
Estava entretido a preparar o texto para apresentar neste blogue, quando pela madrugada oiço um programa de rádio, que me fez lembrar esta situação, que pela sua graça e desespero do meu progenitor não posso deixar de contar.
Em 1942 a II Grande Guerra Mundial ainda não tinha terminado, os plásticos também ainda não tinham aparecido, e a televisão nem sequer era uma miragem, as novidades estavam em baixo e sobre a última moda, o "cabecinha pensador" estava atrasado. Os alemães da "Gestapo", usavam umas gabardinas com sinto pela cintura e nos filmes de guerra que nos apresentavam eles eram o terror das populações dos Países ocupados.
O Zé tinha acabado a 4ª classe, foi matriculado na Escola Comercial de Veiga Beirão, situado no Largo do Carmo, bem perto da GNR, separado apenas pelas Ruínas do Convento do Carmo, da linha do eléctrico que iniciava ali uma carreira, no acesso a0 ascensor de Santa Justa. Ainda recordo o preço do bilhete para utilizar o ascensor $10. Como o meu percurso seria, Cais do Sodré, rua do Alecrim, Largo Camões, Largo Trindade Coelho, largo do Carmo, usava-o pouco. Para vir à baixa, descia a Calçada do Sacramento e poupava um "tostão" que não tinha.
O início das aulas era em sete de Outubro, pelo que uma semana antes, meu pai leva-me à cidade para comprar um casaco de forma a apresentar-me com a dignidade que o acto merecia.Estão a pensar onde teria ido comprar o casaco, já que as casas de pronto a vestir ainda não tinham abertas as suas portas? Pois enganem-se meus amigos/as, em Lisboa já havia casas de pronto a vestir, especialmente no Largo de S. Paulo. Ali havia centenas de casacos pendurados nas ombreiras das portas e nos seus interiores.
"Prontos a despir" também havia muitas, bem perto por sinal, na rua da Boavista e se, se apanhasse o elevador da Bica, chegávamos rapidamente ao Bairro Alto onde o negócio do "pronto a despir" era próspero e de preços variados para todas as bolsas. « são outras histórias em que o Zé se viu envolvido e a contar oportunamente».
Meu pai trata de escolher o estabelecimento habitual fornecedor da nossa casa "real". Experimentei três ou quatro casacos, foi acertado o preço e regressamos ao palácio, felizes e contentes com a compra que foi efectuada.
Iniciam-se as aulas e o Zé garboso de calção e com o seu novo casaco, marchou a caminhos de novos horizontes. Mas o Outubro, é traiçoeiro, tanto faz frio, calor, sol ou chuva e dois dias depois de ter estreado a "farpela nova" chove torrencialmente. Qual quê? O Zé tem lá medo da chuva e como nunca foi moço de ficar incomodado com um pingo de água pelas costas abaixo, mete-se a caminho. Quando entrou na camioneta que de Cacilhas o levada de regresso a casa, parecia aquilo a que se chama, depois de uma boa molha "Um Pinto". Entro em casa, e a mãe Júlia, quando olhou para o menino dos seus olhos, pergunta. Zé que te aconteceu às mangas do casaco? Meu Deus, que triste figura. O forro chegava até ás mãos, mas a fazenda das mangas pouco passavam dos cotovelos. Senti dificuldades ao despir e em baixo nas costas o forro também estava maior do que o casaco. Tudo tinha encolhido com a água da chuva.
À noite, o meu pai ficou desesperado e logo ali resolveu ir comigo no outro dia discutir a situação, porque teriam que me dar outro casaco, segundo a sua opinião.
Ele bem barafustou com o comerciante, mas este disse-lhe assim. Então o rapaz andou à chuva!Mas então para que lhe comprei eu o casaco, retorquiu, meu pai. O casaco comprou o senhor, para o moço se proteger do frio, porque para a chuva temos nós aqui inúmeras gabardinas.
Tudo fica bem, quando acaba em bem. Desataram os dois a rir e eu a ver que não tinha o problema resolvido, ficava sem o casaco e sem uma gabardina tipo "gestapo". Afinal a casa fez um desconto e o Zé em novo dia de chuva estreou também uma gabardina impermeável.


































