28.7.08

“Alfa Pendular”


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Sentei-me à frente desta máquina fascinante, com o intuito de escrever mais uma história ocorrida durante esta minha curta passagem pela vida terrena. É certo que ainda cá estou, mas segundo parece já tenho as campainhas celestiais limpas com “solarine”, afinadas, reluzentes e prontas para tocarem quando eu aparecer a bater à porta do céu.
Todavia, fui informado pelo meu subconsciente, que no inferno também preparam festejos e que já há uma quantidade de “cornuditos de elite”, pronto a raptarem-me na hora H, com o sentido de me acolherem definitivamente no seu convívio.
Portanto, eu que já há muito tempo estou preparado para iniciar a viagem, sinto-me constrangido e infeliz por saber a trama que se desenrola nas minhas costas.
Num dos lados o Céu e no outro o Inferno. No primeiro não me oferecem nada e entrarei (o que acho improvável) se tiver sido sempre bem comportado, no segundo oferecem-me uvas moscatel, pêssegos, bananas, anedotas picantes, licor de Ginja de Alcobaça, Tortas de Azeitão, Sardinhas, Tripas à moda do Porto, arroz de lavagante e voltas ao Mundo sem parar acompanhado de mulheres, mulheres muito lindas e boas como o milho.
Encontro-me pois num “tri-lema” e não estou a descortinar como vou sair desta enrascada. Julgo até que a dar-se o rapto não tenho alternativa, já que as tropas do Céu não estão tão preparadas e não possuem material bélico tão sofisticado com as do Inferno.
Só me resta então, fazer a minha luta com as armas que disponho, não fazendo caso de ofertas tentadoras, mantendo-me por cá mais uns tempos, gozar a vida e tentando fazer em cada dia uma história de amor e humor.
Nos primeiros dias de Junho passado desloquei-me a Braga e à Galiza, utilizando, até à Capital do Minho, o Alfa Pendular, com saída às sete da manhã de Santa Apolónia.
A carruagem em que viajava tinha muitos lugares vagos, sinal de que havia poucos passageiros, já que aquele comboio é de lugares marcados obrigatoriamente e portanto as faltas são notórias. No lugar de janela contrária à minha, mas uma fila à frente, viajava uma senhora de meia-idade, bem vestida, bem penteada, mãos bem tratadas e unhas arranjadas. Trazia uma pasta com muitas folhas A4 e entretinha-se a passar a vista por elas, fazendo anotações, como quem está a rectificar pontos escolares.
Admiti portanto ser professora, ocupando o tempo de viagem a trabalhar.
Em dado altura, vindo da carruagem bar, surge um senhor negro, grande, grande mesmo e com uma bunda enorme, sentando-se ao lado da professora.
Eu observava o caso discretamente mas com os olhos sempre em busca de algo para me divertir.
A Senhora mexia-se, virava-se de um lado para o outro, não estava bem. Julguei ser pulga atrevida, mas depois fiquei completamente esclarecido. O homem exalava um cheiro nauseabundo e pensei. Como é possível um homem bem vestido, sapatos engraxados, engravatado, pasta tipo “James Bond”, cheirar tão mal. Porque não foi à casa de banho vazar aquele bandulho, decerto, atulhado de couve-flor e feijão preto miudinho que os brasileiros mandam para cá.
Do meu lugar “observatório” apercebo-me que a coisa estava “preta” para aqueles lados, e só terminou quando a senhora resolveu telefonar a alguém que a fosse buscar a Gaia, pois estava agoniada e não podia fazer a viagem até Campanhã.
É que o grandalhão, assim que se sentou, tirou os sapatos para ficar com os pés mais à vontade e consequentemente aliviado de apertos.
Para dar a possibilidade da senhora poder sair, levantou-se mesmo descalço e passou ao corredor, vendo nessa altura, em cada uma das suas meias, dois enormes buracos, um nos calcanhares e outro à frente nos dedos grandes.
Em Campanhã esperava-me uma nossa “blogueira” que me queria conhecer, acompanhada do marido, de um dos filho e de uma adoptiva malhada e orelhas caídas (já é estrela, pois aparece com frequência na net), onde no futuro irão acampar um casal de carraças, que irão dar continuidade à sua espécie.
Cumprimentámo-nos rapidamente e fiz-lhe referência que era capaz de ter nascido uma história naquela viagem, e, não fosse ela colocar-me a mão nas costas e empurrar-me para o comboio, o Zé teria ficado em terra…
Portanto, meninos e meninas, nada de tirar os “chanatos” em publico, porque o sulfato de peúga tem um cheiro que incomoda todo o mundo.

15.7.08

Margaridas portuguesas nos Jardins de “Alhambra”

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Todas as histórias que o Zé vos contou até agora, tiveram um final feliz.
Não é com o intuito de variar, mas, pelo menos, contar uma que me marcou durante algum tempo, até me meter noutra, e que agora à distância em tempo acho que deve ser contada.
Pensei maduramente se deveria ou não contá-la e cheguei à conclusão que os amigos o merecem. Espero que as gentes femininas delirem e estou preparado para um puxão de orelhas.
O Zé, que sempre foi bom rapaz, filho de boas famílias, respeitador e cumpridor das suas obrigações, asneou e meteu-se numa alhada de se lhe tirar o chapéu.
Todos nós temos uma idade de ouro, e o Zé acha que a sua teve o apogeu na casa dos 27.
Namoradas nunca lhe faltaram, mas houve duas que lhe deram água pela barba.
E vamos aos factos.
Aí por volta de 1958 (que saudades tenho desse tempo) comecei a namorar a Margarida. Doçura, morena, cabelo e sobrancelhas bem preto que era a cobiça da rapaziada lá do meu sítio. Sentia-me vaidoso por ela se ter rendido aos meus pés e orgulhoso pela conquista.
As coisas corriam sobre rodas e a moça já falava em casamento.
Só que cá o rapaz não pensava da mesma maneira. O carvão, às vezes, está no fogareiro em chama viva e, noutras, mesmo a dar-lhe com o abano ela apaga.
Talvez porque a chama não estivesse tão elevada, atravessou-se no meu caminho outra Margarida, a quem a partir de agora passo a designar por Margarida II (autêntica Joana d’Arc) mais velha três anos, alta, espadaúda, que julgando chegar a sua hora, se atirou de corpo e alma nos braços do Zé, deixando-o aparvalhado.
Como explicar à mãe Júlia a embrulhada em que me estava a meter, se ela conhecia a Margarida I e também, na qualidade de mãe, gostava dela. Por falta de coragem ou cobardia, resolvi ir em frente, namorando as duas ao mesmo tempo e fosse o que Deus quisesse...
A Margarida I, submissa e ternurenta, e a Margarida II uma “rabiteza” dos diabos.
Tinha a vantagem de nunca me enganar no nome, quando falava da namorada ou quando lhes dizia ao ouvido aquelas coisas doces que qualquer mulher apaixonada gosta de ouvir.
Chegado o Verão, marco com a II férias num hotel em Torremolinos, por 15 dias. Mas, sem ela saber, marco 15 dias para ela e só quatro para mim e em Maiorca, na praia do Arenal, hotel cujo nome já não recordo; marco seis dias para mim e para a Margarida I.
Era necessário estar muito atento para não fazer confusão, já que as datas eram as mesmas.
Quando cheguei a Torremolinos, combinei com o recepcionista do hotel para me informar, na presença da Margarida II, que o meu pai tinha telefonado para eu regressar imediatamente, dado ter uns problemas nas adegas para resolver e a minha presença ser imprescindível.
E certo é que o plano resultou em pleno, tendo vindo no meu Ford Cortina, deixando a Margarida II lá sozinha, com a promessa de voltar para a trazer, ou então nessa impossibilidade, o regresso far-se-ia de autocarro até Lisboa, com uma data de transbordos de meter medo.
Assim que regressei, fui buscar a Margarida I, arrumei a sua bagagem na mala do carro, despedi-me da mãe Júlia, que me atirou um olhar enternecedor de felicidade e lá parti com a querida, com destino a Valência, onde apanharia o barco para a travessia e destino à ilha. A querida ia felicíssima, era a primeira vez que saíamos sozinhos e logo para um destino de sonho (não esqueçam que estamos em 1958).
O golpe estava perfeito, contentava as duas Margaridas. Mas o tal “cornudo da forquilha e que veste de vermelho” fez-me a partida.
O destino atirou-me por Beja, Aracena, Sevilha, Granada… E aqui cometi o grande erro da minha vida. Fomos visitar o palácio árabe “Alhambra”, monumento classificado pela Unesco como património do Mundo.
Quem já lá foi conhece o roseiral à volta daquele espaço, que tem muitos repuxos de água em arco.
É um encanto e sítio adequado para fazer umas “kodaks”, desfrutando de momentos idílicos entre namorados.
A Margarida II, em Torremolinos sem a minha presença e achando interessante alargar os seus conhecimentos do mundo, adquiriu uma viagem em excursão de um dia anunciada no hotel, com almoço incluído e visita ao “Alhambra” em Granada, no mesmo dia.
Aqui, peço a vossa colaboração para imaginarem o Zé todo embevecido a tirar umas fotografias à sua amada Margarida I, no meio das rosas vermelhas daquele roseiral (era mais uma flor naquele jardim), quando apareceu a Margarida II, que sem dizer água vai, prega uma “bolachada” na cara da Margarida I que a moça, coitada, nem soube de que terra era. A minha primeira reacção foi de surpresa e, como a II ia continuar a malhar, corri para ambas e apartei-as, querendo impor moral, quando eu já não a tinha.
O enxame de turistas que estavam por ali desatou a tirar fotografias, parecendo uma noite de gala em Nice, na chegada das celebridades para um festival de cinema, mas ninguém se metia.
A Margarida II, vem de mão aberta para me oferecer uma rosa igual à que já tinha dado à sua homónima e eu só tive tempo de me baixar, quando não, ficava com dois ou três dentes partidos.
A cena seguinte foi as duas a puxarem pelo pólo que o Zé trazia vestido, esfarrapando-o, como se quisessem ficar cada uma com a sua metade (seria o espólio da minha fraca herança a dividir por ambas) e, simultaneamente, com umas lambadas à mistura, em que o Zé era o mais visado, servindo de bombo da festa.
Aparecem dois guardas no local, que, ao aperceberem-se de que o assunto de amores e desamores seria resolvido definitivamente com uns cabelos arrancados e uns borrachos nas bochechas, pôs os três na rua.
A viagem a Maiorca terminou à porta do “Alhambra” e com o desejo manifestado pela Margarida II de voltar já para Lisboa na nossa companhia.
Respondi-lhe que sim, desde que viesse algemada e com mordaça, não fosse dar-lhe outra fúria, mas a Marg. I sentenciou que preferia voltar para Portugal a pé do que com aquela companhia.
O destino da flor II ficou traçado naquela altura (ou o meu), só a vi de relance três ou quatro meses depois e o da I ficou também definitivamente arrumado, quando chegámos a Lisboa.
A viagem de regresso foi penosa e sentia-me arrependido de as ter atraiçoado (se calhar fruto dos sopapos que apanhei).
Ainda pensei em enviar-lhes as fotografias que tinha tirado naquela férias, mas como estavam incompletas, pois faltavam os seus melhores flashes tiradas pelos turistas, armados em papparazzis, desisti da ideia.Nas historias de vida de um homem “nem tudo são Rosas. Às vezes também são Margaridas e com espinhos bem aguçados”.

1.7.08

Carteiro-marreco


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Estória de uma desgraça que dá vontade de rir
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Quem não se lembra dos carteiros que faziam a distribuição de correio a pé, de bicicleta e, já mais tarde, de motorizada?
Eram simpáticos, diligentes e amáveis. Toda a gente os conhecia e às vezes até lhes era pedido que lessem a correspondência, pois os destinatários não o sabiam fazer.
Para ser carteiro, tinham que se inscrever, fazer provas e ter a quarta classe, ao contrário de agora, que, segundo parece, são escolhidos à molhada e executam o trabalho sem nenhum brio.
A maioria, coitados, são contratados por uma semana, 15 dias ou 30 e apenas para substituir em férias ou em doença, sem nenhuma preparação e são atirados para a rua sem sequer lhes dizerem ou ensinarem a responsabilidade que têm sobre os ombros.
Por estas e por outras é que o País está tão mal servido por um serviço que, sendo público, é de tamanha responsabilidade.
O Manuel era carteiro já há muitos anos. Era homem honesto, estimado por todos e a todos fazia favores de mãos abertas.
Tinha um defeito nas costas e, por isso, toda a gente lhe chamava marreco. Era pobre e nas horas vagas fazia uns recados, tratava de umas papeladas nas Finanças, nas conservatórias, pagava a luz ou a água. Enfim... lutava pela vida, já que ela sempre lhe tinha trazido agruras.
Até que, um dia, instalou-se na sede do concelho um solicitador, que tratou imediatamente de apresentar queixa pelo facto do carteiro fazer aqueles pequenos favores à população, que era rural e nem sequer sabia da existência da individualidade queixosa.
E o certo é que o Manuel carteiro lá teve de se sentar no banco dos réus no tribunal da comarca.
Constatou-se depois que o senhor solicitador não tratava das insignificâncias que o Manuel resolvia e que o tribunal, cumprindo a lei, lhe aplicou uma condenação com pena suspensa por dois anos.
Aos pobres tudo acontece e o Manuel, no cumprimento da sua actividade como profissional dos CTT, foi, em Arrentela, atingido por uma arvore centenária que lhe caiu em cima, num dia de temporal.
Ficou em mísero estado, esteve internado cinco meses, fui visitá-lo. Tinha amizade por ele e nunca lhe chamei marreco, não obstante ele, às vezes, falar comigo assim:
Oh Zé, anda cá, faz cá um favor ao marreco.
Quando entrei no quarto particular da clínica onde se encontrava, riu-se, ficou radiante com a minha presença e confidenciou-me: “Agora é que eu estou bem. Vê lá tu que até tenho telefone à cabeceira. Só foi pena a filha da puta da árvore não meter caído em cima da marreca, para ver se eu ficava direito”.
Eu que era, e sempre fui muito seu amigo e tinha pena da sua infelicidade, ao ouvir aquele fraseado, desatei a rir e disse-lhe:
Olha lá, em Arrentela há mais arvores centenárias, que se te caem em cima limpam-te o sebo de vez..
Morres, podes ter a certeza, mas tens a consolação de morrer direito.
Coitado, já faleceu, mas com a marreca, e o velho ditado, mais uma vez foi confirmado.
Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

13.6.08

Copo de água em Monsul

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Depois de já estar familiarizado com as gentes do Norte, fui, algumas vezes, convidado para casamentos de pessoas conhecidas.
Ente eles, houve um onde ocorreu uma cena que não posso deixar de relatar, pois os seus contornos foram engraçadíssimos.
Um casal a viver na margem Sul do Tejo, ele bracarense, ela da terra onde está instalada a Siderurgia Nacional, com um casal de filhos já maiores, também foram convidados, dado serem familiares do noivo e meus amigos.
Nos meses de Verão, são quase sempre escolhidos para a realização de casórios e na igreja do Bom Jesus de Braga, os residentes e os emigrantes que vêm a propósito para o enlace, dão um movimento que mais nenhuma igreja do País consegue igualar. Não faço ideia de quantos casamentos se realizam a um sábado ou domingo naqueles meses, mas garanto-vos que são muitos, muitos mesmo.
O casório em causa, realizou-se na igreja da Madalena, na encosta da Falperra, a poucos quilómetros de Braga e do Bom Jesus e quem estiver num destes sítios para se dirigir a Braga, pode fazê-lo directo ou com passagem pela outra igreja.
No local e antes do seu início, foi distribuída uma folha de papel com um desenho do percurso onde se realizaria o “petisco”, de forma a eliminar dificuldades que alguns tivessem, já que o local era em Monsul – Póvoa de Lanhoso, longe da cidade de Braga, e numa quinta que só poucos conheciam.
O tempo de ausência, aliado ao desenvolvimento das cidades, fê-lo perder a noção exacta dos sítios que, na sua meninice, lhes foram sempre familiares, pelo que lembrei aos recém-vindos para terem cuidado e não se perderem. Sem problemas, disseram-me, dado ser colocado um pouco de tule nas antenas de rádio de todos os carros e, portanto, não era difícil seguir o que ia à frente e, consequentemente, o de trás faria a mesma coisa.
A família Costa, nos dias em que estivessem na Cidade dos Arcebispos, ficavam num apartamento de um sobrinho na Rua Conselheiro Lobato (ali bem pertinho do Estádio 1º de Maio), que estava, como sempre, um brinquinho para receber familiares e convidados.
Quando todo o ritual do casamento católico acabou, os convidados dirigiram-se aos automóveis e partiram a caminho de Monsul. Uns descendo directamente para Braga e outros subindo com passagem pelo Bom Jesus. O Costa seguiu um que subiu e fez o percurso pelo Bom Jesus e aí, com os olhos postos no tule da antena, não se apercebeu de que o perseguido desaparece e ele estava atrás de um outro carro vindo de um outro casamento realizado no Bom Jesus.
O filho varão, com o papel na mão com a indicação do percurso, achava que tudo corria às mil maravilhas, pois a Póvoa de Lanhoso já estava à vista.
Na chegada à quinta onde os convidados iam acamaradar e encher a “pança” à conta dos pais dos nubentes, o Zé já tinha dado pela falta da família Costa e já tinha alertado o seu sobrinho (cedente e dono da casa, onde aqueles ficavam), para a sua falta, resolvendo este voltar atrás para ver se os encontrava.
Entretanto, os Costas chegam à quinta onde se realizava o casamento do carro que o antecedia, dirigem-se ao pavilhão, sentam-se e dá-se início ao repasto. Estranharam não ver ninguém conhecido, mas, naquelas ocasiões, á sempre muito gente e portanto, à vontade, iniciaram a refeição com uma canja de galinha. A filha, alta, calmeirona, levanta-se para dar uma olhadela aos convidados e à mesa de honra, sentando-se imediatamente, diz aos pais:
Vamos embora, estamos enganados o noivo é mulato.
- Nem um mergulho no tanque da quinta era capaz de fazer mais calafrios do que aqueles que sentiram a família Costa.
Na estrada, o sobrinho não os encontrou, na cidade tão pouco, até que resolveu ir a casa e então depara-se com o espectáculo da mãe e filha estarem de volta do frigorífico a tentarem arranjar alguma coisa para comer, o filho sentado a ver televisão e o chefe da família e pai Costa, já em cuecas, a bracejar e a protestar por não ter conseguido desfiar o fio da meada.
A partir daí, uma alma nova voltou e lá partiram todos de novo para o seio daquele casamento, que os fez fazer uma viagem tão longa e faziam tanto gosto de desfrutar com a família.

3.6.08

El Rocio



Peregrinos em pleno Parque Doñana a caminho del Rocio
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Na província de Huelva – Espanha em pleno Parque Natural Doñana e a 15 Km de Matalascañas, existe uma povoação de nome El Rocio.
Povoação de ruas de terra solta de grande movimento de cavalos e a lembrar os filmes do Oeste Americano, pois à frente de todas as casas existem armações de madeira para prender os equídeos.
A terra tem como sua Santa Padroeira a Senhora del Rocio realizando-se a sua festa anual no mês de Maio.
Festa Rocieira, cavalos, charretes, carroças engalanadas, sírios vindos de toda a parte, contribuem para fazer daqueles dias uma romaria de cariz extremamente popular, vendo-se em toda a parte as danças de flamengo, acompanhadas pelos cantos dos romeiros.
É festa e local que aconselho a visitarem, tal a beleza que o conjunto de peregrinos e romeiros nos oferece.
O Zé foi campista e durante muitos anos passava os fins de semana a correr e a frequentar os acampamentos colectivos que se realizavam no país. E foi neste convívio semanal que arranjei grandes amigos e aprendemos a ser desenrascados para resolver todos os problemas que de ocasião nos surgem. Mais tarde, enveredei pelo campismo/comodismo e agora quando me desloco uso o hotel.
Entre os amigos que conheci, havia dois casais (pai, mãe, filho e nora) que aliavam aos conhecimentos da actividade, uma dose de humor invulgar, sendo por isso pessoas de fácil relacionamento para amizade duradoira.
Com grande antecedência combinamos ir ao Santuário del Rocio nos dias da romaria para poder apreciar aquela festa.
O percurso seria feito em 2 viaturas, pois cá o rapazote não dispensava a Silvia, namorada de então.
Metemo-nos a caminho de Vila Real de Santo António, navegámos no rio Guadiana para fazer a travessia e assim que chegamos a Ayamonte. O Jonas (cabeça de casal) na outra viatura, resolveu meter gasolina super no seu “Ford-Balila” de cor castanho claro comprado em 2.ª mão por três contos.
Para vos dar uma ideia da velocidade supersónica que o bólide dava, conto que, por empréstimo utilizei-o numa viagem da lagoa de Albufeira-Sesimbra, até Cacilhas, com uma caracoleta a passear no vidro da frente e sem que o animal caísse do vidro.
Depois de atestado e enquanto houve gasolina normal nos canos a coisa correu bem. O pior foi quando chegou a super ao carburador.
O carrito ou porque já se sentisse em plena romaria no meio da “cavalada” ou a comida não fosse a apropriada para o seu estômago começou a soluçar, até que parou definitivamente.
Todos opinavam, sendo necessário fazer uma assembleia informal para decidirmos o que fazer, recaindo a solução na substituição da gasolina super pela normal na esperança de que fosse esse o causador do mal que afectava o seu bom funcionamento.
Na realidade, confirmou-se a preocupação. Substituímos a “cevada, por palha” de fraca qualidade e o animal até ao “Rocio” jamais parou.
Chegamos ao destino no pino do calor, arranjamos um bom local para montar as tendas, (há quem lhe chame barracas) com a ligeireza e prática adquiridas ao longo dos anos.
O Jonas estende o pano de chão, começa a bater estacas e a Adalberta, sua mulher, entra de gatas dentro da tenda, ainda sem mastros e começa imediatamente a fazer a cama, ficando com o rabo virado para a entrada.
Tudo isto é feito com sincronismo, pelo que o marido, chegada a sua ocasião também entra de gatas para montar os mastros.
Metendo a cabeça dentro da tenda, e sentido um aroma conhecido disse com a maior alegria e inocência:
Que bom Adalberta, trouxeste bacalhau.
Só a gargalhada geral o fez perceber que o cheiro não era do “fiel amigo”.
Mas campista é campista e o Jonas, desembaraçado e solícito, pega num alguidar de plástico e dirige-se aos lavatórios para fazer uma saladas para todos.
A nora bem o chamava; Jonas venha cá, dê cá o alguidar, Jonas venha cá, e ria desalmadamente sem que o sogro fizesse caso do chamamento, acabando para fazer uma salada deliciosa com tomate, alface, e pepino, bem temperada a preceito.
O petisco era de primeira, mas a Adalberta e a nora não tocaram na salada, até que, com esta já quase a acabar o Jonas comenta. Então vocês não tocaram na salada?
A nora com o ar mais divertido deste mundo responde!
É que este alguidar não é o da salada, é da gente se lavar por baixo.
Foi lindo “El Rocio”, a missa, os cantares e devoção dos romeiros, mas o que mais ternamente recordo são as genuínas peripécias do campismo e as suas capacidades de improviso.
A partir daí, o Zé e a Silvia em gamela colectiva e em alguidar de plástico nunca mais comeram salada.

20.5.08

Avante Camarada, Avante


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O 25 de Abril trouxe-nos coisas boas, coisas más e coisas assim. Fundaram-se partidos, inteiros e lascados. Começaram as festas dos partidos (o nome foi posto a preceito e a condizer com a realidade), grande parte das vezes em conjunto, rosas com laranjas, vermelhos com semi-vermelhos e até azuis e amarelos, que depois de muita música, muita charanga, muitas “minis”e muito tinto à mistura, acabava em cada zaragata de se lhe tirar o chapéu, regressando a casa muitos filiados com as bandeiras descaídas, já murchas e com eles partidos, alguns mesmo irremediavelmente partidos, (com ligaduras na cornadura) depois de terem passado pelas urgências hospitalares.
Decorridos que eram mais 365 dias, e depois de uma publicidade bem abundante, as festas lá se continuavam a fazer, mas mais individualizadas.
O PCP instalou-se na Cidade de Amora, mais propriamente na Quinta da Atalaia. Anuncia sempre festas de arromba, convida ou contrata artistas e oradores e, para não fugir à regra, são sempre os mesmos a puxar pela garganta e a botar palavra.
Dos mais variados recantos do Portugal Conhecido, partem com destino àquele recinto camionetas cheias de folgazões, outros com muita fé, que esperam passar três bem vividos dias no convívio das gentes da mesma cor e assim a comissão organizadora arrecada mais uns milhares de euros que servirão no futuro para poderem ser gastos em campanhas eleitorais, já que as dádivas de outras origens estão severamente sob controle. De uma dessas terras conhecidas (dos naturais), a comissão local organizou uma excursão de camioneta a preço módico e pago a prestações sem juros para uma deslocação àquele recinto e durante o período da realização do evento.
Maria Imaculada, menina de 18 anos, prendada e com gosto esmerado para fazer renda de bilros, que aprendeu com uma tia solteirona que usava óculos e tinha borbulha escura na parte lateral direita do seu nariz, inscreveu-se e à “titi”, depois de ter o consentimento da progenitora, já que o seu pai, ocupado com os trabalhos no campo, pouco se importava com essas coisas.
Dois dias antes da partida, a Maria Imaculada estava esfuziante, alegre, mexida, ia pela primeira vez a uma festa fora da terra e visitar Lisboa, coisa com que tanto sonhara, recebe a notícia que por indisposição ocasional a sua tia e protectora na viagem não poderia dar o passeio.
A Maria Imaculada roga, pede à mãe que a deixe ir sozinha, porque já não era criança e sabia bem cuidar de si. Contra sua vontade, pois as mães sabem sempre como são as irreverências da juventude, lá acedeu ao pedido e a Maria Imaculada, de cabaz e farnel destinado à viagem, lá partiu rumo ao Sul. Olhando através da janela ainda vê a mãe com uma lagrimazita ao canto do olho, preocupada por alguma desgraça que acontecesse e pela falta que a menina lhe fazia em casa.
Tudo correu bem e pelo caminho os excursionistas trocaram de migalhas numa sã e leal camaradagem, não fossem eles do PCP.
Logo na primeira noite e junto do palco principal, a Maria Imaculada conheceu o Jorge, um rapazito alentejano, bem parecido, uma carinha laroca, que com os seus 21 anos, deitou o coração da Maria Imaculada abaixo, ela que nunca tinha estado apaixonada por ninguém.
Foi um amor à primeira vista e o rapaz, depois de muita conversa, mimos e subterfúgios
(para provar que afinal os alentejanos não são assim tão lentos), saltou-lhe “práspinha”. A principio e com a emoção a coisa nem lhe soube mal nem bem, mas um jovem na flor da idade é imparável e com a continuação passou a sentir-se à vontade, mais desinibida e já não queria outra coisa, porquanto afinal aquilo tinha emoções e sensações que nunca tinha sentido. Foram portanto até àquela altura os melhores três dias da sua vida. Sozinha sem ter que dar contas a ninguém e ninguém da família para conter as arremetidas que o alentejano lhe dava.
Portanto, quando a festa acabou e voltou outra vez à realidade, sentiu uma grande nostalgia por se aperceber que tinha de voltar novamente às origens e que o Jorge nem sequer lhe tinha dito de onde era. Por isto não viria mal ao mundo, porquanto ela, durante três dias, também nem soube de que terra era.
E o nosso Jorge que tinha sido tão amoroso, tão terno; à partida, nem quis aparecer junto à camioneta da excursão, não fosse a moça desmaiar nos seus braços.
Quando chegou a casa de mãos a abanar, pois até o cabaz com que tinha levado o farnel ficou esquecido logo no primeiro dia, a perguntas dos familiares desejosos de saber como foi e como tudo tinha corrido, lá foi dizendo que o Carlos do Carmo cantou todos os dias e a todas as horas (ela não tinha visto outro), fazendo a admiração dos pais, lá se deitou, imaginou e sonhou com o Jorge Alentejano.
Pela manhã, acabou por contar à sua mãe tudo o que tinha acontecido na Quinta da Atalaia e tim por tim. Aí a “Nai”, qual locomotiva a carvão, trata de arranjar a Maria Imaculada, veste o seu melhor fato e a toque de caixa dirige-se ao Centro de Saúde local onde procurou o seu Médico de Família.
Para explicar o que pretendia, não está com meias medidas e dispara logo à primeira pergunta:
Senhor Doutor, a minha filha foi numa excursão a Lisboa e perdeu os 3 na Festa do Avante.
O Médico, que por sinal é um pouco gago, responde-lhe: “En.en.então qé..qué..quer que vá lá à pró-pró-procura? E, se-se-se não achar, o que- que faço? Éla é que-que sabe onde os per-per-perdeu que-que vá lá.”
Mas, Sr. Dr., veja lá que só sabe que se chama Jorge e que é alentejano. Agora o que é que eu faço?
Gaguejando ainda mais, o médico respondeu-lhe... “que.. que vó..volte lá pró-pró ano, porque ele dé-dé deve lá-lá estar, sa-sa-são sem sempre os me-me-mesmos a ir à fé-festa...”

8.5.08

Praga nos Arbustos


A lagartagem era esquisita, mas não era
do Sporting

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Nos meus primeiros anos de casado vivi no Concelho de Oeiras, ali bem perto do Estádio Nacional.
Adquirimos uma moradia geminada, numa pequena urbanização que tinha à sua frente um quintal que ajardinei, colocando uns arbustos e umas trepadeiras a separar os dos outros vizinhos e no corredor de acesso ao portão e porta de entrada, uma cepas em latada da casta alicante.
Os vizinhos pareciam todos boas pessoas, mas por isto ou aquilo o que é certo é que não fizemos grandes amizades. Estivemos por lá cerca de 3 anos e quando nos deslocámos para ir viver para o norte, não sentimos grandes saudades do abandono. Todavia, era uma povoação simpática, às portas de Lisboa e a poucos Km da linha do Estoril.
A casa ao lado era rigorosamente igual à nossa e era habitada por um casal, ele comandante da armada, ela doméstica, que tinham um casalito de filhos de idades mais ou menos 7 – 12 anos, sendo ela, a mais velha e espigadota.
Aos domingos, no Verão, o Comandante, como não podia passar sem uma ondas alterosas do Oceano Atlântico e não as tinha, metia-se no jardim do quintaleco dentro de uma piscina de plástico que deveria ter sido da criança mais nova, quanto tinha aí uns 2 ou 3 anos, pernas de fora e copo de whisky na mão e ali estava de olhos fechados, horas e horas a desfrutar, imaginando umas apetecíveis férias nas Maldivas ou uma abordagem da sua corveta em alto mar a traficantes de droga.
A vida corria monótona, até que os arbustos começaram a ser comidos por uma praga de bicharada e havia de os socorrer depressa. Dei uma passagem pela loja do agricultor, sito na rua Passos Manuel em Lisboa, falei com o agrónomo de serviço e lá vim munido de um frasco que continha o remédio milagroso para acabar com a referida praga, não sem antes receber a recomendação especial de vestir uma roupa velha, encapuchar, usar óculos especiais e fazer a operação de noite, já bem tarde, aí por voltas das 2 da manhã, de forma a não incomodar ninguém em virtude do produto ser extremamente tóxico e ser a hora em que habitualmente a bicharada vai fazer a ceia, e que teria de fazer duas aplicações para obter bons efeitos.
A menina frequentava a escola C+S ali para os lados de Linda a Velha e apaixonou-se por um colega de turma um ano mais velho, que passou com muita regularidade a visitar a casa da “nena”, especialmente em períodos em que o Comandante por força do serviço não ficava em casa.
Claro que a partir de certa altura a vizinhança já comentava estes encontros chamados desusados para quem tem 13 anos e com a conivência da mãe da pequena.
E o lourinho, tal era a cor do seu cabelo, não obstante ser novinho lá se entretinha até altas horas da noite nos dias das visitas, tendo sempre o cuidado de quando saía, furtar-se a qualquer encontro que denunciasse a sua presença.
Uma noite em fim de semana, andando de gatas debaixo dos arbustos a efectuar a segunda e última operação de pulverização, com o sentido de exterminar definitivamente a bicheza, com toda aquela indumentária já enumerada, surge do portal principal da casa da vizinha o lourinho, com uma gabardina vestida não obstante ser primavera e não estar prevista queda de chuva.
Eu, agachado e quieto. O único barulho que se ouvia era o da pulverização que como depreendem é quase imperceptível, qualquer coisa como fe..fe..fe..., não parei, para que se alguém me visse não ficasse com a ideia de que eu estava ali às escondidas a observar o que se passava no quintal do meu vizinho, portanto quieto, mas pulverizando.
O silencio era total e o jovem ouviu aquele fe..fe..fe.., espreitou por entre os arbustos mesmo no sitio exacto onde eu estava a injectar.
Evidentemente apanhou em cheio com uma pulverização nas ventas, abriu o portão, fugindo a sete pés a espirrar, estando cerca de 15 dias sem voltar.
Fiquei preocupado pela sua falta, admitindo que lhe tinha causado alguma crise de rinete ou brotoeja, afinal apareceu para se despedir da sua causa perdida, já que o Comandante, entretanto, tinha descoberto que afinal o rapaz não ia a sua casa com o sentido de namorar a sua filha, mas sim a mãe (jovem e bonita), pelo que resolveu ficar mais vezes em terra, não fosse às vezes por causas desconhecidas sentir-se enjoado e com alguma dor na cabeça…

24.4.08

Viagem a Sevilha



O Zé sempre gostou muito de pombinhas e esta, no Parque Maria Luiza em Sevilha, não resistindo aos meus encantos veio dar-me um beijinho.

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Namorei uma morena, uma bela rapariga de vinte e tantos anos, natural de Castelo Branco, mas a viver em Paço de Arcos desde os 6, para onde veio em companhia dos progenitores, que tinham acabado de arranjar trabalho naquela vila da linha do Estoril.
A moça era bonita (com aquela idade todas são), graciosa, trabalhadora e terminámos nem sei bem porquê. Qualquer coisa de arrufo de mal me quer, bem me quer, o certo é que me voltei para o outro lado, como quem acorda estremunhado e tem necessidade de dormir mais um bocado e não dá atenção ao que o rodeia.
No entanto, durante o nosso tempo de convívio fomos felizes, soubemos viver a vida à nossa maneira, como pudemos ou nos deixaram.
Por nos ter acontecido algumas situações de bom humor, não vou deixar desperdiçar a oportunidade de contar um caso ocorrido na Cidade de Sevilha, onde nos deslocamos para assistir à Feira de Abril.
As “maçarocas” andavam em baixo e portanto, a tempo e horas, resolvemos marcar a nossa viagem de forma a não deixar nada ao acaso e evitar qualquer surpresa desagradável. Afinal, pelos vistos foi deixa andar e fé em Deus.
O Zé tinha uma viatura 500 da marca Fiat, que fez a viagem numa média de 40/50 Km hora, muito bom para a época, já que as estradas, especialmente as espanholas, nalguns sítios eram só um buraco. Na altura e à falta de melhor, era uma “máquina”, na gíria dos entendidos, especialmente aqueles, que, como eu nunca tinham tido outro…
O calor era insuportável. Fizemos a visita nos últimos dias da Feira e esta encontrava-se no auge, as sevilhanas com os trajos regionais e festivos, montando os cavalos sentadas de lado, agarradas à cintura do cavaleiro também com o trajo a rigor, as “charretes” das casas senhoriais com os senhores das terras e suas “donas”, as flores nas orelhas, os empregados também vestidos a condizer e a conduzir as ditas, com destino ao picadeiro, com as ruas engalanadas de bolas brancas e vermelhas, as “casetas”, milhares de pequenas esplanadas particulares e poiso de descanso para uns pés mais doridos; depois de percorrer todas as ruas da Feira, estávamos exaustos.
Quando nos sentimos bem num lugar, o tempo passa rapidamente sem darmos por isso e foi o que nos aconteceu. Portanto, já noite alta desatámos a procurar local para pernoitar e a todas as portas que batemos não era possível satisfazerem os nossos desejos, até que, já desesperados, lá conseguimos um “Hostal” que nos acolhia por um preço igual a um hotel de 4 estrelas. Naquela altura não há que pensar; é pegar ou largar, mas iria desajustar todo o orçamento daquele passeio.
A entrada da unidade hoteleira dava para um pátio andaluz, sendo o seu recheio composto de muitas flores, duas cadeiras de verga, onde numa delas estava sentada uma mulher grande e gorda, que na minha imaginação admiti ser a dona. Não me enganei.
Foi-nos atribuído um quarto com cama de casal num terceiro andar, cuja subida era feita através de escada por dentro do referido pátio. Depois, lá em cima, tinha um corredor que servia todos os quartos de cada andar e portanto a patroa, cá debaixo praticamente controlava todo o movimento no “Hostal”, sem levantar o “assento” da cadeira de verga.
O quarto era modestíssimo, não tinha casa de banho, mas tinha cama, duas mesas de cabeceira, uma cadeira e um roupeiro que naquele tempo se chamava de guarda-vestidos, uma janela já carcomida do caruncho e um lavatório assente em suportes de ferro fundido com arabescos e as ligações às duas torneiras que pingavam, com tubos de chumbo a sair da parede.
A Lurdocas, era assim que eu chamava à minha companheira de amores e de viagem, necessitou de se lavar e, como não tinha outra maneira mais à mão, resolveu lavar os seus “baixios” no lavatório, usando para se colocar à altura do mesmo a cadeira existente no quarto.
Ainda lhe chamei a atenção que aquilo podia dar para o torto, mas não aceitando a minha observação, coloca água no lavatório (quente não havia), sobe a cadeira virada para o dito, volta-se, quer sentar-se mas o espaldar da cadeira era um pouco mais alto, impedindo uma boa execução do serviço.
Com jeito a mais, ou falta dele, assenta o “sim senhor” no lavatório com a mesma naturalidade e à vontade como se estivesse no bidé. Os suportes não aguentaram o seu peso, os tubos de chumbo dobraram, partiram, e o lavatório cai no chão fazendo um barulho medonho e a água, sem nada para a impedir, saía com força de 8/9 bares, ficando a Lurdocas estatelada no chão. Não se magoando, já que Deus à menina e ao borracho põe a mão por baixo, levanta-se imediatamente e coloca um dedo de cada mão nos buracos de onde saía água na tentativa de a fazer parar. Espera aí que já paras, aquilo foi uma lavagem tipo máquina de estação de serviço; as partes intimas onde já tinha passado o sabonete estavam cheia de espuma e a água em repuxo e alta pressão pela colocação dos dedos a impedir a sua saída tratou de fazer a lavagem definitiva e completa, faltando somente secador, para pentear e fazer risca ao lado. Estávamos os dois em pânico, abri a porta e lá de cima debruçado no balcão chamei a patroa, desenrolando-se esta conversação:
Senhora... Senhora...
Cunho, Cunho, já me desgraciaste, foste labar el culo no lababo. és el costumbre...
Deu-me vontade rir, porque me apercebi que pelo barulho que o acidente fez, ela soube logo do que se tratava, pois decerto a outros já teria acontecido a mesma coisa.
E o mais curioso é que nem se deu ao trabalho de ir lá acima, foi-se à torneira de segurança, fechou-a e o “Hostal” esteve sem água até ser reparado no outro dia, tendo a brincadeira custado ao Zé a quantia de 250$00 (muita massa), fazendo com que a visita à Feira tivesse terminado logo ali, não sem antes primeiro tirar umas fotografias com as pombinhas no parque Maria Luíza. Regressámos à capital portuguesa de imediato e a fazer refeição de sandes de atum durante toda a viagem, exceptuando uma pequena paragem em Badajoz para comprar uns caramelos da marca “Solana”, que eram iguais aos nossos da marca “Vaquinha” e que eu tinha o cuidado de oferecer a amigos que tivessem dentes postiços, pois adorava ver os gulosos atrapalhados a retirar com muita dificuldade aquela pasta agarrada à dentadura, ocasionando sempre umas valentes gargalhadas.

14.4.08

Passarinhos na Frigideira


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Naquele dia estes escaparam

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Tinha acabado a guerra civil de Espanha, que serviu para uma meça de forças e experiência em material beligerante para o início da 2ª Guerra Mundial. Ambas foram devastadoras, causando a morte a milhares e milhares de vidas humanas.
Eu tinha 7 anos e meu irmão 12. Brincávamos despreocupadamente felizes, como qualquer criança daquela idade, alheios aos tumultos do Mundo, às politiquices caseiras e enfim aos ódios entre as nações.
Como noutros contos já fiz referência, o meu pai possuía quintas e as nossas dificuldades não seriam tão grandes como a maioria dos portugueses, porquanto não havendo dinheiro, existiam os bens urbanos e rústicos que davam estatuto e eram sinal de bem-estar, aliado às terras que cultivadas enchiam a barriguinha.
De qualquer das maneiras, foram anos e anos difíceis, de incertezas, de intranquilidade que toda a gente passava.
Foi a época do carapau, da sardinha, do chicharro e do bacalhau, que comíamos 6 vezes por semana de 2ª a Sábado, e ao Domingo com muitas dificuldades lá nos “lambíamos” com um pouquito de carne.
É curioso, como os tempos mudam e o mais barato de ontem como por artes mágicas passa ao mais caro de hoje e vice-versa. Vejamos: sardinha e bacalhau era a comida que qualquer trabalhador com o vencimento mais curto levava como almoço para o trabalho. Note-se que não era luxo, era simplesmente o mais barato, ao contrário de agora, que são dos mais caros que se compram. Este exemplo serve perfeitamente também para a truta. Caríssima antigamente e agora ao preço da uva mijona.
Em poucas casas particulares existia rádio e para ouvi-la íamos até ao estabelecimento mais próximo, que normalmente era uma taberna, levávamos uma cadeira da nossa casa e sentávamo-nos cá fora a deliciar as campânulas auditivas com uns faditos ou outra coisa qualquer.
As brincadeiras eram todas do mais simples que havia, desde “Rei coxo, o eixo, a apanha, o arco e pouco mais”.
O meu irmão possuía uma infinidade de ratoeiras para apanhar passarada e eu andava ansioso para também me iniciar nessas brincadeiras, que terminavam quase sempre com uma frigideirada de passarinhos fritos e que eram o nosso consolo.
Até que, chegando a minha hora, num dia feriado e em época de passagem da passarada de arribação, combinámos os dois, arranjámos lagartas que se tiraram dos caules de milho e se prendiam com um aramito muito fino ao mecanismo da ratoeira, lá partimos manhã muito cedo os dois para a grande caçada, segundo a minha imaginação.
Chegados à quinta, marcamos um bom perímetro e meu irmão já habituado às andanças, tratava de escavar ligeiramente a terra, armar e tapar a ratoeira de forma a enganar as vidas inocentes que lá fossem depenicar.
Claro que, nesta altura fazer a descrição de como se processava e decorria se eles caíam ou não, não é difícil.
Difícil seria enganá-los, porque alguns são espertíssimos e bastava ver-nos por ali para debandarem para outros lados e todo o nosso trabalho era infrutífero.
Eu, que me via naqueles assados pela primeira vez, não descansava em querer ver um passarito cair na ratoeira, recebendo por isso reprimendas do meu irmão para me afastar do local.
Até que, já farto de esperar, aborrecido por não ver o meu desejo realizado, resolvi abandonar a caçada e regressar a casa sozinho, deixando o mano com a trabalheira de efectuar a recolha sozinho, mas depois na mesa, seria o primeiro a sentar-me para degustar as pequenitas aves.
Maroto, como sempre, e já longe dos seus olhares, achei uma frigideira abandonada, com buracos e cheia de ferrugem e coloquei-lhe uma meia dúzia de “castanhos” de burro, que era coisa que naquela época não faltava em qualquer sítio, e fui colocá-la numa ratoeira, como se de pássaros se tratasse.
Quando cheguei a casa, minha mãe não se admirou de eu vir tão cedo, pois já tinha calculado que eu me iria aborrecer.
Por volta da uma hora da tarde, meu irmão regressa e eu, ao avistá-lo ao longe, fui esconder-me no sótão, que tinha duas portas, não fosse ele vir com os azeites e ir-me aos “queixos” e assim enquanto ele subia e entrava por uma eu raspava-me pela outra.
Largou as ratoeiras e a passarada e desatou a chamar-me. Zé, ó Zé, anda cá que o mano não te bate, só quero a tua ajuda para depenar os pássaros. Tendo eu com os meus 7 anitos irrequietos respondido assim. Pois não, eu sei que não me queres bater, tu só me queres dar uns beijinhos, mas desses não estou interessado; olha os da frigideira arranca-lhes tu as penas.
É evidente que com esta frase ainda o enfureci mais e foi aí que a mãe Júlia se apercebeu da situação e lá pôs água na fervura, de forma a que o Zé escapasse de levar umas “lamparinas” no “trombil” e não ficasse sem ferrar o dente em 4 ou 5 passaritos fritos, que diga-se estavam como sempre, de comer e chorar por mais. No entanto pelo sim pelo não, não me sentei ao pé dele.
O ser humano nunca deixa de gostar de brincar. Hoje, como outrora, causar uma pequena arrelia a um amigo, para provocar o riso, primeiro de uma das partes, depois a generalizar-se e rirem ambos até às lágrimas, vencidos por essa força irresistível chamada humor e que, ao que parece, só a nossa espécie possui.

4.4.08

ANÚNCIO DE JORNAL

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Cá estamos nós outra vez em presença do Bap..tista, para vos contar uma aventura em que se meteu e que quase lhe custou o divorcio, com todas as consequências que daí normalmente advêm.
Várias vezes ouvi o Bap..tista dizer que era felicíssimo com a mulher com quem tinha casado e que o facto de como no outro conto referi, ser mais feia que o “Demónio da Tasmânia” só lhe trazia vantagens, dado ter poucas possibilidades de vir a ser cornudo, pois ninguém se ia apaixonar por ela.
Portanto o nosso homem do bigode farfalhudo movimentava-se à vontade na tentativa de arranjar mulherio que lhe desse a satisfação plena nos seus devaneios.
Um dia passou-lhe a negra pela cabeça, vai ao Diário de Notícias e coloca um anúncio a procurar “Senhora para Convívio” – Homem 1/2 idade, separado, com muito amor para dar tal e tal (aquele paleio que vimos nesses anúncios).
Na realidade, por incrível que pareça, não fazem vocês ideia de quantas respostas recebem os que põem anúncios deste teor. É de todo o País, de todos os extractos sociais e de todas as idades. Eram tantas, tantas as respostas, que eu também ajudei a abrir algumas cartas. Foi à ganância, com risadas à mistura, os textos mais variados, alguns dramáticos, outros de mijar a rir e alguns até a oferecerem um “ensaio de murro” se fosse coisa de brincadeira. Depois é separar o Joio do Trigo (não Trigo do Joio), entrar em contacto com as interessadas, dar números de telefones, marcar encontros etc.
Pelo teor de uma das cartas e acompanhada de fotografia de meio corpo, o Bap.tista achou que estava encontrada a mulher onde iria fazer “coutada” por uns tempos. Marca encontro para a rua Vale de Santo António (mais tarde constatou que nem Santo António lhe valeu), um pouco mais acima do Banco Pinto Sotto Mayor e no dia aprazado lá foi à aventura de que tanto gostava.
Sentado dentro do seu descapotável BMW, aguardava ansioso pela estrela (já de- cadente) da sua vida, aquela que durante dois ou três meses iria mudar o comportamento e o estado de espirito do Bap.tista. Esperou tanto tempo que estava disposto a dar de “frosques”, quando vê surdir lá em cima e andando na sua direcção uma mulher, baixa, gordinha, vestida com saia e casaco a puxar para o cor de rosa, com um lenço da mesma cor, mas esta mais acentuado, bem farfalhudo ali por debaixo dos queixos, mala de cabedal vermelha enfiada no braço e uns sapatos também vermelhos com ‘/2 salto de correia e fivela a passar por cima do peito do pé. Sapatos iguais ou muito parecidos com aqueles que usam as bailarinas de flamengo. Ela dá um pequeno toque no vidro e pergunta. É o Senhor Baptista? Que desilusão, a voz dela era fina, estridente incomodativa aos tímpanos. O galã, abrindo a porta diz: Sim, sim, faz favor de entrar. Ela entra, ajeita-se, senta-se, nota-se que está feliz ao contrário do Bap.tista que ao olhar aquela figura e a ouvir a sua voz está completamente desvairado e fora de si. Pergunta-lhe se tem alguma preferencia por sítio onde possam ir jantar, sendo-lhe respondido que está livre como os passarinhos e disposta a estar com ele o tempo que ele entender como necessário para se conhecerem melhor e tomarem uma resolução da sua vida.
Um dia não são dias e um homem é um homem, portanto toma uma resolução imediata e diz : vamos jantar a Cascais (acrescentando em pensamento, que em ultimo recurso deitava-a à boca do inferno), admitindo que ela recusaria. Perfeitamente de acordo, o Baptista manda.
A “Madama” vai dando a conhecer ao conquistador por anúncio que é divorciada, tem uma filha a precisar de uns sapatos, que o ex-marido era um malandro que a levou para o Canadá no sentido de ver o que a “Cana dá” e que se viu livre dela na primeira oportunidade.
O Bap.tista diz-se separado, sem filhos, gerente duma empresa distribuidora de bebidas, dando assim à sua companheira ocasional, boas perspectivas de futuro.
Mas aquela voz embirrante que ela tinha, colocava o Bap.tista fora de si, aliado à sua figura que não traduzia nada daquilo que tinha idealizado (era assim mais ou menos da mesma altura e um pouco mais forte do que a artista de teatro Maria Vieira). Pelo caminho vão trocando impressões e o nosso homem está disposto a não dar continuidade à aventura e então inicia este tipo de conversa.
Diz-lhe que gostava de praia, ela responde-lhe que adorava praia, diz-lhe que o campo é tudo para ele e ela responde-lhe que o campo é tudo para ela, que não gostava de andar de avião, ela responde-lhe que detesta andar de avião. Que não gosta de peixe grelhado e ela detesta-o. Que fazer, meu Deus... onde me meti; ter que pagar um jantar a este emplastro. O que é certo é que chegaram a Cascais, desceram da viatura, ela queria enfiar o seu braço no do Bap.tista, que disfarçadamente recusou e encaminharam-se para o restaurante “Pescador”, na altura um dos melhores daquela Cidade (esclareço que o Bap.tista sempre gostou de ter a sanita em plano superior). E eu, sinceramente também não estava a perceber o Bap.tista. Sentam-se e nosso homem só tinha no bolso 1.800$00, que daria bem para a despesa da noite. Comeram uma caldeirada à pescador, acompanhada de uma garrafa de “Gatão” (diga-se que para o meu gosto é a fina flor do entulho), não comeram sobremesa, não beberam café e a despesa foi nem mais nem menos do que os 1.800$00. Claro que o nosso homem, fazendo ares de importante foi dizendo à companheira que nunca dava gratificações porque os empregados já têm o seu ordenado, respondendo ela que também não o fazia.
Quer dizer, afinal o Bap.tista não poderia ter escolhido melhor. Era a pessoa ideal para ser sua companheira na vida fora. Gostos iguais em tudo.
Matutando como iria sair daquela aventura, admitiu que o resolvia desta maneira: perguntando-lhe, Violante, acaso tens no corpo sinal de alguma operação que tivesses feito? Repugna-me os sinais de operações no corpo de uma mulher. Que ideia, não senhor, A não ser o sinal da cesariana que fiz quando tive a minha filha, mas quase que já não se nota. Então, pronto, tive muito gosto em conhece-la mas, está tudo acabado entre nós. Que disparate, isto não se nota nada, desaperta a saia e ali mesmo dentro do popó mostra a cicatriz ao Bap.tista que nem quis olhar, fingindo-se terrivelmente transtornado.
Fez-se noite e quando passam em Carcavelos, no parque de estacionamento do Restaurante Fateixa, já havia como era hábito uns carros com pares, que apreciavam a paisagem marítima e o Bap.tista, fala com os seus botões, mas que é isto, trago-a a passear, pago-lhe um jantar e agora não tiro proveito, era o que faltava. Encaminha a viatura para junto das outras e enrola-se na Violante. Esta, a julgar que afinal o problema da cicatriz da cesariana estava solucionado não opõe resistência, cede aos seus desejos mais ferozes, estiveram tempos infinitos esquecendo as horas, até que de repente as viaturas debandam imediatamente com a chegada do carro patrulha da PSP e o Baptista para não se ver em mais apuros faz o mesmo. Vestiram-se com pressa, atabalhoadamente e em andamento, levando-a outra vez à rua Vale de Santo António, com a promessa que lhe telefonaria no outro dia. Regressou a casa pelas 2,30 da madrugada, os meninos já dormiam, mas a luz do seu quarto estava acesa. Sua mulher estava sentada na cama a fazer malha, com a cara que Deus lhe deu, nunca se sabendo se estava satisfeita, infeliz ou fula. O Baptista para desanuviar o ambiente e sem que ela lhe tivesse perguntado, vai-se despindo e atirando para o ar que a culpa de chegar àquela hora era do seu sócio Miguel, que era um calão e ele é que tinha de fazer tudo no escritório. Ainda com a camisa vestida, mas com as calças na mão, a mulher dispara esta pergunta: Bap.tista, desde quando é que tu vestes cuecas de mulher e às pintinhas?
Secou a boca ao Bap.tista, arrepiou-se, olhou para a sua figura e vê-se, com cuecas femininas grandes (eram as do cu da Violante) às pintas, que mais parecia um saco de ir às compras a qualquer mercearia de comércio local.
O “demónio” levanta-se e a bufar pelo nariz investe contra ele, quer tirar-lhe as cuecas, prova do terrível crime que o marido tinha cometido. Ele completamente desvairado, sem saber o que fazer e por falta de umas bandarilhas ali à mão, optou por fugir para a garagem e ela não está com meias medidas. Fecha-lhe a porta, castigando-o a dormir dentro do automóvel e sem roupa para fazer muda.
A Violante, que não tinha que dar contas a ninguém, não teria passado por cena tão caricata, mas ao ver-se em casa de “slip” bem aconchegado ás suas pernas grossas e do seu cu rechonchudo, desatou durante vários dias a tentar entrar em contacto com o Bap.tista, julga-se para permutarem as peças íntimas e para lhe pedir dinheiro para os sapatos da filha, que subtilmente tinha abordado novamente enquanto viam o brilho da lua a reflectir na água do mar.
Nos dias imediatos, “ o atirador” tratou de deitar fora todas as outras cartas que tinha recebido, abandonando aquela maneira de conhecer “garinas” e só se viu livre da Violante quando uma colega do escritório, fazendo-se passar por sua secretária a informou (mentindo) que o Sr. Bap.tista tinha ido à Alemanha em negócios.

28.3.08

Pato com Estuque

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O António Santos Pato era um homem na casa dos 60 anos, casado, saudável, que nunca tinha ido a um médico e vivia na Vila de Palmela de onde era natural.
Palmelão com muito orgulho, falador, amigo dos amigos, não lhe era difícil granjear novos conhecidos, mais ainda pelo facto da sua profissão ser vendedor.
Adorava brincar, jeito que lhe ficara duma juventude feliz e livre de preocupações. Creio que não haveria colega de profissão que não tivesse recebido alguma marotice daquela “criança” com cabelos brancos e já avô.
Recordo que o Santos Pato, em certo dia de S. Martinho, quando com uns colegas comemorava aquela data, ofereceu para acompanhar o repasto um vinho da sua lavra. Um espanto. Um DOC, uma categoria, segundo as suas palavras. Afinal não era mais nem menos do que uma “surripa” já azeda que nem para vinagre servia. E que gozo lhe dava estas “sacanagens”, sendo a sua presença disputada, pois a sua disposição, aliado a uma anedota sempre apimentada fazia as delicias dos acompanhantes da mesa onde estivesse.
Para se deslocar no exercício da sua profissão, dispunha de um “Morris 1.000”, carrito inglês, com que ele embirrava, porque lhe dava a sensação de quando o conduzia arrastava o “assento” pelo asfalto.
Certa altura o Santos Pato perdeu a alegria, a satisfação de comer, sentia que não estava bem e portanto com o conselho da mulher resolveu ir ao seu médico de família, que por sinal nem conhecia.
Ouvia dizer que nos Centros de Saúde o atendimento era péssimo e que os médicos recebiam ordens para não prescreverem exames e medicamentos caros. Afinal veio encantado com o acolhimento que lhe foi prestado, tendo o clinico imposto ao Santos Pato a necessidade de efectuar uns exames complementares para confirmar ou não as suas suspeitas.
Com toda a sua paciência e desejoso de se pôr bom, deixou de beber bebidas alcoólicas, entrou em dieta e preparou-se para ir a Setúbal a uma clinica efectuar os referidos exames.
Previamente teve de fazer uma limpeza intestinal, “gramando” com o pipo do irrigador pelo ânus acima, coisa que já não foi lá muito do seu agrado, somente atenuado pelo facto da enfermeira ter sido a sua mulher.
Doente sofre, e o Santos Pato enquanto não estivesse bem, tinha-se tornado um sofredor pacífico.
No dia aprazado, o nosso amigo perdeu o “pio” e lá foi, angustiado, qual condenado a subir ao cadafalso, disposto a sujeitar-se a tudo, porque no fundo afinal o que ele pretendia era ver-se livre da sua doença.
Para o Santos Pato, que nunca se tinha vista naqueles assados, foi como se tivesse sido recebido com pompa e circunstância. Mandaram-no despir-se, ficou com as suas “intimidades” à mostra, nervoso, envergonhado, já que a bata que lhe deram era daquelas que tapa pela frente mas deixa o rabo de fora, ou vice-versa.
Novo clister, desta vez 2 a 2,5 litros de uma massa branca líquida que teria de encher os intestinos para um raio-x opaco, aplicado por mão sábia e experiente, mas sem o carinho a ternura e a paciência da sua cara metade, fruto de tantos e tantos anos de casado.
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Acabado o exame, indicaram-lhe onde era casa de banho para se aliviar de tamanho fardo e, ainda não estava bem sentado, fez uma descarga enorme e com tanta velocidade que se sentiu mais leve, feliz e até parecia que os seus males tinham desaparecido.
Vestiu-se e sem dizer adeus aos presentes, abre a porta e encaminhou-se para a saída, onde o esperava o Morris 1000 para fazer o regresso a casa.
Dado a sua saída precipitada, ninguém avisou o Santos Pato de que na primeira descarga o volume saído não deveria ultrapassar 2,5 a 3 dcl, do que tinha “engolido” pela via rectal.
Portanto, ainda antes de começar a descer as escadas principais da Clínica, dores abdominais anunciaram-lhe a chegada de novas convulsões.
O Santos Pato aperta-se, consegue dominar-se, arrastando os pés até junto do “Morris”, mete a chave, abre a porta e ao levantar a perna para entrar e antes de estar sentado, “aqui vai disto amigos que é de graça”. Em “esguicho e de palheta aberta”, aquele liquido espesso e branco corre-lhe pelas pernas abaixo.
A partir daquela altura o Santos Pato perde a vergonha e o pânico, arranca com o carro direito a casa, fazendo mais 4 ou 5 descargas pelo caminho. Quando se aliviava a quantidade acumulada com a pressão subia-lhe pelas costas acima até ao colarinho da camisa.
Quando chegou à porta da sua casa, a mulher esperava-o ansiosa por saber como tinham decorrido as coisas, mas ao ver o “Pato” a sair do carro com as “patas” todas salpicadas de branco fruto daquela massa que lhe escorria pelas pernas abaixo, pergunta-lhe se ele tinha andado nas obras a trabalhar com estuque.
Andei sim mulher, andei, andei nas obras e como vês estou todo obrado.
Só te digo que nunca mais lá me apanham para um trabalho destes.
Meses depois, o Santos Pato voltou a ser o mesmo homem alegre, feliz e pronto para “chapinhar” os amigos, só que estes já estavam a par da ocorrência que o nosso amigo tinha passado e quando entravam num bar para beberem um copo, havia sempre alguém que pedia assim: “Sai um taça de estuque aqui pró Pato”.

14.3.08

Almoço em Férias da Páscoa

(Este cabaz é igual ao que era usado na época, para levar o almoço aos empregados fabris. Fotografia tirada recentemente num mercado mensal)


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Em 1943, tinha eu doze anos e frequentava uma Escola Comercial em Lisboa. Os tempos eram difíceis, já que estávamos em plena Guerra Mundial e com a ameaça de invasão da Península Ibérica pelos alemães.
A maioria das indústrias trabalhava somente 3, 4 dias por semana, em virtude da falta de encomendas.
Se hoje a vida está mal, naquele tempo não estaria melhor e tenho dificuldades em fazer termos de comparação. Não havia televisão e a rádio funcionava algumas horas por dia.
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Meu pai, possuidor de adega e quinta, dedicava-se ao comércio de vinhos, acumulando com o meu irmão, 5 anos mais velho do que eu, a profissão de corticeiro, onde era encarregado.
Naquele tempo, as donas de casa, eternas castigadas, viam-se e desejavam-se a executar as mais variadas receitas de cozinha, que nunca foram publicadas em qualquer livro de culinária. A imaginação teria que ser fértil, pois sem dinheiro e sem produtos para comprar, pois praticamente todos eles eram fruto de racionamento, podendo só ser adquiridos através de senhas fornecidas pela Junta de Freguesia local.
Da nossa casa ao local da fábrica distava 3 Km que os meus faziam de bicicleta, mas havia trabalhadores que calcorreavam 20x2 Km a pé, todos os dias para entrarem ás 8 horas e saírem ás 17 de Segunda-feira a Sábado. E isto com todo o respeito que tenho pelos transmontanos, não era em Trás-os-Montes, era aqui a vermos Lisboa do outro lado do Tejo.
Mas na miséria e nas dificuldades também se acham motivos de alguma felicidade e o Zé, pelo menos 2 vezes por ano, vestia o seu melhor fatinho e com os seus progenitores e irmão ia a Lisboa ver teatro de revista, comia no João do Grão na rua dos Correeiros (ainda hoje lá vou e que bem que se come) e a extravagância era assunto de conversa para 3-4 meses, entre os amigos.
Junto à fábrica existiam umas cocheiras propriedade daquela, já que o transporte da cortiça se fazia em carros puxados por mulas. O movimento nas cocheiras era compatível com o movimento na fábrica e à entrada daquelas havia sempre os resíduos dos “escapes” das muares, que digo em abono da verdade não era tão pouco como isso.
Os trabalhadores corticeiros dispunham de 1 hora para almoço e portanto só os que residiam a menos de 1,5Km tinham possibilidades de ir comer a casa. Nesta conformidade, uns levavam o petisco e outros, mais afortunados, contratavam uns miúdos que a troco de $50 (ao valor actual 0,0025 €) por semana, o levavam à fabrica, neste caso feito em casa durante a manhã e portanto ainda quente. Não fazem ideia de quantos miúdos das povoações próximas transportavam os almoços de trabalhadores daquela fábrica, enfiando os cabazes de verga num pau, sobre o ombro, como se vê em imagens da China.
No período de férias, era a mim que me calhava levar o almoço ao pai e irmão, num cabaz de verga onde como segurança se metia um pauzinho para não abrir.
Há uma altura na vida em que julgamos saber de tudo e pobres de nós que afinal andamos sempre a aprender. Recordo que fiz ver à minha mãe que, pelo facto de já ter 12 anos, não era criança e portanto não era necessário colocar o tal pauzinho de segurança, porquanto eu não o deixaria abrir ou cair. Ela, experiente, sem fazer caso da minha conversa, além do pauzinho ainda teve o cuidado de, como reforço, atar um cordel às asas. Claro que ao aperceber-me disto, assim que dei corda às alpargatas e na primeira curva do caminho, portanto já longe das suas vistas, desatei o cordel, retirei o pau e com a altivez de teimoso segui o meu caminho, orgulhoso do meu feito, para na volta confessar à mãe Júlia que eu tinha razão (tinha tirado o pau e o cordel e que nada aconteceu ao cabaz e consequentemente aos almoços).
O percurso tinha sido feito perfeitamente normal, tudo estava a correr conforme os meus desejos até que quando passei pelas cocheiras já atrás referidas, o filho da mãe que usa uma forquilha, veste de vermelho e tem cornos, fez com que tendo a mão já dormente, uma das asas do cabaz saltou e entornou ali em plena estrada, e por cima dos excrementos das muares, o recipiente com ovos mexidos e rodelas de chouriço, mais a panela da sopa de feijão. O meu orgulho cai por terra, o homem que julgava já ser volta à realidade e não sabe o que fazer. E o toque do búzio do meio-dia aproximava-se vertiginosamente. Então, num rasgo de audácia, com as duas mão faço uma conchinha e começo a apanhar e a colocar no prato, os ovos e as rodelas do chouriço, misturados com as palhinhas que já tinham passado pelo estômago e intestinos dos “alimais”.
Quando acabei, olhei para aquilo e cheguei à conclusão que nenhum cozinheiro de qualquer restaurante de luxo de Bruxelas, New York ou Paris, faria melhor do que eu. Coloquei a panela dentro do cabaz, o prato por cima, para se manter à temperatura ideal, limpei os jornais velhos que a envolviam, dei um toque de aprumo, pus o pauzinho, atei o cordel e lá segui o resto do caminho, a pensar como é que aquilo ia acabar.
Entrei no refeitório, arriei o material e contra o hábito, passei-me cá para fora frente à fábrica onde diariamente se juntava um batalhão de vendedores de frutas, que as transportavam em carroças (eram os automóveis da época).
Andava por ali, feito pardalito tonto à espera que o meu pai e meu irmão voltassem para o trabalho, para ir buscar o cabaz e trazê-lo de volta.
Pouco depois, vejo meu irmão sair, aproximo-me e ele diz assim: Vai lá, vai, que o pai obriga-te a comer o almoço que lá deixaste. Nem sei como me aguentei nas pernas, deu-me vontade de fugir mas perdi as forças, o meu coração batia desordenadamente e segui atrás dele. Ele, coitado, sem notas nem trocos nos bolsos, dirigiu-se a um homem que habitualmente vendia frutas por ali, pergunta-lhe se lhe fiava 2 maçãs e 2 laranjas até ao dia seguinte.
Como resposta, o homem chicoteia o animal e dizendo arre macho, seguiu.
Ficou gorada naquela ocasião a oportunidade de meterem qualquer coisa no bucho.
O remorso de os saber sem almoço doeu mais que os tabefes oportunos que me estavam reservados à chegada a casa e que ainda hoje não sei porque me foram perdoados.

5.3.08

A galinhola


Quando o pobre é pobre, podem passar os anos, podem os primeiros-ministros dizer que a pobreza está em vias de extinção, mas o certo, certo é que o pobre mantém-se pobre até morrer.
Este José Joaquim trabalhava, tinha ordenado, mas a família era composta por 4 e por mais que esticasse nunca chegava. Mas era um homem sempre bem disposto e cheio de humor. Valia-se como à grande maioria dos empregados fabris, da Cooperativa, porque comprava a “cão” e depois ia pagando como podia.
Esteve doente e internado no Sanatório do Barro, perto de Torres Vedras, e aí aprendeu a embalsamar aves e outros pequenos animais.
Portanto, para ganhar mais alguma coisa entretinha-se a fazer aquele biscate. Num Sábado ao fim do dia, a sua mulher estava preocupada com o jantar que tinha de apresentar para os 2 filhos de pouca idade. Lamentando-se da sua sorte, alvitra ao José Joaquim que ela ia à Cooperativa comprar uns ovos e uma lata de salsichas, enquanto que ele fritava umas batatas que, com mais uma sopa, sobra do almoço, resolvia o problema daquela noite.
No momento em que a Judite (assim se chamava a companheira/esposa) vestia um casaco para ir à rua, tocam a campainha e, como era ela que estava mais perto da porta, foi abri-la e à sua frente está um desconhecido que lhe pergunta se era ali a casa do Sr. José Joaquim, apreciando que ele trazia uma enorme ave já morta.
O José Joaquim, ao ouvir o seu nome foi-se aproximando e vê na mão do desconhecido uma Galinhola. Tendo percebido imediatamente o que o senhor pretendia, diz assim para a sua mulher:
Judite, vai descascando as batatitas e frita-as, que eu atendo o senhor.
Apresenta-se ao desconhecido e o outro, passando-lhe a Galinhola para a mão, pede-lhe encarecidamente que a embalsame, mas com todo o carinho e cuidado porque além de ser uma ave extremamente bonita tinha-lhe feito perder um dia inteiro no sapal, ali prós lados do Talaminho, bem perto de onde se faz a festa do Avante, até conseguir dar-lhe um tiro certeiro que a prostrou.
O José Joaquim sopra-lhe as penas, vai-lhe arrancando algumas e diz ao homem: vamos ver o que consigo fazer. É que o tiro foi dado de muito perto, a carne está muito dilacerada deve ter ossos partidos e portanto vai ser muito difícil fazer qualquer coisa. No entanto, o animal fica. O preço digo-lhe depois, passe por cá daqui por oito dias, porque me faltam alguns produtos que só na próxima segunda-feira posso adquirir.
Naquela noite a família deliciou-se com uma Galinhola tenra que fazia inveja a tudo que ultimamente tinham comido. Foi efectivamente soberba e nem pelo Natal alguma vez o José Joaquim tinha tido refeição tão requintada.
Oito dias depois, lá aparece o caçador para levantar o seu troféu devidamente embalsamado e inicia a conversa, informando o José Joaquim que em sua casa já tinha um lugar de relevo para a colocação do seu orgulho de caçador. Agora, o senhor sabe lá, quando na terça feira fui pegar no bicho, porque não o pude fazer antes, que tal como lhe disse tinha falta de produtos para executar o trabalho, aquele exalava um fedor que tive que abrir todas as janelas da casa para renovação do ar.
O homem ficou paralisado, triste e pálido, nem queria acreditar no que ouvia, pelo que foi o José Joaquim que teve de o animar e consolá-lo, alvitrando que voltasse ao sapal para matar outra, porque ele estaria disposto a fazer-lhe o trabalho com um desconto, dado a pouca sorte que teve nesta. O José Joaquim recebeu um pedido de desculpas pelo incómodo, mas que voltaria na hipótese de ter sorte na nova caçada.
Percorreu todos os caminhos estreitos do Sapal, só que a caça nunca mais lhe correu bem e pelo estreito do José Joaquim e da sua família também nunca mais correu Galinhola. Até que, chegando a época das perdizes, o caçador voltou entregando 2 peças lindíssimas para embalsamar, cujo trabalho foi executado com esmero e requinte, cada uma na sua peanha de madeira envernizada a primor e cujo preço o José Joaquim fez questão de não cobrar.
Como paga, o homem sentiu obrigação de dizer que lhe ia trazer uma galinha de oferta, tendo o nosso J.J. respondido que deixe lá obrigado, mas a Galinhola estava um espanto!
Bem me queria parecer...
E ficou cliente para sempre.

29.2.08

DESAFIO

O professor, Doutor Manuel Damas, do Blog “Sexualidades, Afectos e Máscaras” lançou-me um desafio a que vou dar seguimento.
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Gostar


1 - Gosto dos meus filhos, ambos com a enxada de cabo novo para o inicio de vida. E Gosto de lhes dar conselhos, que não aceitam.

2 - Gosto da mulher com quem casei, pois é terna, amorosa e compreensiva.

3 - Gosto de um bom fogo de campo, bem animado quando faço campismo.

4 - Gosto de ter amigos, leais e sinceros. E tenho-os.

5 - Gosto do teatro de revista, da música de Glen Miller. Ambas me animam, divertem-me e dão-me conforto espiritual.

6 - Gosto de viajar e conduzir automóvel, fazendo 1000 Km sem cansaço, parando somente para abastecer. A comida resume-se a um frasco de 1/2 l de iogurte líquido e 2 ou 3 bananas e Gosto do conforto do lar, ver chover e ter a lareira acesa com muita lenha.

Enfim, pertenço à espécie “Vulgar de Lineu”.

Cumprido o desafio, resta-me nomear 6 blogs para lhe dar continuidade.


Moutal
Cassamia
Templo do Giraldo
Medusasss
Lisa’s mau feitio
Caditonuno
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25.2.08

LAVAGEM DE ALCATIFA

O Sebastião Coelho era minhoto. Tinha sido desde pequeno trabalhador na industrial corticeira ali para os lados de Santa Maria da Feira, numa das secções de preparação de colas, onde é usado metil, um diluente altamente tóxico, que causa males irreversíveis à sexualidade, à vista e até ao cérebro. Portanto, quando chegou aos 55 anos aparentava idade mais avançada, sexualidade extinguida e já tinha mudado de lentes uma quantidade de vezes. Os seus óculos eram extremamente pesados, dada a espessura das suas lentes e a sentir necessidade de as substituir com frequência. Foi portanto reformado ainda antes de completar a idade estabelecida por lei para a reforma daqueles que não sofrem de coisa nenhuma, tendo regressado por isso às suas origens.
Como não era ex-director bancário, ex-ministro, ex-secretário de estado, nem ex-de qualquer coisa e a quem dão umas reformas chorudas e indemnizações de vulto, sentiu necessidade de arranjar um qualquer emprego compatível com as suas competências e possibilidades, para angariar mais alguma coisa para o sustento da sua casa.
Procurou e lá conseguiu arranjar um “ganchito” numa empresa de limpezas, como ajudante de lavador de alcatifas.
A coisa não corria mal, o Coelho mais o seu chefe faziam uma boa equipa, executavam os trabalhos com perfeição e a entidade patronal estava contente por contribuir para a resolução de um problema humano, ocasionado pelas reformas de miséria que os portugueses têm, quando extenuados ou incapacitados já nada mais podem dar à sociedade.
Na estrada que liga Braga a Vieira de Minho, um empresário da noite montou um bar na garagem de uma sua vivenda, tendo efectuado alterações no piso superior, enchendo-o de quartos, todos com lavatório e bidé dentro dos roupeiros, de forma a que cada um deles tivesse a sua independência dos wc comuns. Mandou vir do Brasil, por atacado, uma boa dúzia de moças já com a rodagem efectuada, algumas delas já com vários Km em cima da pele, outras com revisões atrasadas e algumas nem sequer tinham efectuado a última inspecção no Centro obrigatório. Chamou-as de alternadeiras e na realidade elas alternavam com os clientes no consumo de bebidas e nas visitas que faziam aos quartos, na prática de prostituição.
Os clientes eram na maioria dos casos gente do campo que usava botas grossas por causa da sua profissão na agricultura. Homens que passavam o dia a trabalhar no duro, cujo suor corre do rosto e que ao fim do dia, sem sequer lavarem a cara, os sovacos e mais alguma coisa, se encobriam dos amigos para não serem conhecidos, escudando-se na luz vermelha da garagem, tornada sala de convívio e bar.
As alternadeiras, com roupa que na maior parte das vezes somente tapava desde a cintura para cima e até um pouco mais abaixo das mamas, lá se entrelaçavam no “gentio” no sentido de o “esmifrar” com o consumo de umas bebidas e umas visitas ao piso superior, para que satisfizessem as suas necessidades sexuais, pagas a peso de ouro. O fumo era mais do que muito, pois toda a gente fumava, aliado ao cheiro das perfumes baratos que elas usavam e daqueles que eles não usam, mais uma vez ou outra com bosta de vaca agarrada ao salto das bota cardadas, já gastas na calçada do sobe e desce de Vieira do Minho, Póvoa de Lanhoso, etc., tornava irrespirável o ar na garagem com porta basculante de ferro e sem janela.
A empresa de limpezas onde o Sebastião Coelho prestava o seu novo trabalho foi contratada para fazer uma lavagem de alcatifas aos quartos do piso superior, tendo havido o cuidado de chamar a atenção do orçamentista para não ser aquele serviço executado por mulheres e que o seu inicio seria a partir das 8,30 até à 16 horas, altura em que o bar abria ao público.
Tudo assente, dia combinado e a empresa no sentido de ter um melhor rendimento em tempo horário, manda l homem que trabalharia com a máquina de lavagem, outro para o aspirador e o Coelho para ajudar a mudar móveis e acarretar água para a máquina rotativa.
Àquela hora da manhã, ver as brasileiras a saírem do quarto, mulheres que se teriam deitado, aí por volta das 4:30, 5 horas, era desolador. Desgrenhadas, ramela ao canto dos olhos, pijamas a faltar botões e barrela, sem terem sítio para se acolher, bocejando pelos cantos, resolviam meter-se na casa de banho, 3/4/5 e assim que os quartos ficavam prontos, voltavam para os seus aposentos de forma a dormirem mais umas horitas.
O trabalho corria sobre rodas e o Coelho ia numa azáfama à casa de banho buscar água com o regador para dar vencimento ao homem da máquina. O que parecia correr bem, também tinha os seus escolhos. A casa de banho estava ocupada, ouvia-se o barulho do duche, obrigando o pobre coitado com os nós dos dedos a bater à porta. Compasso de espera, porta escancarada e pedido de desculpas para encher o regador. As “donas”, enchiam-no entregavam-no e o homem da maquina esvaziava-o imediatamente e pedia mais, mais e mais. Igual a tanta correria a caminho da casa de banho, só o coelho da “duracell”, mas esse como sabem trabalha a pilhas, que este Coelho não tinha.
Era uma cena irreal só apresentada em filmes italianos: as brasileiras abriam a porta completamente nuas, recebiam e enchiam o recipiente, o homem do aspirador e o da maquina, consolavam a vista a ver o espectáculo e o Coelho numa roda viva a levar e a trazer o regador.
Até que, numa pausa momentânea, o colega trabalhador do aspirador, pergunta assim:
Então senhor Coelho, que tal a paisagem? Qual paisagem, se nós estamos aqui e não vimos nada lá para fora? Homem, o material aí nu na casa de banho! Qual material nu? Risada forte e feio. É que o Coelho, coitado, sempre que a porta se abria ficava com os óculos completamente embaciados e não via nada, fazendo maquinalmente todas aquelas operações; todavia, pelo sim pelo não, tirou-os e o resultado foi o mesmo, o “metil” tinha feito os seus estragos.
Desgraçado de quem não vê, mas também tem uma vantagem: coração que não sente.
Era e ainda é um homem puro, por quem tenho admiração e amizade e sempre que o vejo não perco a oportunidade de dar uma boa risada à custa daquela cena.

11.2.08

Préstimos à disposição


Numa das empresas onde trabalhei, e que por sinal até já deu origem a um outro conto já descrito neste blog, passou-se esta cena que poderemos considerar comédia/trágica.
Os Sócios-Gerentes da empresa, casados e com filhos mais ou menos da mesma idade, eram bastante comunicativos com os trabalhadores, ao contrário dos actuais que têm o rei na barriga e não chegam aos calcanhares daqueles.
Os filhos dos Gerentes visitavam as instalações fabris, chegando mesmo a brincar em correrias próprias da sua idade num grande armazém onde estavam guardadas todas as matérias-primas.
O Fiel de Armazém, Maneças de seu nome, rapaz solteiro, senhor do seu nariz, tinha sempre aquelas instalações impecavelmente limpas e as escritas sempre em dia, de forma a não merecer qualquer reparo que consideraria depreciativo na execução das s/ funções, tinha como ajudante um ex-servente da construção, pessoa muito versátil, mas que devia ter qualquer bolha de água na “tola”, de nome Manuel Bolota.
A empresa representava variadas marcas e entre ela a da Sonap (sucessora da Sacor), chegando mesmo a ter para o abastecimento das viaturas uma daquelas bombas manuais, tipo garrafão de vidro de 2x5 litros, que já não se usam e de que já poucos se lembram.
No referido armazém existia daquela marca, bidons de 200 litros com Gasóleo e massas consistentes para a lubrificação das várias máquinas existentes na fábrica.
Um dia, ao passar por lá, deu-me a “pancada” e acrescentei à palavra Sonap que estava escrito num dos bidons, “eida”. Uma das meninas filhas de um dos patrões, aí na casa dos 15/16 anos fez queixa ao papá, que levou por sua vez o caso a reunião de Gerência. Nunca ninguém soube quem tinha sido a inteligência que escreveu aquele horror, mas lá que o Maneças apanhou uma rabecada tremenda, isso apanhou.
O Bolota, para ganhar mais uns tostões, arranjou um “part time” como coveiro no cemitério municipal lá da terra e, como era jeitoso para a execução daquele serviço, foi convidado para ficar definitivamente.
Era conhecido na terra por ter trabalhado na tal empresa como ajudante de fiel de armazém e depois passou a ser conhecidíssimo, porque abria as covas, segurava nas cordas, dava as ordens para as descidas das caixas, as primeiras pazadas, arranjava e limpava as campas e finalmente colocava os arranjos florais. Com tanta dedicação acabava por fazer um ordenadão, tal era a quantidade de “gorjas” que recebia.
E aliado a tudo isto, quando alguém se despedia desta para melhor (?) e que era necessário fazer autópsia, o médico chamava-o, quando preciso, e ordenava “corta aqui e corta ali”.
Ninguém sabe o que teria passado pela “mona” do Bolota, mas estando eu numa tipografia a mandar fazer uns trabalhos daquela especialidade, o dono da mesma mostrou-me um papel onde o Bolota requisitava cartões de visita, indicado-o como Médico–Autopsiador, Coveiro, Representante da Agencia Funerária “O Sono Eterno” e Artista em arranjos de flores para campas (ia ser um cartão digno duma moldura digital). Como o tipografo lhe chamou a atenção, dizendo que não podia fazer os cartões porque ele não era Médico, o homem resolveu imediatamente a questão, substituindo a palavra Médico por Ajudante de Autopsiador.
Por estas explicações podem confirmar quanto o homem era versátil e como se adumava a qualquer situação.
Certo dia, o filho de um dos Gerentes da empresa de onde o Bolota tinha sido transferido, ao tomar banho, ficou intoxicado por ter inalado os gases queimados do esquentador que estava instalado na casa de banho, tendo ido de “charola” com toda a urgência para o hospital.
O Alvoroço foi enorme, a notícia correu célere pela povoação e a preocupação por um desenlace fatal atormentou toda a gente da região.
Pela noitinha e ainda antes da mãe do moço saber qualquer notícia do que se estava a passar no hospital, e portanto com o coração apertado e a sofrer de uma angustia asfixiante, batem à porta, a senhora abre esta e vê o Bolota vestido com a farda do trabalho e com o boné da Câmara Municipal enfiado na cabeça; aflita pergunta-lhe:
Queria alguma coisa?”, obtendo esta resposta: “Minha senhora, venho apresentar os meus préstimos; se necessário estarei às vossas ordens para o que for preciso e a qualquer hora”.
Muito obrigado pela sua atenção. Já agora diga-me quem é o senhor, para eu dizer ao meu marido”. “Sou o coveiro; aqui do cemitério”.
Resultado: a mãe do moço foi com “chelique” para o Centro de Saúde local. O rapaz salvou-se e o Bolota, como o ex-patrão e pai do intoxicado era também vereador na Câmara, recebeu um bilhete de comboio para ir à sua terra apanhar bolota, mas sem direito a retorno.
Nesta terra, não se pode ser prestável, nem naquele tempo havia processos disciplinares.

28.1.08

Comer no mantel

Um dia - e já lá vão mais de 24 anos - alvitrei à minha cara metade para fazermos uma visita à Galiza, fomos e ficamos apaixonados à primeira vista. As paisagens das rias em conjunção com as belezas feitas pela mão do homem tornam a Galiza maravilhosa e fazem apaixonarmo-nos por ela.
Eu, a viver no Norte já andava farto de ir a Esposende, Ofir e Apúlia, apanhar vento todo o dia em pleno verão, vejo-me de repente nas praias do Samil em Vigo, América perto de Bayona, Cangas do outro lado ria, Sanxenxo, Raxó, Paxarinhas, estas já na ria de Pontevedra e finalmente a ria de Arosa, em todo o seu esplendor com O Grove e a ilha de A Toxa (la Toja) e fico extasiado.
A ria estava com a maré baixa e centenas de pessoas apanham bivalves para uns baldes e sentimos ganas de fazer o mesmo. Mais tarde soubemos que não era possível; aquela apanha era o trabalho de grande parte da população, seguindo depois aquele marisqueio para as depuradoras antes da venda nos mercados.
Aprendi como se apanha, trata e comercializa para todo o Mundo a riqueza do marisco da Galiza, que tanto tem contribuído para o desenvolvimento daquela região.
Em O Grove, comprei um piso (apartamento) novo e portanto a partir daí comecei a desfrutar daquelas maravilhas. Criei novos amigos, amizades que ainda hoje perduram e a pouco e pouco fui esquecendo Lisboa e a necessidade de vir matar saudades. Nesta altura sou eu que vivo ruído delas, pelos momentos inolvidáveis que lá vivi com a boa gente que encontrei e conheci.
Besada, nome de um desses grandes amigos, convidou-me certo dia de semana para almoçar com ele, tendo escolhido um dos melhores restaurantes da povoação, propriedade de um seu amigo e conterrâneo. Na época baixa e aos dias de semana o movimento é reduzido, consequentemente os restaurantes trabalham a 1/5 do seu movimento de fim de semana. Entrámos e encontravam-se já 2 casais (por sinal de portugueses) a almoçarem cavaqueando entre si. Todas as mesas do restaurante estavam postas para a eventualidade de aparecerem clientes e quando prontas para utilização têm normalmente dois pratos sobrepostos. Escolhemos uma mariscada, uma garrafa de Conde Albarrei, “albarinho” galego, bebemos um copo, petiscámos o pulpo à Féria e esperámos pelo prato forte para um repasto bem regado.
A mariscada era tão farta que daria aí para 5 pessoas, portanto era arregaçar as mangas e avançar para a sua degustação. Pedimos nova “botella” de C. Albarrei e preparamo-nos para a refeição que prometia.
Tenho por hábito, quando como alguma coisa que é necessário tirar as cascas, sacar estas e depois tranquilamente comer de faca e garfo, foi o que fiz, tendo-me acontecido esta faceta. Descascava e fazendo divisão no prato colocava o interior de um lado e as cascas noutro tendo ficado como será óbvio com o prato completamente cheio. Portanto maquinalmente levanto o prato de cima e passo para o de baixo a parte que iria comer colocando o prato desnecessário na outra mesa que estava ao meu lado direito e que não tinha clientes.
O amigo Besada chama-me a atenção de que disponha de pratos na mesa ao lado, e que poderia tirar um, dizendo-lhe eu que não era necessário e estaria bem assim.
Admirado, diz: “Preferes comer no mantel, pois bien”. Pego na faca e garfo e fico perplexo, como foi possível eu não ter visto que tinha passado a comida do prato para a toalha. É que de todos os lugares do restaurante, o meu era o único que tinha só um prato. Dei uma valente gargalhada e o meu amigo tal como eu, bem bebido e ainda mal comido, chamou o dono do Restaurante para ajudar à sua festa. Quando acabamos e pretendiamos uma sobremesa, pedimos morangos com natas. O patrão, lamentou mas informou que natas não tinha e então o Besada chama-lhe a atenção para o facto de nunca se dizer que não há, mas de uma maneira tão enérgica que o homem ficou desorientado e foi buscar natas em lata tipo spray e com a atrapalhação rebentou com o bico por onde as natas deveriam sair.
As natas começam a sair com toda a força do recipiente onde estão sobre pressão e, meus queridos, o Besada, este vosso amigo, os outros 4 clientes, os candeeiros, as mesas cadeiras, paredes, eram um mar de natas que só acabaram de ficar cobertas quando se esgotou a lata.
Os clientes, com a cabeça e fatos todos salpicados de branco a fazerem lembrar árvores de natal, onde só faltavam como decoração umas bolas penduradas nas orelhas e umas luzinhas a acender e apagar com um presépio aos pés, não sabiam o que fazer.
O dono do restaurante completamente em pânico pergunta-nos: e agora? Saindo-se um dos outros 4 clientes com um olhar assim mais para o lado de lá do que para o de cá, a fazer jus à qualidade do “albarinho gallego”, com esta resposta.. Agora, bate chapa e tinta Robbiallac!
Só nós, portugueses, conhecíamos o anúncio. Saí e deixei-os a tentar solucionar o problema das tropelias que eu tinha iniciado, colocando a mariscada no “mantel”.

14.1.08

Mistérios de Lisboa

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Lisboa é uma cidade conhecida mundialmente. Lisboa tem recantos especiais só conhecidos de alguns e os bairros onde existem Vilas são tão acolhedores como misteriosos e os lisboetas sentem-se orgulhosos deles.
Mas Lisboa, esta linda Lisboa, a Lisboa dos meus encantos, onde estudei e onde me fiz homem, também tem facetas que 99% delas nunca são contadas.
Vai para 30 anos, o Baptista, Baptista com p, não para dar cunho à personalidade em que esta história assenta, mas porque era mesmo assim o seu nome. E como ele gostava que lhe chamassem Bapee..tista, então a coisa vista pela minha óptica ainda se tornava mais engraçada e até caricata.
Não há ninguém que não saiba que em todas as grandes cidades existem moças de engate, que deambulam pelas ruas para cá e para lá à espera de que apareçam clientes, fazendo estes das suas viaturas pensão, talvez por ser mais barato ou se sentirem em maior segurança.
Os homens, nas suas conversas entre amigos, afirmam sempre que engataram uma gaja boa como o milho etc. e tal, quando na realidade os engatados são eles e a qualidade do milho nunca dá para fazer uma boa farinha, dada a quantidade de bicho com que está contaminado.
O Baptista era homem aí de 28 anos, casado com uma mulher cuja cara metia medo ao susto, trabalhando ambos num grande armazém que foi demolido para dar origem à Expo 98; tinham 2 filhos em idade escolar, tendo sido sempre pela vida fora um “pinga amor” pelo sexo feminino.
Gostava de se pavonear e sentia-se “galo” onde havia mulherio, não passando de um “galito”, porque era baixinho e usando um bigode farfalhudo que lhe dava um aspecto pesado.
Pois o nosso Baptista foi engatado por uma das “Ramelosas” que pela nocturna batem a zona do Conde Redondo. Segundo ele, ela parecia a Silvana Mangano, artista de cinema italiana, só sendo pena ter os dentes cheios de cárie e um cabelo que pelo uso exagerado de oxigénio tinha uma cor esquisita, mas atendendo a que o preço era de saldo não seria mau negócio, ainda mais pelo facto de a “virada” já ter imposto de transacções incluído (ainda não havia o IVA).
As “queridas” não gostam de se ausentar para muito longe da sua área de intervenção e normalmente são elas que já conhecem os sítios “bacanos” e seguros onde os actos se vão desenrolar.
Quem sobe a Avenida António Augusto de Aguiar, vindo da Avenida Fontes Pereira de Melo, no lado esquerdo e pegado com o Banco Português do Atlântico, agora com o nome pomposo de Millennium e que tanto tem dado que falar ultimamente, existe uma entrada em túnel por debaixo dos prédios, formando lá dentro um pátio que serve de estacionamento para os moradores daquele bloco habitacional e dos da sua paralela Avenida Sidónio Pais, visto o dito pátio ser as traseiras das duas.
Pela sequência dos factos ocorridos com o Baptista naquela sua primeira e única visita ao local, admito que os moradores já deveriam estar fartos de terem no seu espaço visitas que consideravam indesejáveis e que era necessário pregar-lhes uma partida de forma a afugentá-los definitivamente.
O camarada Baptista tinha acabado de comprar um BMW em segunda mão, mas em muito bom estado e descapotável, carro que era cartão de visita para uma conquista. Claro que no caso actual, tanto fazia ser um BMW, um R4 da Renault, ou um Fiat 500, porque não eram os encantos da viatura que conquistava a tal pseudoSilvana, mas sim as duas ou três “milénias” que ele levava na carteira. Mas para o Baptista, sentado ao volante de um BMW, sempre acabaria por lhe dar um estatuto de pessoa importante. Seguindo as instruções da “pequena”, dirige a viatura à A.A.A ,entra no túnel, estaciona num canto e, comentando com a companheira que efectivamente era um local estupendo, acciona o botão eléctrico para fechar a capota da viatura e, ainda antes de esta se mover, começa a cair-lhe em cima, sacos de lixo, frutas podres, pés de couves ainda com as areias agarradas, lâmpadas, cabeças de peixe cru… Enfim, toda a espécie de lixo domestico que os moradores dos prédios, cujas janelas estavam por cima, lhe atiravam, ficando mesmo um talo de couve entalado no engate do fecho da capota, que impedia o seu encerramento total.
O Baptista, atrapalhado, com o motor do carro já desligado, ao receber a descarga de todo aquele material bélico, tenta deitar a cabeça de fora para ver de onde vinha tamanha ameaça, mas passa-lhe em frente ao nariz a cabeça de um peixe espada, com os dentes afiados como agulhas, que se lhe acertava ficava com o apêndice nasal pior do que se tivesse passado por uma máquina de tricotar.
Só havia uma solução: era fazer o papel de “cobardolas”, meter o rabo entre as pernas ir embora e nunca mais lá voltar.
A “Silvana”, impávida e serena mas provavelmente perdida de riso, dizia-lhe que nunca lhe tinha sucedido uma coisa daquelas naquele local (pudera, estava guardado pró Baptista) e exigiu o dinheiro da consulta; o Baptista, que se tinha metido naquela guerra e já tinha perdido a primeira batalha, antes de iniciar a segunda optou pela via diplomática, tendo conseguido um pequeno desconto atendendo a que o objecto a alugar, fruto do contrato verbal, nem sequer o tinha visto nem usado.
Levou o carro a uma estação de serviço para o lavar por dentro e por fora, mas o seu interior ficou durante alguns dias com aquele cheiro nauseabundo que o lixo retardado deixa.
Passadas que foram uma ou duas semanas, o Baptista, ainda extremamente aborrecido, encheu-se de coragem e contou-me a aventura; quando eu lhe perguntei se as lâmpadas que lhe atiraram era fundidas ou boas, pergunta-me assim: Para o caso o que é que isso interessa?
Cheio de gozo, respondi-lhe a sorrir que se fossem das boas poderiam vir acesas e ele assim teria tido a possibilidade de verificar de onde vinha o ataque.
Arrependeu-se de me ter contado e esteve 4 anos sem me dirigir a palavra.
Coitados dos Bapee..tista, desta Cidade.
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(qualquer dia atrevo-me a contar outra do Baptista, lá prós lados de Carcavelos)