
27.11.10
Sanatório e a Serra da Estrela

15.11.10
Hotel Estoril Sol

O porteiro ficou siderado, meteu a mala nas mãos do Vasques e diz-lhe que não está ali para brincar e que o Hotel é um local de respeito.
14.11.10
A CASA DA MARIQUINHAS
30.10.10
SORTE AO JOGO

Sorte nos amores, pouca sorte no jogo. Este é um provérbio que nem sempre bate certo.
17.10.10
Farturas ( em outros tempos)

A minha aldeia naquela época, tinha somente duas ruas e três travessas, a luz eléctrica tinha acabado de chegar, a água canalizada resumia-se a dois ou três poços, tirada com um balde de zinco pendurado numa corda e roldana, e os esgotos... eram os campos, que tinham a sorte de serem fertilizados pelo método biológico.
E como na terra não se constrói, mas tudo se transforma, comia-se hortaliça de primeira, a fruta da época era da região, recordando entre elas, com saudade, a suculenta maça "roscadinha".
Os festejos duravam cinco dias, começando na sexta-feira ao fim do dia e terminando às vinte e quatro horas de terça-feira.
A miudagem rejubilava com todo o movimento que antecedia os festejos, os pais preparavam os trajes que a família ia estrear naquelas datas. Fatinho novo, estreava-se pelo Natal, Páscoa ou em dias dos festejos locais.
Acabo de dar a imagem da minha aldeia, que não era diferente de todas as outras limítrofes, e isto frente à capital do império, separada apenas pelo mar da palha. Não vou deixar passar a oportunidade de fazer referência, que tinha escola primária, onde toda a "maltinha" de bibe branco se apresentava para aprender as primeiras letras, e a professora não necessitava de mandar recados aos pais fazendo queixa dos filhos, porque tinha sobre a sua secretária uma régua castanha com 5 buracos, a quem todos tinham imenso respeito.
Os feirantes escolhiam os lugares mais estratégicos para explorarem os seus negócios, ficando sempre no mesmo sítio a grande barraca das farturas, por debaixo de uma enorme espinhosa que existia na rua principal da aldeia.
O Alexandre... com dez anos, mas já calmeirão, residente numa a quinta das proximidades, «teso que nem em barrote» passou alguns anos de festas sem conseguir provar o gosto de uma fartura
polvilhada de açúcar e canela. Naquele ano tratou de arranjar uma estratégia, onde, mesmo não comendo, pelo menos o nariz apreciava refinadamente o cheiro da fritura daquele doce. Com tempo, tratou de retirar os espinhos de uma pernada da árvore e durante o período em que o pasteleiro orgulhoso e cheio de vaidade as fritava, naquela frigideira enorme e com dois pauzinhos as mexia e as virava, deitava-se em cima da pernada da árvore e passava horas naquela posição, com a água a escorrer da boca. Metia dó, ver aquela cena. Até que um dia a cabeça do Alexandre pensou "Cabecinha pensadou...ra", pensou e resolveu roubar uma fartura para ao menos satisfazer o seu grande desejo.
Enrola no seu braço direito um montão de jornais, atados com um cordel e quando o pasteleiro levanta as farturas com os dois pauzinhos para as escorrer do azeite, vem de corrida, enfia o braço na argola e foge a quatro pés. Evidentemente que o roubado desata a gritar, mas o Alexandre levava asas nos pés. (e ainda não estava inventado o Red Bull). Coitado, não consegui satisfazer os seus intentos, é que a massa partia-se e vai caindo pelo chão, não obstante ele na corrida ir a rodar com o braço, para não se queimar e tentar aproveitar alguma coisa.
Durante o resto dos festejos, o Alex não pode aparecer na aldeia, até ao dia em que a barraca foi levantada e partiu para outra festa em outra localidade.
3.10.10
O Encontro
19.9.10
Empregada Domestica

Nas dez horas seguidas que fiz de automóvel neste período de férias, falei com a minha "Dona"de tudo e ainda mais alguma coisa. É uma táctica que usamos para não nos dar sono e garanto-vos que resulta em pleno. A comida limita-se a dois frascos de yogurte liquido comprado no "Lidle", acompanhados de duas/três bananas e as paragens limitam-se ao abastecimento de carburante, aproveitando a ocasião para um "xixi".
Relembramos tempos passados, rimos sobre cenas de muita graça que nos aconteceram e de repente veio-nos à "mona" esta, passada numa das cidades do Norte onde vivemos vinte anos.
Em dada altura admitimos uma empregada domestica, mulher talvez de trinta/trinta e cinco anos.
Era educada, fazia o seu trabalhito com algumas falhas, mas nada que não pudesse ser
ultrapassado. Os nossos rapazes, de idade muito aproximada e ainda na escola primária (colégio de freiras, gozavam com ela, já que a "pobre" tinha os dentes da frente, como o coelho Perna Longa dos desenhos animados de Walt Disney.
E foram eles os primeiros a alertarem-nos (as crianças são observadores natos) de que a senhora « não batia bem a bola, quando pretendia encestar».
Certo dia, o mais novo, em pleno inverno e dia de chuva, estreou uma camisola de lã
de belíssima qualidade que levou para a escola para se proteger do frio gélido daquele mês de Janeiro de mil novecentos e noventa.
No recreio, depois de umas correrias com outros da sua idade, ficou afogueado, sentiu calores, despediu a camisola, e...quando acabaram as aulas regressou a casa, vindo mais leve, já que, da camisola nem rasto.
A mãe ralhou, foi à escola à procura do abafo e...nada, tinha-se evaporado.
Largos dias depois o rapaz aparece com a camisola encharcada, cheia de lama, pois tinha estado todo esse tempo no chão à chuva no espaço do recreio e ninguém tinha reparado nela.
Como a "Dona" não estava em casa e no sentido de salvar o meu "ninito" de algum
tabefe disparado ao acaso, pedi à Joana que lavasse o farrapo (?). Como sempre,
prestável,pega no esfregão ( assim parecia a camisola)e mete-o na LAVA LOIÇA, lavando-a na minha presença. Afinal salvou-se, estava em estado muito razoável e o rapaz levantou a crista e cantou vitoria.
Dias depois, na lavandaria da casa, vou dar com o tanque de lavar a roupa, cheio de loiça, de molho como o bacalhau, para ser lavada.
Parti-me a rir e mostrei aos gozões. Fizeram uma festa...e ainda hoje, quando se lembram, riem daquela troca.
Mas...um dia a casa de banho de serviço à cozinha, cheirava mal, cheiro a demonstrar que alguém a tinha usado momentos antes. Tudo estava aparentemente bem,mas as horas passavam e o cheiro não saia. Ia a "Dona", disparava o autoclismo, parecia que finalmente o cheiro estava dissipado, entrava eu e ele lá estava a incomodar. Mais uma cisterna de água. Iam os rapazes e a cegada repetia-se. Dois dias depois, já em desespero, encho dois baldes enormes, disparo o autoclismo e simultâneo vazei-os de seguida. Se houvesse algo que estivesse a obstruir a sanita, seria removido de certeza. Rejubilei de satisfação, o problema tinha desaparecido. Nada disso, o cheiro poucos minutos depois volta a aparecer.Quando já estava e entrar em desespero e preparado para fazer uma chamada ao programa radiofónico " A Parada da Paródia" afim de requisitar os detectives "Patilhas e Ventoinha" para tentar descobrir o mistério da casa de banho fedorenta, a "Dona" descobriu-o.
A empregada, tinha-se servido da casa de banho. Como a encomenda despachada não foi cano abaixo com a primeira investida da água, pegou no piaçaba e deu tamanha "foirada" na cabeça do "animal", impregnou os "cepilhos" e depois impávida e serena depositou no recipiente o referido apetrecho.
A peça foi deitada fora e a normalidade voltou aquele lar...até ao dia em que a substituta da Joana, nos fez carne assada, usando vinagre em vez de vinho branco.
6.9.10
A GRAVATA

Era lindo a apêndice pendurado no pescoço do A. Jorge. Um vermelho extremamente suave e com desenhos de encantar. Que chique e que bem vestido se encontrava o A. Jorge.
Mas afinal quem é o A. Jorge, perguntarão os meus amigos. A. Jorge era meu sócio, natural de Vila Franca de Xira, gostava de toiros e touradas, e orgulhoso achava que Vila Franca era a Sevilha portuguesa. Trabalhávamos no mesmo gabinete e cada um de nós dirigia um sector diferente para não haver atropelos.
Entre os naturais de Santarém e Vila Franca existe rivalidade. Às escondidas uma comissão de que fazia parte o A. Jorge resolveu erigir um monumento ao Campino, contrataram escultor e mais tarde com o intuito de prestar a homenagem merecida aos homens do Ribatejo resolveram convidar o Senhor Presidente de Republica, General Ramalho Eanes.
Sua Excelência marca audiência para as 15 horas daquele dia e era a razão do homem vestir fato e gravata nova, visto ter sido o indigitado para proceder àquele acto.
O A. Jorge tinha uma barriguinha a puxar para o grandinho, coisa que ninguém ligava, dado saberem que era um "bom garfo". Almoçávamos os dois todos os dias e o nosso restaurante situava-se em Alcântara mesmo junto à entrada da Ponte sobre o Tejo.
Ambos adorávamos Garoupa com batatas e hortaliça, regada com bom azeite, e a sua preferência era pela cabeça. Naquele o dia, foi um festim. O homem não resistiu, comeu bem, bebeu melhor e...desgraça, na gravata caíram-lhe dois pingos enormes de azeite. Que azar!.. e agora o que faço, desabafa o A. Jorge preocupado. Tranquilizei-o. Não te preocupes, tenho lá no escritório um produto milagroso, que te limpará a gravata num instante...
O repasto continuou e as glândulas gustativas colaboraram na nossa felicidade.
Quando chegamos ao escritório, fui buscar a bisnaga com o tal produto para limpar as nódoas (pelo menos era o que lá dizia). Besuntei bem a gravata seguindo as instruções e em seguida mandei-o lavar com água corrente. Que feliz estava o A. Jorge. Essa felicidade foi de pouco duração, a gravata estava irremediavelmente perdida para todo o sempre. A tinta tinha desaparecido como por encanto e o pano nem era de boa qualidade para dar lustro aos sapatos. E o que não tinha passado de uns ditos brejeiros, passaram a ser uns palavrões em desespero pela falta de apresentação à audiência com o General.
Perdido de riso, alvitrei que estávamos em época de luta pela democracia e portanto que fosse de "gargalo aberto" e fizesse o papel de um democrata oportunista.
Lá fez o seu papel, cumpriu a sua missão, O Senhor Presidente inaugurou o monumento, mas ele nunca mais se esqueceu da bisnaga milagrosa que eu tinha para tirar nódoas.
30.8.10
DIAS DE ANOS

Faz hoje precisamente três anos, QUE O ZÉ DO CÃO iniciou o seu blogue.
Não quero deixar passar esta data, sem agradecer publicamente ao autor do Blogue "CAPITÃO MERDA", toda a sua boa vontade e disponibilidade que sempre dispensou nas ajudas que me deu, já que, o ZÉ, pouco ou nada sabe de computador.
Sem a sua ajuda, este blogue não se aguentaria mais do dois ou três dias.
Aos meus visitantes o meu obrigado com beijinhos a abraços por me terem aturado todo este tempo.
Zé do Cão
15.8.10
A Porca para Supermercado
Então meus amigos, não querem lá ver que o Zé entre muitos empregos que teve na sua vida, também foi Accionista e Gerente de um super mercado no Concelho do Barreiro. Já lá vão uns anos, mas deu para ficar registado na minha memória esta engraçada peripécia.O Super dispunha de um "furgon", da marca Citroen, igual aos da polícia francesa. Tinha duas portas de correr, uma para serviço do motorista e a outra ao meio, penso que do mesmo lado, para a recolha das mercadorias.
Para a época o Super era bem bom e de tamanho muito igual aos do inter-marché, dispondo também de talho.
O Zé tinha um primo a viver numa grande quinta,sita em Amora, onde criava gado, que me propôs o negócio de uma porca. Fiz a compra e só depois fui confrontado com o transporte do animal para o matadouro, que não se podia fazer, sem guias próprias, emitidas por determinada entidade oficial (não recordo qual). O pedido de deslocação do animal de um Concelho para outro podia ser rejeitado e então corria o risco de ficar a criar a porca sem qualquer interesse.
Havia portanto que dar asas à imaginação e resolvemos fazer aquele transporte para o Barreiro a um Domingo ao «lusco fusco» à revelia das autoridades na tal carrinha atrás mencionada.
Acontece, que um empregado de uma outra empresa também accionista do Super, veio pedir-me a carrinha emprestada para no dia anterior ao transporte da porca, ir com a namorada buscar uma mobília para o lar que iam constituir. Anuí, não lhe tendo dito nada pela utilização do Domingo, pedi-lhe no entanto que no Sábado pela noite a deixasse nas instalações da empresa onde trabalhava, dado na segunta-feira necessitar de uma pequena reparação nessa empresa, que também tinha oficina de mecânica.
Assim foi e correu tudo como combinado. No Domingo, fui buscar a carrinha e dirigi-me a Amora ter com o priminho e tentamos meter a porca na furgoneta. O animal era enorme e força não lhe faltava, tendo o seu dono atado uma corda a uma das patas de trás e a outra ponta enrolada no seu braço. Foi a carga dos trabalhos; o animal não queria entrar e nós dois não tinhamos força para pega-la ao colo e enfia-la lá dentro. Em dada altura o bicho desata a fugir pela quinta, o primo com a corda enrolada no braço não se aguenta caiu e então eu via-o puxado pela porca a bater contra as cêpas, chegando mesmo a pensar que saía dali todo amachucado. Lá se levantou e não sei com quantos trabalhos mais, conseguimos meter a «gaja» e fechar a porta imediatamente.
Salto para o volante da viatura, e fiquei preocupado, pois o suíno não estava quieto, andando de um lado para o outro e como as suas unhas são pequenas o barulho que fazia no chão de chapa de ferro era igual aos sapatos de salto alto das senhoras. Em dado altura caía, levantava-se e caía novamente. Como o «charoco» está permanentemente a defecar, quando caía ficada com o corpo todo sujo e ao encostar-se às paredes laterais da carrinha, dava-lhe um toque de pintura que ninguém deseja dentro de uma sua viatura, além do cheiro horrível que lá ficava.
Missão cumprida, entregamos o animal no matadouro e já noite, fui colocar a carrinha no mesmo sítio de onde a tinha recolhido.
Pelas 8,3o horas de segunda-feira, e já com o astro rei a bater na viatura, o mecânico preparou-se para a arranjar. Estranhou os vidros estarem cheios de moscas, que já a tinham atacado. Abriu a porta, entrou lá dentro, mas saiu imediatamente pois era impossível sem que primeiro fosse feita uma desinfestação. Quando o Zé apareceu mais tarde, recebi logo a notícia de que tinha emprestado a carrinha ao "Pedrocas" e que afinal a entregou naquele estado. Aproveitando imediatamente a ocasião chamei-o junto ao mecânico e perguntei-lhe assim, muito sério.
Afinal Pedro, o que é que se passou. O que é que você andou a fazer na carrinha mais a namorada que a deixaram neste estado.
O Homem entra lá dentro, ao ver aquela insólita pintura, gaguejou não sabia o que dizer.
Recebeu a sentença. - Pegue numa mangueira e lave tudo isto muito bem, antes que a coisa tome outras proporções. De muita má vontade lavou o carro, barafustou, azedou-se com o mecânico e no final acabei com a conversa desta forma. Vá a uma drogaria e compra um ou dois litros de água de colónia, vaze aí dentro, se quer levar a carrinha mais alguma vez com a namorada.
Só vários dias depois soube a trama.teia em que esteve metido.
2.8.10
Riqueza Nacional

Nestes tempos difíceis que Portugal atravessa, com uma crise instalada como nunca ninguém se lembra, de quando em quando, tenho dado comentários sobre a problemática da cortiça em Portugal.
Não posso nem devo guardar por mais tempo a magoa que sinto por assistir aos fecho de fábricas que trabalham este produto, sem verificar uma decisão governamental, que contrarie este desaforo.
Portugal é o maior criador de cortiça do Mundo. Portugal era o país onde existiam mais fábricas para a sua transformação e temos assistido ao fecho sistemático das grandes industrias.
Em tempo, a grande empresa, a maior em todo o mundo da Cortiça, era a Mundet. Em Portugal, tinha fábricas em Amora , Mora, Seixal, Montijo e Ponte de Sor. As suas agencias espalhavam-se pelos quatro cantos do mundo.
Com o acabar daquela já há alguns anos, apareceram os “Amorins” que sucedendo-a receberam a coroa de gloria e tornaram-se reis, naquela industria.
Esta empresa, cresceu, fez-se grande, e uma serie de pequenos fabricantes morreram estrangulados, por encerrando. Aqui há uns anitos a Corticeira Amorim comprou a C.G. Wicander, fabrica a trabalhar em pleno (com duas ou três centenas de trabalhadores), e imediatamente a seguir desmantelou-a, despediu todo o pessoal, deixando no Seixal, grande numero de famílias em dificuldades. Ainda hoje lá está a chaminé, na minha óptica a simbolizar aquela desgraça. (É um dos monumentos da cidade.)
A Ásia sempre foi um grande consumidor de produtos corticeiros, e mais propriamente os Chineses sempre tiveram grande apetência por copiar estes produtos. Mas a China não tem Cortiça, tem somente mão de obra barata. De a alguns anos a esta parte, algumas fabricas trabalhavam em exclusividade para o oriente, ajudando Portugal a contrabalançar a balança comercial.
Até que, a China, pede licenciamento a Portugal para poder importar a cortiça em bruto a partir do montado, para serem eles a fazer os produtos que lhes fazem falta e ao mesmo tempo inundar o comercio mundial de tudo quanto se pode fazer da cortiça, ao preço da uva “mijona”.
Os fabricantes portugueses, passaram a comprar a cortiça mais cara e de pior qualidade, os produtos aumentaram e o Oriente deixou de nos comprar, a cortiça manufacturada. O Desemprego tem aumentado por falta de encomendas e os Amorins, trabalham na China a tuta e meia , já que, para aproveitarem a mão de obra barata trataram de fazer lá uma fábrica, prevendo-se, mais tempo, menos tempo, ao fecho das suas fabricas de Santa Maria da Feira.
Os industriais alertaram-se, entram em contacto com o governo para conversarem sobre o assunto e não obtém resposta, entram em contacto com todos os partidos políticos com assento parlamentar e recebem resposta igual à que deu o governo.
E isto meus caros, não são fábricas de têxteis com capitais estrangeiros que batem à sola para procurar mão de obra barata. São portugueses que fecham, que deixam centenas e centenas de trabalhadores na miséria e passam-se para os “olhos em bico”, para continuarem a enriquecer.
As exportações não aumentaram por este facto, pois sendo nós os produtores e fornecedores da cortiça já trabalhada tinhamos as encomendas asseguradas.
Todavia, os senhores comendadores continuam a receber condecorações pelos serviços prestados à nação, enquanto a escumalha, olha meios parvos meios tontos pela fome que passam e sem forças nas mãos para baterem umas palmas mesmo fingidas.
19.7.10
A ingratidão
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Os portugueses fizeram uma figura assim-assim, a condizer com as suas possibilidades, exceptuando nos gastos, pois sendo um país onde impera a miséria, recebiam só de presença diária a módica quantia de 800 €, com mais uma data de mordomias.
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Parte II
O Ministério da Saúde entendeu que deveria encerrar o Centro de Saúde de Valença durante o período nocturno, a que chamam de urgências, por aquele não possuir as “Valencias” necessárias ao seu bom funcionamento.
Os Valencianos fizeram greve, protestaram com bandeiras negras durante muitos dias e o caso foi noticiado em todos os telejornais das televisões do nosso burgo.
E na sua luta por aquilo que achavam justíssimo, atravessaram a ponte fronteiriça e pediram ajuda aos espanhóis, que de braços abertos colocaram à sua disposição o Centro de Saúde de Tui.
A partir daí, foi como se a guerra na Península tivesse acabado. Esqueceu-se D. Urraca, Aljubarrota, o Mestre de Aviz e as bandeiras de “nuestros hermanos” foram hasteadas em todas as janelas e a PAZ voltou àquela cidade do alto Minho.
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Parte III
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Entrtanto, calhou-nos em sorteio jogar para os oitavos de final do referido Campeonato do Mundo com a nossa vizinha Espanha. As botas foram engraxadas, os treinadores atiraram-se em “bocas” que a nada levaram, os jogadores arregaçaram as mangas, arreganharam os dentes, prepararam as canetas e durante o embate sofremos um golo, não metemos nenhum, tivemos um jogador expulso e mais todo aquele borbulhar de um vulcão em ebulição desportiva.
Os portugueses regressaram a casa com a beiça caída e os espanhóis rejubilaram euforicamente com a vitória da sua equipa.
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Parte IV
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E… numa demonstração de amizade e irmandade, deslocaram-se a Valença para comemorar em conjunto com os seus irmãos portugueses a jornada desportiva, acabada de se realizar, fazendo “jus” ao ditado que diz que o desporto é uma “Escola de Virtudes”, tendo sido recebidos… à pedrada.
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Parte V
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Em resultado deste encontro, ficaram umas tantas cabeças partidas (de parte a parte), uns pára-brisas de viaturas estilhaçados e uns tantos carros a necessitar de chapeiro (como se diz naquela região). Escusado será dizer que da parte portuguesa não houve a solidariedade, os braços abertos com os seus irmãos da outra parte do rio Minho, que se deslocaram somente para acamaradar e lhes levantarem o ânimo naquelas horas de infortuno e desilusão.
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Epílogo
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E o mais curioso é que os “cabeças rachadas” se encontraram no mesmo Centro de Saúde em Tui para se tratarem, tendo mesmo havido alguns comentários mais azedos, no sentido de enfiarem novamente o elmo na cabeça, vestirem o colete de malha, pegarem novamente em espadas e deixarem de ser irmãos ou “hermanos”, em virtude da péssima recepção com que foram brindados em Portugal.
5.7.10
Maiorca / Açores
Os meus meninos sempre estiveram acompanhados em todas as fases da sua vida, mas tiveram sempre a liberdade de escolher o que queriam, com peso conta e medida, não se comportando mal em nenhuma ocasião.
Quando chegou a hora de já não querem acompanhar os pais, foi recebido por nós como uma coisa normal, mas que nos causou algum aborrecimento e tristeza.
Os quatro, filhos e Dona, já tínhamos ido a Maiorca um montão de vezes e em Abril de mil novecentos e oitenta e oito resolvemos voltar. Perguntámos se queriam ir connosco e foi-nos dito que não. O mais velho estava em Lisboa a frequentar a Universidade e o mais novo, com os seus 16 anos irrequietos, estava no último ano da Secundária. Este, de falinhas mansas, diz à mãe que com um grupo da escola de karaté que frequentava, estavam a pensar ir aos Açores em determinada data. A mãe fala comigo e decidimos autorizar e pagar, como é evidente, a deslocação. A partir daí, tratou de tudo para ir e nós sozinhos. Tratámos de marcar hotel para a nossa viagem a Maiorca. Escolhemos um quatro estrelas em Camp de Mar, perto de Andratx, e sairíamos de casa um dia antes do nosso menino arrancar para os Açores, regressando nós um dia depois da sua vinda. Tivemos por isso de pedir a um casal amigo que o levasse ao aeroporto Sá Carneiro para o levar, e ao mesmo local para o trazer.
No dia em que partimos, perguntei para que ilha ia o grupo, dizendo-me o filho que não sabia bem. Comentei com a mãe que eram coisas da juventude e como ele estava habituado a dar notícias, que amanhã saberíamos.
Beijinhos, despedida com ternura, recomendações para todos os dias estarmos em contacto, carregámos com extras os “télélés” e fomos rumo a Maiorca. Viagem de automóvel até Barcelona e “jet” às 16 horas com destino final. Primeiro inconveniente: o hotel, voltado exclusivamente para clientes alemães, só servia comida a satisfazer a gula daquela comunidade. Foram dez dias de dificuldades na alimentação e até o primeiro almoço não nos satisfazia.
Não dispensávamos a praia pela manhã e, ao terceiro dia, quando mais afoito com óculos e barbatanas dava uns mergulhos, reparei que na areia do fundo do mar havia uns rastos de qualquer coisa (eram as marcas de pequenos búzios quando se deslocavam).
Comprei numa loja de vende tudo, um chalavar para os apanhar, e qual não é o meu espanto quando vejo um linguadito a fugir. Apanhei-o e depois outro. Sem alarido, todos os dias a partir daquela altura o nosso almoço passou a ser linguado grelhado, numa barraca da praia que servia refeições. Pagava pelo serviço, tal como se os linguados fossem fornecidos pelo “tasqueiro” mas era eu que os apanhava.
A Dona, de manhã três vezes, à tarde quatro e à noite nem sei quantas, tentava desesperada entrar em contacto com o nosso filho, então nos Açores. Nada, nada. Nada a qualquer hora. A comida deixou de nos satisfazer, a dormida não era a conveniente e a intranquilidade era mais do que muita. Os amigos que os levaram ao aeroporto, também nada sabiam dele. Na escola do karaté, disseram-nos que tudo tinha sido organizado por eles e também nada sabiam.
Portanto, já podem fazer uma ideia da preocupação que nos atormentava. Até que chegou o dia em que o filhote devia regressar. Telefonamos para os amigos, para nos fazerem o favor de nos informarem assim que ele estivesse com os pés bem assentes no aeroporto. Que sim, que estivéssemos descansados. Deixámos passar uma hora sobre a chegada e telefonamos a saber e não sabiam nada, já que quem o tinha ido buscar foi o filho desse casal. Estranhámos, aliás estranhávamos tudo e estávamos arrasados.
Deixámos passar mais duas horas e continuávamos sem saber nada e sem telefonema, até que mais tarde, por nosso contacto, o casal informa-nos que o seu filho tinha tido um furo numa roda e estava na auto-estrada e nada sabia do rapaz.
Pedimos o favor quase a chorar de nos dizerem a verdade, pois tudo que estava a passar era mais do que estranho e nunca algo se tinha passado connosco assim. Que não, que não havia nenhum azar, que estivéssemos descansados que quando ele aparecesse nos telefonariam. Mais uma hora, novo telefonema nosso e aí sim, a notícia tirou-nos da incerteza, o “nino” tinha acabado de chegar. Só acreditamos quando ouvimos a sua voz.
Mamã, papá, estou vivo e inteiro, estivemos na ilha de S. Miguel, mas no sítio onde estávamos não havia rede para os télélés e o avião veio com duas horas de atraso. A Dona agarrou-se a mim, despejando o seu stress a chorar e as nossas lágrimas molharam as nossas faces.
Tudo está bem, quando acaba bem. No regresso, não vim a 120 km hora, voei estrada fora na ganância de o agarrar e beijar, tudo estava esquecido, tudo estava perdoado.
23.6.10
Salve-se quem puder
24.5.10
ALGUÉM FALOU EM CRISE?
Assim, não há país que resista nem impostos que cheguem!
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Despacho n.º 8352/2010. D.R. n.º 96, Série II de 2010-05-18.
10.5.10
O Prestige
Seria mauzinho se não vos dissesse que o Besada (sem a cátedra de cozinha) é cozinheiro exímio.

Deliciosas estas cariocas, acompanhadas com salada e “Albarinho”.
Numa visita a S. Vicente do Mar - de O Grove, tirei uma fotografia a um monumento de granito da região, cuja fotografia ilustra este conto, em homenagem aos inúmeros voluntários que acorrem à Galiza para dar uma ajuda na recolha do crude que o Prestige derramou nos seus mares. Que enorme reconhecimento, que gratidão demonstrou o povo galego por quem os ajudou em troca do nada.
Em conversa como o meu grande amigo “Besada”, meu companheiro de “Comer no Mantel” (meu conto de 28/01/08), fiquei a saber a historia completa daquela desgraça e o levantamento de uma Comissão de Emergência formada espontaneamente em virtude de ser urgente a salvação das rias, e os governos da Galiza e de Madrid só tardiamente acordarem para a realidade.
Que bela lição podemos todos retirar da entrega desinteressada, mas em defesa dos seus bens e do património mundial que ali estava em jogo.
As influências do meu amigo perante a “Seur”, empresa de transportes que disponibilizou camiões para o transporte das inúmeras ofertas que lhes fizeram, para poderem alimentarem toda aquela gente que de noite e dia trabalharam incessantemente para minimizar os estragos que o crude provocasse na riqueza dos seus bens.
As ofertas foram de tal ordem, vindas de toda a Espanha, o movimento tomou tamanhas proporções, que dois pavilhões desportivos em Vila Garcia de Arosa, não foram suficientes para as albergar.
Somente tarde e a más horas, quase um mês depois de iniciar toda aquela luta, o governo apareceu para tomar contas das operações.
Noites sem dormir, reuniões que duravam até às 5 da manhã, passar noites sem ir à casa tomar banho e deitar-se no aconchego do seu lar, são coisas que não esquecem, e foi com abnegação que entregaram aos representantes do governo toda aquela organização impecável que os governantes se furtaram a seu tempo, sem um queixume, sem demonstração de azedume, por se terem sentido traídos e abandonados em tamanho sacrifício em prol do seu País.
Era possível fazer isto em Portugal?
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26.4.10
PÉ DE BICO
Do Norte, a ligação ao Algarve estava assegurada por três estradas, uma direitinha a Castro Marim, outra passando por S. Brás de Alportel e a última terminando em Lagos.
Todas elas estão ainda em estado razoável, mas acompanhadas pela Auto-estrada e a que, passando por Ourique, termina na via do Infante, ou Albufeira.
O Zé circulava nas primeiras muitíssimas vezes e durante o inverno. Certa vez, quando a noite já tinha chegado, e ela aparecia por volta das dezoito horas, vindo de Vila Real de Santo António, passava por Ferreira do Alentejo e eram horas de jantar. As minhas companhias eram, nessa altura, adeptas de um clube de futebol que tinha jogado nesse Domingo à tarde no campo do Vila Real.
Perguntámos onde se poderia mastigar e indicaram-nos o restaurante–tasca “Pé de Bico”.
Não me perguntem porque tinha aquele nome, pois ainda hoje não sei, tal como não sei se ainda existe.
Entrámos, sentámo-nos e um rapazito, fazendo o papel de empregado de mesa, aproximou-se para sabermos o que queríamos.
A lista com a indicação do menu não era coisa daqueles tempos, portanto o mocito anunciou que o prato da casa era canja de galinha, carapaus fritos e galinha corada.
Estão já a imaginar, quatro galfarros, cheios de “galga” para encher o estômago, mas finos no paladar.
Fomos unânimes em mandar vir a canja e a galinha e que os carapaus fritos fossem feitos de escabeche para o dia em que lá não passássemos.
O rapaz foi à cozinha e volta com a cara um pouco constrangida, esclarecendo que a comida era canja de galinha, carapaus fritos e galinha corada. Retorquimos que tínhamos percebido perfeitamente e que não queríamos os carapaus.
Lá volta o rapaz à cozinha e então sai de lá um alentejano, que pelos vistos seria o dono do “Pé de Bico”, com a sua voz de sotaque bem acentuado, dirigiu-se à nossa mesa e anunciou mais ou menos nestes termos:
- Meus amigos, a comidinha é canja de galinha, carapaus fritos e galinha corada.
- Meu caro senhor, já tínhamos percebido à primeira vez. Abdicamos dos carapaus, traga o restante e meta na conta também os carapaus, mesmo sem os termos comido.
O homem respira fundo e diz que a galinha é pouca e daí a necessidade dos carapaus, para fazer “papo”.
Pois bem, dissemos nós, traga tudo menos os carapaus e depois logo se vê.
Pois fiquem já a saber: ou comem os carapaus ou então não comem nada, disse já com a voz a indicar aproximação de trovoada.
Levantámo-nos, viemos embora e, ao passar pela ombreira da porta, dissemos bem alto:
- Guloso, querias era encher a nossa barriga de carapaus e a galinha comia-la tu.
- Pois venham cá, que tenho aqui uma moca e já ficam a saber quem comia a galinha, porque vocês ficam é com alguns galos a cantar na cabeça…
Safamo-nos de boa. Só em casa matámos a fome…
13.4.10
ELECTRICIDADE
Passou a ser um bem necessário à nossa vida e é impossível abdicar da sua utilização. Ela está em toda a parte a realizar receitas para o “lobby” EDP e para manter a ERSE, que serve unicamente para legalizar a gula sempre desmedida dos “Mexias” que por lá têm passado, na qualidade de administradores.
Os lucros daquela empresa sobem anualmente para milhões e, com a conivência do Governo, também anualmente os senhores administradores daquela empresa recebem, além dos vencimentos que já são um escândalo nacional (comparativamente com a miséria deste pobre povo pagante), mais uns simples trocos que 80% da população portuguesa nunca ganhará em toda a sua vida de trabalho.
Sabemos que a energia eléctrica é paga somente pelos portugueses, quer seja ao nível doméstico, comercial ou industrial. Portanto, os objectivos da empresa são sempre os mesmos ao longo dos anos.
Há pois necessidade, tal como fazem as câmaras, de irem descobrindo a pouco e pouco onde podem facturar ao Zé Povinho mais qualquer coisa para engordar as contas dos senhores administradores. Porque de outra forma os objectivos podem não ser alcançados.
Pobre e demente Zé, que nunca aprendes, nem à tua custa! Reclamávamos do preço do aluguer do contador que vinha na factura mensal e os senhores “Mexias” fizeram-nos a vontade. Acabaram com ele e em sua substituição criaram a potência contratada e mais a taxa de exploração, que ultrapassa em muito o valor daquele.
Depois veio o caso único do “consumo estimado”, que é o pagamento antecipado do que presumivelmente gastaremos, tudo devidamente aprovado pelos ERSE.
Em 4 de Setembro de 2006, recebemos todos através e em conjunto com outros elementos da EDP, uma carta informando-nos que todos os consumidores em Portugal continental podiam escolher o seu fornecedor de energia eléctrica. Rejubilei com a notícia. Afinal, até hoje continuo a ser cliente da empresa que me vai roubando, dado não descortinar outra empresa concorrente.
Depois, em 16/6/2008, a ERSE, por proposta da Edp preparava-se para autorizar que os valores das dívidas incobráveis passassem a ser pagas por todos os clientes.
Mas a Edp tem dívidas incobráveis?! Então cobram antecipadamente por estimativas a luz, se faltamos ao pagamento cortam-na imediatamente e seríamos nós, Zé Povinho, a pagar as dívidas dos outros?
E a seguir, dado que pretendem colocar em nossa casa novos contadores que evitarão a deslocação de empregados para fazer a contagem (nesta altura já é só 2 vezes por ano), fizeram a proposta para ser os clientes a pagar a instalação e o preço do novo aparelho.
Senhor “Mexia” vá para o diabo que o carregue, tenha vergonha na cara e não repita que o prémio(?) que lhe é atribuído é merecido e que recorrerá para os tribunais se não lho derem.
Sei que considera o povo português uma quantidade de burros invejosos, que só têm inveja do dinheiro que você recebe. Pois, meu caro trabalhador(?), o povo português não tem inveja, tem é revolta pelo dinheiro que lhe furtam todos meses na factura para encher a vossa pança, enquanto nós, aqueles a quem considera burros, a quem esse dinheiro tanta falta faz, vivemos na miséria, angustiados para pôr na mesa o pão dos nossos filhos, enquanto vocês, senhores “Mexias”, à nossa custa arrotam pelo dinheiro que nos sacam!!!
Entre os objectivos de que se ufana, temos o despedimento de centenas e centenas de trabalhadores em idade útil de poder dar contributo à nação, fazendo aumentar a longa lista de reformados à força, com a consequente sangria do dinheiro da segurança social, sendo os serviços que aqueles prestavam entregues a empresas particulares cujos administradores, na maior parte dos casos, são os mesmos que por aí já passaram.
Irra, que é demais! A canga está a pesar-me. Cuidado, senhores “Mexias”. Não passem por detrás de mim, que podem apanhar dois coices.
29.3.10
A JUSTIÇA
Todavia, para juntar a tantas outras historias que já tive na vida, aconteceu-me esta, que durante muito tempo fui desviando do pensamento para não a contar. Faço-o hoje, não pela graça que o caso possa ter, mas com intuito de dar mais uma achega ao problema das injustiças que se fazem em Portugal.
A “Dona” trabalhava no Hospital de Santa Cruz na parte da manhã e de tarde na Siderurgia Nacional, em Aldeia de Paio Pires, empresa que já se finou e onde mais de seis mil trabalhadores ganhavam o pão de cada dia. É com orgulho que digo que era a única trabalhadora da sua especialidade (lugar que estava destinado a uma familiar da Administração) merecidamente ganho por ela em concurso.
Alguns dias da semana eu ficava com o mais velhinho (dois anos) e ela levava o pequenito na alcofinha, ficando algumas noites em casa dos seus pais.
Aconteceu que o primeiro, ou por minha falta de jeito ou por não saber tratar convenientemente, teve uma diarreia que me atrapalhou emocionalmente, tendo necessidade de às duas horas da manhã levá-lo aos cuidados da mamã, que estava em casa dos seus pais na outra margem do Tejo.
Depois foi uma corrida à povoação de Arrentela, comprar medicamentos na única farmácia em serviço naquela área.
O farmacêutico demorou tanto tempo a atender-me que me desesperou, tirando na minha presença os preços das caixas e voltando a colocá-los, quando lhe chamei a atenção para o facto de não beneficiar de qualquer desconto, já que a receita não era da Segurança Social. Fez a conta na receita e, quando cheguei a casa, comentei que os medicamentos eram caros. A “Dona” pega nas caixas e diz-me que os preços tinham sido alterados. Efectivamente os preços não eram aqueles, confrontei-os noutra farmácia em Lisboa, tendo ido apresentar queixa no departamento das actividades económicas, sito na Avenida Duque D’Ávila.
Foi aberto processo e, decorridos 3 meses, fui inquirido para saberem como tinha decorrido o caso; assinei e fiquei à espera. Decorridos outra vez mais 3 ou 4 meses, sou chamando novamente, inquirindo-me de novo para confirmarem se mantinha as minhas declarações. Aí, não gostei, tendo perguntado se tinham ouvido o farmacêutico. Responderam-me que sim e que ele confirmou que tinha feito de propósito. Nessa altura não resisti e perguntei para que me chamavam se já estava tudo mais do que esclarecido.
Fiquei novamente sentado à espera da resolução, mas chegou a hora da mudança para o Norte. Por esse facto, escrevi uma carta aos serviços atrás descritos, indicado o respectivo número de processo e a minha nova morada.
Recebi nessa altura a visita de 6 (seis) agentes da delegação da área local, para inquirirem o porquê daquela minha comunicação. Estava a ficar farto de tanta (in)competência.
Quatro ou cinco anos depois, entrei em contacto com os serviços das Actividades Económicas para saber como estaria o assunto e tenho conhecimento de que com a entrada de sua Excelência, O Sr. Dr. Mário Soares, para Presidente da Republica, o processo tinha sido amnistiado.
Perguntei, em desabafo, se custava muito darem a informação ao reclamante da resolução do processo e o seu consequentemente arquivamento.
Esclareceram-me pelo telefone que se pretendesse receber o que legitimamente me pertencia, teria de o fazer através do tribunal.
Se acredito em Justiça? Não, caros amigos, não acredito.
15.3.10
Made in Portugal
Depois de um banho com sabonete (made in France), e enquanto o café (importado da Colômbia) misturado com leite (vindo das Astúrias) aquecia numa máquina (made in Chech Republic), barbeou-se com a máquina eléctrica (made in China).
Vestiu uma camisa (made in Sri Lanka), jeans de marca (made in Singapure) e um relógio de bolso (made in Swiss).
Depois preparou as torradas de trigo (produced in USA) na sua torradeira (made in Germany), e enquanto tomava o café numa chávena (made in Spain), pegou na máquina de calcular (made in Koreia) para ver quanto é que poderia gastar nesse dia. Consultou a internet no seu computador (made in Thailand) para ver as previsões meteorológicas.
Depois de ouvir as notícias pela rádio (made in India), bebeu ainda um sumo de laranja (produced in Israel), entrou no carro Volvo (made in Sweden) e continuou à procura de emprego.
Ao fim de mais um dia frustrante, com muitos contactos feitos através do seu telemóvel (made in Finland), e após comer uma pizza (made in Italy), o Zé decidiu relaxar por uns instantes.
Calçou suas sandálias (made in Brazil), sentou-se num sofá (made in Denmark) serviu-se de um copo de vinho (produce in Chile), ligou a TV ( made in Indonesia) e pôs-se a pensar porque é que não conseguia encontrar um emprego em Portugal.
Chamo a esclarecida atenção dos meus visitantes, para informar que o barro e a arte de fazer a família, que ilustra este texto, é Made in Caldas da Rainha.
1.3.10
O velório
Poucos anos mais tarde, o pai do moço acidentado, que esteve entre a vida e a morte por inalação de gás queimado, sofreu um rude golpe com o falecimento de seu progenitor.
A empresa parou a actividade durante dois dias, a consternação foi geral e as honras fúnebres nos tempos mais próximos mereceram comentários pela sua opulência, tendo até o carro de transporte sido puxado por um “gato-pingado” e outro atrás a empurrar, vestidos à “maneira como mandava a sapatilha” da época.
As casas mortuárias, pelos menos nas aldeias, ainda não estavam na moda e portanto o velório foi feito em casa do defunto. O operariado, os encarregados e os amigos dos amigos dos patrões acorreram em massa e encheram a bandeja com cartões de condolências que a agência funerária colocou à disposição sobre uma pequena mesa para o efeito. E nem o “Bolota” faltou à chamada, não obstante estar sentido pelo desemprego que lhe bateu à porta, por ser altruísta e amigo de servir bem. É que, com a mudança da vereação, a Câmara Municipal convidou-o a recuperar o emprego, pois não são todos os dias que se arranja tão exemplar serviçal.
O caixote de madeira de mogno, com pegas e o Cristo pregado na cruz reluziam. Os paramentos pendurados nas paredes e duas velas em castiçais de prata junto aos pés do defunto, aliado ao profissionalismo da carpideira que quando alguém se aproximava da viuva e lhe dava os sentidos pêsames, chorava um pouco mais alto e referenciava a pouca sorte que tinha batida àquela porta, prestavam ao acto a solenidade conveniente. Em toda a volta daquele quarto, encostadas às paredes, havia cadeiras todas ocupadas por mulheres vestidas de preto e com lenços da mesma cor na cabeça.
Houve no entanto uma coisa que me despertou a atenção, por estranha, e cheguei mesmo a comentar com o “Maneças”. É que a viúva encontrava-se junto à cabeceira do defunto, com uma saia preta rodada, sentada numa cadeira de madeira, mas mais baixa do que as outras.
Enfim, disse eu. Talvez se encontre melhor instalada daquele modo. As horas foram passando e entraram pela noite dentro.
Os presentes começaram a debandar e o filho prontificou-se a ficar ali a noite a acompanhar a mãe, dado não fazer menção de sair da mesma posição. Esta descansou-o, dizendo que toda a gente se ia embora e ela ficava sozinha, não tinha medo porque o defunto não lhe fazia qualquer mal, pois tinha sido sempre um bom marido e não seria agora depois de morto…
Que não, ou ela se ia deitar e descansar ou ele ficava mesmo, a fazer-lhe companhia.
- Olha, filho. Estou muito bem, vai para a tua casa descansadinho da vida, porque eu cá me arranjarei. Nem fazes ideia de como estou bem, nem sabes onde estou sentada e o que faço. Estou aqui muito bem sentadinha na cadeirinha do penico…
O Maneças saiu porta fora e nem soube como foi possível aguentar a risada.
O Zé conseguiu-o e guardou todos estes anos o segredo, pois tinha a certeza de que nem o morto batia com a língua nos dentes.
17.2.10
Vão rareando estes amigos
No meu cérebro, as campainhas tocaram todas a trazer-me à memória o meu grande amigo Cabral, que já não via há mais de cinquenta e sabia residir por ali. Desfolhei e encontrei o seu nome, liguei e uma vozinha meiga cheia de juventude pergunta quem fala e o que queria. Perguntei pelo Sr. Cabral e recebi como resposta que estava, e que aquela dona da voz era sua filha. Disse-lhe que era amigo do pai, que não lhe dissesse, mas que lhe pretendia falar.
O Cabral dá as primeiras palavras e reconheci-o imediatamente. Quis fazer mistério, sem lhe dizer quem era e perguntei se tinha morada no mesmo local onde nasci. Que sim, e insiste em saber com quem falava. Perguntei se conheceu, daquela localidade, Miguel, Chico, Covas e ele continuou a enumerar mais amigos comuns. De seguida pergunto-lhe se conhecia o Guilherme, respondendo-me que sim, que era o irmão do melhor amigo da sua vida e diz o meu nome completo. As lágrimas bailaram-me pelos olhos e correram de seguida pela minha cara abaixo. O amigo que eu não via há cinquenta anos diz-me, sem saber com quem falava, que eu era o maior amigo da sua vida.
Anunciei-lhe que era eu e aí é ele que chora de alegria. O que fazia, porque não nos víamos e convida-me para o visitar. Quinze dias depois, acompanhado de outro amigo comum, que foi de propósito ter comigo ao Norte, entro na sua pequena propriedade agrícola, sendo recebido pela sua mulher e filha, esclarecendo-me que o marido tinha uma fábrica de estores e tinha ido a Castelo Branco fazer uma montagem e estaria a chegar. A Lurdes, sua mulher, eu já a tinha conhecido da última vez que nos vimos, ainda nem sequer namoravam. Entretanto o Cabral chega. Que abraço meu Deus, que felicidade ambos gozamos, que alegria ambos sentimos! O Amora partilhou dos mesmos sentimentos. Perguntei-lhe pelo pessoal que o teria acompanhado na montagem dos estores e respondeu-me que não tinha qualquer empregado. Mas então a fábrica…
Mostrou-ma e fiquei espantando quando, no seu interior, vi a pender do tecto cordas, cordéis, tirantes e esticadores, que ele sozinho manejava com destreza, fazendo subir e descer os estores na sua fabricação. Um autêntico filme cómico que tinha visto em tempos, em que o seu actor principal era o italiano Tótó.
Foi uma tarde completa a reviver os nossos tempos de rapaz.
A noite aproximava-se e pedi-lhe para nos indicar onde podíamos pernoitar, tendo feito questão de ser na sua casa. Como recusámos, pôs-nos a faca ao peito e dá a sua sentença. Vocês vêem e se não gostarem não ficam. Dito assim, não há maneira de fazer uma negativa e fomos deitar-nos no sótão, que era grande e tinha umas quatro ou cinco camas. O frio era de rachar e o tecto não tinha forro. Valeu-nos a cama ser de cotão. Dentro de uma mesa-de-cabeceira existia um penico verde de plástico, onde eu e o Amora urinámos. Pela manhã, abri uma pequena janela e joguei aquele liquido janela fora, pois não queria que a Lurdes tivesse aquele trabalho. Um cão ganiu, espreitei e apercebi-me que o desgraçado tinha apanhado o primeiro banho matinal.
Vestimo-nos e, já no rés-do-chão, fui à casa de banho onde molhei ao mesmo tempo os cantos dos olhos com a ponta dos meus dois dedos indicadores.
Meses depois assisti já com a minha “Dona” ao casamento da sua filha e vi a felicidade que o Cabral e a sua mulher tiveram naquele dia.
Imediatamente a seguir caiu doente. Visitei-o mais duas vezes. Na primeira colaborei com sua mulher, levando no meu carro mais 5 amigos comuns para poder matar saudades. A outra foi para o acompanhar à última morada.
A partir do nosso encontro, de homem saudável passou a moribundo e assim perdi aquele que me considerava o melhor amigo da sua vida.
Oportunamente irei contar as minhas férias com ele, cinquenta anos antes, e a partida que um galo me fez.
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1.2.10
VERGONHA E ORGULHO
Aí, começou a vida de saltimbanco com colocações em vários locais do país, sem nunca ter instalado consultório, já que entende que a saúde da população portuguesa é obrigação do Estado.
Assentou arraiais em Bragança, onde iniciou a actividade a sério pela primeira vez, razão porque tive conhecimento da minha história de 03/X/07, “consulta em Bragança”.
Depois, andou ao sabor das necessidades e finalmente foi parar a um concelho do distrito de Porto. Foi-lhe entregue uma lista de utentes a rondar os 1.900, vestiu a bata e diariamente exerce a profissão com o brio profissional que todos lhe reconhecem.
Todos os dias, dentro das paredes do Centro de Saúde acontecem cenas, umas de arrepiar os cabelos a um careca e outras nem tanto, mas que a serem descritas enchiam algumas salas da Torre do Tombo.
Depois de terminar as consultas no Centro, seguem-se as dos domicílios. Umas vezes, os doentes ou pseudo doentes não estão em casa, outras é um cão que no quintal lhe rasga as calças e ainda existem aquelas que, por mais que procurem, não encontram a morada que lhe foi dada.
Atribulações que servem depois, entre colegas, para dar umas risadas no outro dia.
A Teresa Afonso, residente num dos bairros que o conhecido ex-militante do PSD, Valentim Loureiro, entregou à gente pobre daquele concelho, requisitou através de telefone a presença do médico de família, pois encontrava-se doente e de cama.
Ele já a conhecia, pois a senhora já o tinha visitado três ou quatro vezes e sabia que a senhora mancava da perna esquerda.
Chegou ao local e, não encontra a rua, sente-se perdido e resolve perguntar a duas prováveis vizinhas, onde era a rua tal e se conheciam a D. Teresa Afonso. Sim, sim, claro, a rua era mesmo aquela onde estavam. Agora a D. Teresa Afonso não sabiam quem era e não devia morar ali, pois elas conheciam toda a gente do bairro. Pelo sim, pelo não, perguntam a uma terceira e como o médico faz a referência de que a senhora era alta e coxa, acendeu-se-lhes a luz e confirmaram imediatamente que era a Teresa do “mija”.
Seu pai já tinha falecido, mas com a idade e doença estava incontinente, pelo que andava sempre com as calças molhadas, ocasionando que o povo o alcunhasse de “mija”.
Sua filha sentia-se triste por esse facto e tinha vergonha de dizer que era a filha do “mija”.
O médico lá cumpriu com a sua obrigação…
Dias depois, o médico dá consulta a outra utente, senhora mais expedita e desembaraçada nas conversas, que aproveitou para marcar consulta em domicílio para a sua sogra, que viva na sua casa.
Como o médico lhe perguntou se era fácil encontrar a morada, a senhora, com o ar mais natural deste mundo, com os olhos a flamejar e irradiar felicidade, explica ao médico que é extremamente fácil e não tem nada que saber. Basta perguntar a qualquer pessoa dali, onde mora o caga-euros, que toda a gente conhece.
Moral de história: Enquanto uma sente vergonha por ser filha do “mija” a outra sente orgulho por ser a esposa do caga-euros.
Contrastes da sociedade em que vivemos…
18.1.10
CAÇADA COM "LARADA"
Certo dia, não sei porque carga de água o Zé e mais uns tantos empregados, fomos convidados para ir à caça com os patrões, numa propriedade que um deles possui, lá para os lados de Montemor-o-novo.
Claro, sangue na guelra, rambóia pegada, não houve quem se negasse. Alguns pediram espingardas emprestadas (tanto lhes fez, não apanharam nada), mas o Zé e um compincha de aventuras (o mesmo que fez a salada, no meu conto “El Rocio”, de 03.06.08) resolvemos ser apenas espectadores, não fosse o diabo tecê-las e, sem querer, ainda apanharmos com uma chumbada no coiro e termos de ir direitinhos para o Hospital de Évora.
A viagem decorreu como previsto, mas depois de combinarem os sítios onde cada um dos inaptos caçadores se iria colocar, e partindo para os referidos locais, o Zé e o Jonas ficaram a olhar um para o outro sem nada para fazer e até na expectativa de nem almoçarmos, dado o encontro de almoço ser muito longe do local onde estávamos.
Ficámos a fazer guarda aos vários automóveis onde tinha sido feita a viagem e reparámos que uma das casas, ali perto, era o celeiro da quinta. Com o sossego foram aparecendo algumas galinhas e perus, depenicando por aqui e por ali.
Eureka, aqui está a nossa caçada e nem sequer precisamos de arma de qualquer espécie, dizia o Jonas. Já vamos ver, dizia eu. Primeiramente vamos ao celeiro, enchemos os bolsos de milho, abrimos a porta da frente de um Dodge com rabo de peixe de um dos patrões, e espalhámos o milho em carreirinho no sentido da porta aberta. Em cima do banco, uma mão cheia e preparámos as nossas garras afiadas para, na hipótese provável de algum peru entrar, fechar a porta e bateríamos o recorde em kg de caça apanhada.
Íamos ser os heróis daquela caçada e já víamos os colegas cheios de inveja pelo nosso feito.
A coisa até não correu mal e o previsto seguia com sequência. Um dos perus, patada aqui, patada ali, vai comendo o milho, chega junto à porta do carro e, como é alto vê o cereal a luzir, dá um pulito, salta para o banco. Esperámos que se ajeitasse melhor, demos uma corrida e fechámos a porta. O animal estava tão entretido a comer que nem olhou para trás, limpou o banco, deu uma passada direito à outra porta que estava fechada (os nossos corações batiam apressadamente), coloca-se em cima do vidro, já que não tínhamos reparado nesse pormenor (o vidro estava baixo) deu uma valente “larada” que caiu em cima do banco e salta para a rua.
Deu-nos vontade de rir até às lagrimas, todavia não o fizemos, porque afinal um estúpido peru, comeu, “larou”, partiu para outra e ainda fomos nós que tivemos de limpar o estofo do popó.










