12.11.07

General Cagalhão

Esta história conta uma faceta da minha meninice, igual a tantas outras que as crianças na sua infantilidade cometem e magoam os adultos e mais ainda quando esses adultos são anciãos.
A minha idade rondaria aí uns 8, 9 anos, portanto em plena Guerra Mundial. No meu concelho foram colocados em pontos estratégicos, pelo Ministério da Guerra, canhões de calibre elevado, holofotes que à noite rompiam o céu em todas as direcções, para em caso de necessidade deitar abaixo os hipotéticos aviões alemães que viessem despejar metralha em Lisboa. Simultaneamente, fizeram-se casernas para aquartelar militares.
Aconselhava-se a população a colocar tiras de papel nos vidros das janelas para evitar os estilhaços e as lâmpadas eram azuis para não denunciar as nossas posições.
De quando em quando, havia simulações de ataques e era giro (visto pelos olhos duma criança) toda a gente a correr e a esconder-se nos mais variados sítios, chegando mesmo a ver um bêbado meter-se debaixo duma carroça na ocasião em que por motivo do alarido o cavalo começou aos coices.
O movimento e as conversas dos adultos eram observados pelos miúdos, que depois nas suas brincadeiras os imitavam.
O meu pai trabalhava na maior empresa do mundo que manufacturava cortiça. Mundet, de seu nome. Só em Portugal tinha 5 fábricas, colossos daquela indústria. O desentendimento entre os seus sócios originou uma das grandes calamidades que se abateu sobre as centenas de famílias inteiras que lá trabalhavam. Enquanto os advogados se gladiavam em tribunal, enchendo os bolsos de chorudos vencimentos, os trabalhadores agonizavam na miséria.
Numa taberna perto da minha porta, apareceu por essa altura um ancião, sei lá que idade teria, muito velho, sem dentes, cujo queixo quase encostava ao nariz. Não recordo, se é que alguma vez o soube, de onde veio. A sua casa era um barracão de chapas de zinco, situado a 100 ou 150 metros da minha.
O homem tinha um carinho especial pela miudagem e gostava de nos contar aventuras de que dizia ter sido protagonista. Entre muitas contou-nos esta, que no fundo dá origem à minha narração:
Quando tropa, foi destacado para Moçambique acompanhando Mouzinho de Albuquerque e tinha feito parte do comando que foi prender Gungunhana. A miudagem bebia as suas palavras e ele contava que tinha visto crocodilos de 10 metros, leões enormes, cobras que comiam bois inteiros, que era o cozinheiro do batalhão e que os colegas lhe chamavam por brincadeira “General Cagalhão”.
Que foi o homem dizer... A partir daí, por abuso (as crianças tem sempre tendência para abusar) nunca mais se chamou Almassa, que era o seu nome; passamos a chamar-lhe General Cagalhão.
Evidentemente, coitado do General, deixou de nos contar histórias e a malta nunca mais deixou de lhe chamar General Cagalhão; e o pior é que sempre que o apanhávamos na sua casa e sem possibilidades de nos reconhecer, dávamos grandes murros nas chapas de zinco e gritávamos “General cagalhão”. Quando ele abria a porta já não via ninguém.
Até que um dia ele me topou, fez queixa ao meu pai e este pregou-me uma tareia, que hoje se designaria das modernas, mas que naquele tempo era das antigas.
A partir daí, foi remédio santo: o Zé do Cão, nunca mais chamou General Cagalhão ao General Cagalhão, mas quando passava por ele, baixinho e só para mim, dizia assim: “General Cagalhão”. E dizia só para mim lembrando-me da “pisa” que tinha levado. O General morreu poucos anos depois. Era criança não fui ao funeral, portanto fiquei sem saber se a sua farda levaria as insígnias de tão elevada patente.

6 comentários:

Capitão Merda disse...

Devo portanto bater a pala ao General, não é assim?

Zé do Cão disse...

Olha, Capitão. àquele que te contei e que estava na janela, é que eu estive quasi a bater a pala. A seguir seria despromovido em beneficio admito, do seu consorte Tonante Corn..el.
Só tu me fazes rir...
Um abraço e obrigado por tudo

zé (do beco) disse...

Se fosse hoje era das modernas? Se fosse hoje o teu pai estava bem lixado.
Hoje as crianças podem ser desprezadas pela segurança social até serem mortas ou violadas mas se um pai ousa impor a autoridade com um par de estalos nas ventas, aparecem logo os doutores do tribunal de menores.
Vês como deu resultado? Nunca mais chamaste General Cagalhão ao homem, embora tenha sido ele a "apresentar-se" (eheheh).

Zé do Cão disse...

Pois foi exactamente como dizes, Zé.
Se o General não tivesse morrido se calhar era promovido a marechal.
Quem marchou com uns tabefes no focinho, fui eu, mas à frente do meu velhote.

Um abraço e já fui ao teu Blog, meter o nariz.

Laura disse...

zé, a canalha é levada e mals abia ele que iria ser gozado, tanto vos ensinou de história d ePortugal e assim lhe agradeceram!...Mas d eonde está hoje, decerto que já lhe passou!...coitado. jinhos.ah e a tarei foi bem vinda e bem dada, qual à antiga! as tareias eram semrpe modernas...

Zé do Cão disse...

Laurinda
Coitado do General Cagalhão.
A criançada é lixada. Já naquele tempo eu era da 1ªapanha.

Beijocas