
e mais e mais.

Biquinhos

Zé do Cão disse...

São
Tu és a responsável por este texto. Falas-te-me na "Camarga" e veio-me logo à cabeça esta aventura.
Quanto ao bem fazer.
Recordas que em 20/1/09 publiquei "Turistas Brasileiras"? Pois não seria o Zé a fazer a mesma coisa? porque aprendeu a dar valor a essas coisas.
Para essas Brasileiras o Zé Também foi bom Samaritano.

Abraços, minha Joia

Zé do Cão disse...

Capitao

Já tens o barco restaurado? Não necessitas de um grumete?

o meu sincero abraço

Dri Viaro disse...

Que aventura legal hein? hehehe
deu pra perceber q vc gosta "pouco" de vinho rssss


beijos bom fds

Zé do Cão disse...

Dri Viaro

Sabe boa amiga. Oferecer uma garrafa de Vinho do Porto e especialmente "Vintage" é um acto de cortesia muito apreciado em Portugal. É que o Vinho do Porto, não é um vinho qualquer, é uma pomada que quando a colheita é de grande qualidade faz a riqueza de toda uma região.
Demais, a grande maioria de vinhos do Porto são Doces e portanto é um vinho para se beber uns cálices. Não é vinho de mesa

Beijos

Capitão Merda disse...

:)

Zé do Cão disse...

Capitão

Estás cheio de força, não.
É pá li algures que os ricos vão ter um imposto especial. Tás lixado, levas um corte que ficas arrepiado.
abraço

elvira carvalho disse...

Não estamos acostumados a generosidades dessas e por isso estranhamos. Mas elas acontecem. E em questão de gente generosa eu não me posso queixar. Bem pelo contrário.
Um abraço e bom fim de semana.
Ah e vinho do Porto dizem que é sempre uma boa prenda...

Zé do Cão disse...

Elvira

Minha boa amiga, é efectivamente isso. Eu não estranhava nem uma coisa nem outra, e até achava normal ele querer fazer receita. O que me surpreendeu foi o homem, com clareza, alto e bom som, dizer que eu não tinha nada a pagar. Claro que me cresceu a cabeça, isso cresceu.
em 20/1/09 escrevi um texto, sobre um encontro que tive com duas turistas brasileira, em que lhes fiz a mesma coisa.
Afinal sempre aprendi alguma coisa com o franceú/espanhol.
Com o vinho do Porto, tenho aberto algumas portas. Quem já não foi de férias e não encontrou uns estrangeiro simpáticos, tivessemos feito uma conversa simpática e não achassemos que agora era giro ter aqui um vinho do Porto.
Pois eu deixei de ter esse problema e até tenho arranjado bons amigos.Tenho sempre o Porto na hora certa.
o Meu abraço

Capitão Merda disse...

Sim, Zé, estou bem lixado!
Mas antes de ficar nas lonas, compro uma caçadeira e mando meia-dúzia de político para o galheiro!

Bom fim-de-semana!

Zé do Cão disse...

Capitão

Mas achas que os gajos são mesmo políticos?
É pá, porque não vais viver para a Madeira? Aquilo por lá é um autentico paraíso. Vê lá que já me disseram que nos Açores, já aprenderam com o Jardim a mexer no MEL.
Um bom descanso e um bom pic nic, meu grande amigo

Kim disse...

Olá Zé!
E quando não há vinho do Porto há Moscatel, né?
Nunca te assaltaram o carro?
Pelo menos ficaste a conhecer a Camarga (por acaso eu não conheço) mas não acredito que o Samaritano tenha recebido as garrafinhas enviadas.
Há samaritanos e samaritanos!
Abraço amigo

Zé do Cão disse...

Kim
meu bom amigo. Deste-me uma ideia. Vou trocar as garrafas de Porto por Moscatel, sempre é da minha região.
É uma região bastante interessante e que vale a pena ver.
Sinceramente também não acredito que o Samaritano tivesse recebido as garrafas; de outra maneira tinha-me procurado para me informar.
Um grande abraço

Pascoalita disse...

É cada vez mais raro cruzarmo-nos com "bons samaritanos", mas ainda existem e felizmente de tempos a tempos experimento essa grata sensação.

Não sabia a razão do hábito do "bom vinho" fazer sempre parte da tua bagagem, mas faço parte do tal grupo que já ganhou uma garrafita msm sem ter feito nada para a merecer eheheh

Que Deus te dê saúde e te recompense pelos momentos agradáveis que distribuis.

Bom Domingo, AMIGO Zézito :)*

jinhos

Zé do Cão disse...

Pascoalita
Nem pensar, tu não fazes parte desse grupo. Era o que faltava. Eu referia-me durante as férias, durante as férias. Que eu recorde não te ofereci nenhuma garrafa de vinho do Porto.
Biquinhos e muitos

Cusca Endiabrada disse...

Só eu não tenho a sorte de encontrar taxistas voluntários, nem cicerones a custo zero, muito menos "pagantes mãos largas" só "pés rapados" como eu (quem mandou nascer num século em crise? ihihihih)

E eu que estou sempre a ouvir que a vida de "saltimbanco" é apanágio da juventude actual.... o meu avozinho é que devia ler-te ihihih

Ah! Ainda bem que vais substituir o vinho do porto por moscatel ... hum é bom! Se precisares duma ajudinha ... (para beber, claro ihih)

dentadinhas

Zé do Cão disse...

Cusquinha
Tens toda a razão. Só pés rapados.
Mas...não concordo bem que seja assim, não tens grande razão de queixa dos amigos, agora dos namorados é que me parece que não dás uma para a caixa.

A crise é tamanha...

Biquinhos

Cida disse...

Olá Zé! :)

Gostei muito da sua história.
Também eu já me encontrei com alguns desses "anjos da guarda" pela vida.
Na verdade, são eles que nos fazem continuar tendo fé na humanidade.

Ainda bem, né?

Te desejo uma linda e feliz semana.

Abraços,

Cid@

BlueShell disse...

Nem todos têm esse princípio...tiveste sorte. Há alturas em que parece que tudo se conjuga para nos estrgar os planos: delirei com a cena em que ele aparece com o furgão cheio de gente...e mais adiante , quando começam a chover pingas do tamanho de bagos de uva!!! LOL...

Olha, acho que colocaste o comentário em um outro blog...pois se no meu não aparece...e eu não corto comentários...só há essa explicação, meu anjo.
Bjinhos

BlueShell disse...

Aí para cima alguém falou em "moscatel?"....epá...ainda é cedo e tenho sono...mas logo mais...vinha a calhar, canecos!!!

Zé do Cão disse...

Cida

São estas pequenas-grandes coisas da
vida que nos dá animo para continuar a viver.
As coisas passaram em grande correria
e mais tarde vi as minhas falhas.
Não deveria eu tentado falar com o taxista, mesmo depois de lhe mandar as garrafas, quer admito nunca foram entregues?
Bejos

Zé do Cão disse...

Blue
E não contei que quando começou a chover os feirantes, pegando nas suas tendas (um homem em cada pata da dita, a fugir, para onde)foi um pandemónio. O Hotel era um bocado "rosca", só nos tinha a nós como hospedes e quando voltamos da festa fugindo da chuva, estava ele a carregar a espingarda. Fiquei assustado e pensei numa execução sumária.
Afinal ia pela madrugada para o sapal à caça.
Sobre o comentário, também admiti essa hipótese. Alguma falha tive, não há duvida.
As minhas desculpas.
abraço

Zé do Cão disse...

Blue

É que eu vivo na região do Moscatel de Setúbal e daí conhecer tão bem a historia do "Torna Viagem"., do "Alhambra" do "Malô", "Rocho" e "Excelent".

abraço

Capitão Merda disse...

Eu, viver na Madeira, Zé?!

Prefiro um tiro na cornadura, a ter que viver junto de um rebanho de acéfalos que votam sistematicamente num bêbado ladrão!

Zé do Cão disse...

Capitão

Lembras-te de quando o Kadafi esteve cá?
Os seus os seus vassalos que vivam cá foram fazer-lhe uma visita de beija mão. Também foi um portugues que vive lá e convertido ao islão. Todos esses fulanos receberam depois 150 € cada por esses (?)serviço.
Sr
Será que na Madeira é igual? E por isso votam nele?
Abraço

Teonanizi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Capitão Merda disse...

:))

É bem provavel, Zé. De forma menos visível, mas...

Dri Viaro disse...

boa semana amigo.

abraços

Zé do Cão disse...

Dri

igualmente com muito trabalho.

abraço

Parisiense disse...

Olhei para a foto e disse:
O Zezito foi ao Lobito????Foi á minha terra e não me disse nada?????
Mas afinal esses flamingos não são do Lobito....ehehehe
Beijokitas