15.6.09

SE DEUS QUISER



Como é que alguém que não faz nada tem lata para dizer que está de “vacances”?



O Zé é católico como a maioria dos portugueses, o Zé respeita a religião cristã como a maioria dos portugueses, mas o Zé também não frequenta a igreja como a maioria dos portugueses.
No lugar onde nasci não havia igreja e ainda hoje ela não existe, embora o sítio já faça parte integrante de uma cidade. Claro que sim. Sou baptizado e tenho orgulho nisso, mas não tivesse sido uma conterrânea a pegar pela mão uma vintena de rapaziada e levar-nos à molhada à igreja, pedir ao padre para nos baptizar, decerto estaríamos todos no rol dos renegados de Deus.
Fiz esta introdução para compreenderem as razões porque, respeitando-a, vivi sempre com indiferença perante e com a igreja. Uso, também como grande número de portugueses, um fio de ouro ao pescoço, onde está pendurado uma cruz com um Cristo crucificado e, nas horas dos apertos, me venham à lembrança todos os Santos dos Céus.
Já não recordo há quantos anos isto se passou. Garanto-vos todavia que foi há muitos, muitos mesmo, aí para 50.
Tinha um “Ford: Anglia-Fascinante”, viatura conhecida pelo “Ora Bolas”, e um dia chegou a hora de o mandar às urtigas e trocar por outro também da Ford, mas mais potente, airoso e mais a meu gosto.
Em Setúbal, no “Stand” da marca fiz o negócio, mandei ajeitá-lo à minha maneira, peguei nele e coloquei-o na garagem.
Nessa noite, enquanto jantava com meu irmão e a mãe Júlia, disparei a noticia, desta maneira:
Mãezinha, comprei um carro novo e no próximo Domingo, como de costume, vamos a Fátima. Tendo ela retorquido: “SE DEUS QUISER”.
Não, mãe Julia, o carrinho está na garagem e quer Deus queira, quer não queira, no próximo Domingo a ida a Fátima é uma certeza.
O meu irmão, único e mais velho, aproveitando a embalagem anuncia que também iria, levando a sua mulher e filhos, e que levaria comida para todos. Portanto, perspectiva de um pic-nic em cheio.
No Domingo aprazado, a família “Quincoces” estava pronta para ganhar a batalha do asfalto, visitar Fátima, pagar alguma promessa e inaugurar o conta-km, daquele que eu tinha destinado para ser meu companheiro de aventuras durante alguns anos.
Cheguei pelas 9 horas e os poucos mais do que 100 km do destino final não se faziam como agora, numa correria desenfreada pela auto-estrada.
Meu irmão no seu “carocha” esperava-me ansioso, a mãe Júlia coloca uma manta sobre os joelhos, o meu pai senta-se ao meu lado (que era isso de cintos de segurança nessa altura?), meto a chave na ranhura, dou à ignição, ponho o motor a trabalhar, meto a primeira velocidade, e… (que se passa meu Deus…) o bólide dá um ultimo suspiro, foi-se abaixo e finou-se naquele momento. Trabalhar não era com ele e andar… zero, tal e qual um burro teimoso. Entro em desespero, salto com raios e coriscos, faço mil tentativas e o resultado foi sempre o mesmo. O filho da mãe do Ford, não respondeu perante tantas insistências. Ali paradinho, no mesmo local onde eu julgava que se ia iniciar a viagem do seu baptismo.
A mãe Júlia, impávida e serena, com a sua cara cândida, olha-me nos olhos e diz assim: “Se Deus quiser, meu filho, se Deus quiser".
No outro dia pela manhã, um pronto-socorro encarregou-se de o levar de volta para Setúbal e no Domingo seguinte lá se realizou a viagem a Fátima, sem o brilhantismo desejado, pois os nossos corações batiam de forma diferente…
.

1.6.09

O Vendedor de Peixe



O Peixeiro era um homem de trabalho, sempre correndo atrás do seu burro, numa azáfama constante.
Dedicava-se à venda porta a porta de peixe que ia buscar a Sesimbra, na luta pela vida que poucas vezes lhe sorria.
Calcorreava diariamente os largos km que separavam a sua terra natal daquele vila piscatória, que nesta altura está transformada numa das mais afamadas estâncias turísticas da nossa terra.
Chegava sempre cedo na ânsia de assistir aos primeiros pregões da lota, que na altura era efectuada em plena areia da praia, ali ao lado da Fortaleza. De quando em quando, lá se ouvia a sua voz para arrematar uma parcela, sempre prejudicada por alguém que se lhe adiantava. Negociava portanto com quem se adiantou, ocasionando por isso mais um pagamento de intermediário que, não sendo pescador, estava sempre à coca de ganhar a vida à custa de outros.
Não sei se os meus visitantes alguma vez apreciaram aquela lota, aquele movimento.
Pela noite, os barcos a chegarem da pesca, vindos directamente ao areal. A descarga do peixe que, na hora, era imediatamente separado e colocado um a um sobre montinhos de areia para apreciação. O peixe-espada de Sesimbra, com a sua cor prateada, os pargos, os robalos, os chocos em celhas de madeira, o imperador, as lulas, espectáculo inolvidável.
A cantilena do pregoeiro leiloando os quinhões e os burros que esperavam pacientemente pelos seus donos, para depois alongarem com as caixas do pescado no seu regresso às origens para fazerem a venda às primeiras horas do dia.
Digo-vos que sou um dos felizardos ainda vivo que assisti a tudo quanto acabo de narrar. Jamais se poderá ver outra vez tamanho beleza.
Então o peixeiro corria, espicaçava o jerico na tentativa de chegar primeiro do que outros concorrentes da mesma região e que também se dedicavam àquele comercio.
O Miguel, assim chamava ao quadrúpede, estava velho, o cabelo já estava a ficar russo e demonstrava algum cansaço.
Um dia, num Domingo, o burro do peixeiro livre das caixas do seu fadário, pastava no sem quintal tranquilo quando o dono, usando palavras mais ásperas resolveu ir ao mercado de Coina vender o animal. Não sei se este teria percebido a trama que lhe era preparada, mas como não tinha remédio nem vontade própria lá foi, para onde Deus quisesse.
Nos mercados, a ciganagem são os reis e senhores do negócio da burricada e portanto sempre aparece alguém para fazer um negócio, oferecendo pouco, dado aquela carcaça velha já não ter mais para dar ao seu dono. Iria acabar, decerto, no Jardim Zoológico servindo de petisco aos leões.
O peixeiro, ao ouvir estes comentários desfez-se por tuta-e-meia de quem o tinha ajudado uma vida inteira.
Almoçou numa das barracas desmontáveis da feira e resolveu ir procurar outra animal para substituição do Miguel.
Aproximou-se de outro grupo de ciganos e, fazendo escolha, encontrou um do seu agrado. Estava tosquiado, tinha desenhos no lombo, lavado, parecia jeitoso. Perguntou o preço e arrepiou-se; a venda de um não dava para pagar o outro. Teve por isso de desembolsar forte maquia.
Negócio fechado, lá marchou de regresso a casa com o seu novo companheiro da árdua luta.
Tratou de lhe pôr nome e, para esquecer mais depressa o Miguel, chamou-lhe Jeremias.
Perto de casa, parou para falar com um amigo e contar-lhe o seu negócio. Largou a reata e o Jeremias partiu sozinho a caminho do palheiro.
O homem do peixe ficou surpreso, observou o Jeremias melhor e chegou à conclusão que comprou pela tarde o Miguel que tinha vendido pela manhã.
Os ciganos tinham-no tosquiado, fazendo uns desejos no corpo, uma trança no rabo, lavado, parecia mais novo. Não sei como a coisa acabou, pelo menos que eu saiba não foi à conservatória alterar o nome do bicho…
.

19.5.09

O gato da vizinha



Que saudades tenho dos tempos em que era criança. Que saudades dos tempos em que não me ralava com nada. A única preocupação que tinha era inventar alguma coisa para brincar e ter companhia para essas brincadeiras.
O tempo das alpercatas com sola de corda, da bola de borracha, da de couro com uma bexiga de porco lá dentro e aquela deixava de ser redonda.
Do tempo em que o vinho era comprado em garrafas que levávamos às tabernas e trazíamos a quantidade que queríamos, consoante o dinheiro disponível.
Nesta altura tudo é diferente e até o vinho já nos aparece em casa, trazido por um carro cheio de publicidade a várias marcas do precioso “néctar”, comprado através da net.
Os recipientes de vidro com a continuação de meter vinho lá dentro, vinho que saía do tonel ou do barril, sem passar pelas maquinas depuradoras como existe agora, criava como é evidente uma sujidade na base interior junto ao rebordo.
Claro que era preciso de quando em quando fazer a sua limpeza, usando as pessoas as mais variadas imaginações para conseguir os seus intentos.
Uns colocavam areia lá dentro com água e agitavam, outros usavam sal e alguns até chumbos de cartuchos de caça. No fundo, o que se pretendia era a sua limpeza.
O António Catarino, nome da personagem deste conto, não fugia à regra e primava pela limpeza da sua “botelha”, fazendo mesmo alarde de quando ia à adega de meu pai, a sua ser a mais limpa, a que mais reluzia.
Era caçador e portanto tinha à mão os chumbos milagrosos com que mantinha a sua muito mais limpa do que a dos outros.
Certa vez, passou uma boa hora a fazer a limpeza semanal e quando o vidro estava límpido, transparente, dirigiu-se à adega que era bem perto da sua casa, não tendo reparado que ficaram lá dentro algumas bolinhas de chumbo, tendo mandado encher o garrafão com cinco litros do tinto.
Já noite, jantou, “mamou” uma quantidade do copos que fazia parte da sua satisfação plena e duas ou três horas depois sentiu-se mal, sentindo a cabeça a andar de roda as pernas sem poderem com o peso do corpo.
Atribuiu aquela má disposição ao vinho bebido e, portanto, tratou de procurar a casa de meu pai para lhe dar conta da sua insatisfação pelo vinho que tinha levado.
Toca o badalo do portão, o meu pai descansava no primeiro andar da habitação e o Catarino desata a chamar com voz bem alta.
Sr.Antonio, Sr.António, chamou em voz alta. Foi ouvido e reconhecido. O António salta da cama abre uma das janelas da casa e perguntou. Catarino, que queres tu a estas horas?
- Sr. António, o que é que você pôs no vinho hoje?
- Nada Catarino, que havia de lhe pôr?
- Pôs, sim senhor, pôs alguma coisa. Diga lá o que é que pôs.
Não estando para aturar bebedeiras, o António, meio aborrecido, visto ter reparado que ele estava com grão na asa, perguntou:
- Catarino, qual a razão porque dizes isso?
- Sr. António, depois de beber, senti-me mal, vim à rua, dei um «pum» e matei o gato da vizinha.
Pobre Catarino, que o seu “Deus” o tenha em bom descanso, porque mesmo bêbado humor não lhe faltava.
Tinham-lhe contado aquela anedota e como usava chumbos para limpar as suas garrafas quis ao vivo brincar com o meu pai.
.

4.5.09

Carnaval nas Belas Artes


O Zé com o seu grupo “Os Lacinhos” no Carnaval das Belas Artes


Fui sempre um entusiasta pelo carnaval. Tinha parceiros fixos e habituais para brincadeiras carnavalescas. Quando chegava a época, o Zé e os seus pares escolhiam um local de diversão e partíamos de abalada para uma noite de rebentar o balão.
O traje era o de ocasião, conforme o local e a “faena”. Ficar a ver passar o Carnaval ao meu lado sem procurar fazer parte não era coisa para o meu feitio.
O ano já não recordo, sei que já passou muito tempo, talvez no princípio dos anos 50. Era cantor de moda o Alberto Ribeiro, que foi protagonista com Amália Rodrigues no filme “Capas Negras”. Aquela voz partia os corações mais empedernidos das moçoilas. «Coimbra é uma lição de fado e tradição» e o trinar da guitarra arrastava multidões para junto das telefonias. A televisão ainda não tinha chegado. Mas o gosto de me divertir pelo carnaval, esse, tinha-me chegado desde pequeno.
Que havia nesses tempos para a juventude? Enumero o que não havia e já me basta.
Não havia droga, não havia bares nocturnos para a juventude se perder, não havia tantos subornos, assassinatos, roubos de automóveis (também não havia carros, como agora), assaltos de rua e tantos impunes. Como tenho saudades desses tempos, presumivelmente é por isso que recordo aqui esta passagem carnavalesca.
No sitio onde nasci e vivi até aos 30 anos, existia um grupo de 14 rapazes todos amigos e conhecidos dos tempos da instrução primária. Uns cujos seus pais tinham posses e outros não tanto, mas amigos do coração. Poderíamos mesmo chamar a esse grupo os 14 mosqueteiros, porque o lema era um por todos e todos por um.
Entre eles não posso esquecer o Matias, porque além de não ter pai e mãe desde pequenito, vivendo portanto um mês em casa de cada irmão e com dificuldades financeiras de tal ordem que o impossibilitava de nos acompanhar, nunca deixou de o fazer, porque os gastos que lhe seriam atribuídos eram liquidados por todo o restante do grupo.
Tinha ainda a agravante de ser extremamente míope e gago. Os seus óculos pareciam o fundo de um copo de “três” daqueles das antigas tabernas.
Quando as suas cangalhas (óculos) de plástico e a que se chamava de tartaruga se partiam, era uma delícia apreciar o Matias sem ver e a gaguejar (era um espectáculo).
A maioria tocava “banjo” e um tocava viola, enquanto os outros com caixas de costura da Singer (as meninas iam tirar o corte àquela empresa), com garrafas de vinho do Porto dentro, faziam uma orquestra de primeiríssima qualidade.
O Alberto Ribeiro organizou uma festa de carnaval nas Belas Artes, em Lisboa, e como aliciante tinha também os palhaços do Coliseu.
Comprámos bilhetes, subimos a avenida da Liberdade a pé e, quando chegámos á esquina com a Barata Salgueiro, metemo-nos em três taxis e mandámos avançar para as Belas Artes. Os motoristas ainda perguntaram por que não íamos a pé, sendo-lhes respondido que assim a nossa chegada tinha mais impacto. O porteiro de sobretudo verde e galões amarelos abre-nos a porta e nem sequer nos pediu os bilhetes da nossa mesa e de entrada, julgando que nós éramos os palhaços do Coliseu. Quando nos viram entrar, a orquestra parou à espera da nossa actuação.
Dirigimo-nos à nossa mesa, colocámos em cima dela um tacho de alumínio cheio de lamejinhas (moluscos bivalves, que especialmente se criam nos estuários dos rios Tejo, Sado e Arade, em Portimão) feitas a preceito pela mãe do Albano no fogareiro a petróleo do meu conto “O Hipólito, Castanhas e o Tinto de 3 de Novembro de 2008”, acompanhadas com Vinho do Porto e espumante tendo até o cantor da moda vindo degustar da nossa especialidade.
Foi uma noite de glória para “Os Lacinhos” (nome do grupo) e uma noite de partir o “coco” para os outros presentes.
.

14.4.09

A Loja do Cidadão


Um Instituto qualquer coisa para a Modernização resolveu proibir, na loja do Cidadão, inaugurada na Cidade que se passeia permanentemente no focinhos dos cães, o uso pelas nossas beldades, ali em serviço, de mini-saia, roupa interior preta, usar decotes, saltos altos, perfumes agressivos e não recordo se mais alguma coisa.
O referido Instituto não é dirigido por gente moderna, porque se o fosse nunca se atreveriam a dar tamanho conselho ao pessoal que vai trabalhar naquele lugar.
Numa época em que é tão vulgar aparecerem anúncios nos jornais a oferecer empregos, desde que os atributos sejam uso de mini-saia, decotes de maneira a ver-se o «piercing» no umbigo, usar saltos altos de forma a mostrar uma perna bem formosa e torneada, perfumes das melhores marcas francesas, esta notícia deixou-me preocupado.
A Loja do Cidadão, como o seu nome indica é para uso exclusivo do Cidadão e o tal Instituto impõe-se anunciando estas barbaridades. Está mais do que provado que existem neste País cidadãos de primeira e de segunda. Os de primeira, os privilegiados, dão-se ao luxo de colocar anúncios como atrás descrevo, e os de segunda, só as vêem já com a farda vestida e deprimidos por aquela proibição
Ao ser atendido naquela loja, o Cidadão, o público ainda tem de estar atento e jogar na defensivo, pois o Instituto ainda admite que possa ser atingido com um perfume agressivo.
Vai um simples homem, já tão preocupado com a falta, por exemplo, de um emprego e acaba por ser agredido com um perfume nas trombas que o deixa prostrado sem possibilidade de ser socorrido pelo INEM, pois segundo consta pelo Algarve as ambulâncias também estão pela hora da morte.
Pobre cidadão de Portugal! Tu, que sempre foste um tristonho, sem alegria pela vida, depois de ultimamente desfazerem o que restava deste canto e até a igreja há tantos anos acompanhar a missa com acordes de rock, não podes ter o prazer, o sublime gosto de apreciar aquilo que Deus fez com tanto carinho e amor. Um decote bem rasgado, uma perna linda, a que uns sapatos altos tanto favorece, uma mini-saia que te encha o olho, uma roupa interior mais sedutora e por último um perfume que te livre dos cheiros desagradáveis que fede por tudo quanto é sitio.

Ao cidadão o que é do cidadão.
.

30.3.09

O Enfermeiro “Marmelada”

.


.
Era velho, simpático, falador e trocista. O Zé trabalhou num escritório de uma empresa 16 anos, entre 50/66, ano em que foi inaugurada a ponte Salazar, hoje com outro nome.
Nessa empresa, trabalhava por conta de uma segurada o enfermeiro a quem todos chamavam “Marmelada”, mas cujo nome era Silva. Portanto já estão a imaginar que o tratamento era assim: Cara a cara, Sr. Silva para a direita, Sr. Silva para a esquerda e pela porta baixa; ó “Marmelada”, fazendo com que afinasse 30 vezes por dia. A sua arma e como vingança, era colocar alcunhas a todos que lhe chamavam “Marmelada”.
Na conformidade, não havia ninguém na empresa que não tivesse alcunha. Era “Olho de Boi, Borda de Água, Cartucheira, Esparguete, Pica Bois, Chanfrado, etc., etc., etc.”
O seu vencimento era fraquito, mas lá ia dando para viver. Quando fazia anos, normalmente de minha iniciativa fazíamos uma pedinchinha e arranjávamos sempre uns “tustos” para lhe comprar um casaco, camisa, gravata, que com pompa e circunstância levávamos a sua casa, onde vivia só, pois não tinha companheira.
O petisco fazia-o ele no seu gabinete de trabalho e era dia de festa quando a malta o convidava para almoçar.
Um dia, num estabelecimento de vende tudo (os únicos chineses que havia por cá, só vendiam gravatas pelas ruas enfiadas num pau) comprou um fogareiro a petróleo, daqueles que já fiz referencia num outro conto denominado “O Hipólito”, com intuito de fazer a comida mais rapidamente.
Chegou ao trabalho feliz, contente e demonstrava a sua satisfação pela compra que tinha feito.
Acontece que o diabo (Zé) estava sempre à coca, na esperança de aproveitar um deslize do “Marmelada” para lhe fazer uma partida. Mas naquele dia o homem, ou por defesa ou porque notou também a minha satisfação pela sua compra, resolveu quando saía fechar a porta à chave e levar a chave no bolso. As suas saídas eram de pouca duração e limitavam-se as umas voltitas pelas oficinas. Mas numa das suas curtas saídas à casa de banho, o Zé, de corrida veloz, foi-se ao “Hipólito” e esvaziou o petróleo substituindo-o por água.
Quando o Marmelada se preparava para fazer ou aquecer o almoço, por mais que desse à bomba, o “Hipólito” não trabalhava. Até que, já farto de aquecer a cabeça do fogão começou com os seus impropérios contra o tendeiro que lhe vendeu a pequena máquina. O encarregado da oficina de serralharia, desconfiado, visto que conhecia o Zé e do que ele era capaz, abriu a válvula, cheirou e deu o remate final: Sr. Silva, o que está aqui dentro é água.
Como eu parava sempre por perto para me deliciar com as malandrices, o “Marmelada” olhou para mim e desabafou em voz alta.
Filho da puta de “Esparguete” (era esta a alcunha com que ele me tinha baptizado), se um dia te pego nem sabes o que te faço.
A gargalhada que se seguia acalmava o “engatado” e a partir daí o Zé estava pronto para outra.
Noutro dia pela manhã, e após o “Marmelada” ter feito uma cafeteira de café com que aquecia o seu estômago em dias de frio, o Zé, apanhando-o distraído encheu-lhe a cafeteira de serradura. Quando se preparava para beber a “mistela”, reconhecia que mais uma vez tinha caído na esparrela.
Isto foi somente uma pequena amostra das partidas que lhe fiz. Foram tantas, tantas e tão variadas, que de algumas agora até sinto remorsos.
Todavia, garanto-vos não havia ninguém que fosse mais seu amigo do que eu, mas quando eu estava por perto, o “Marmelada” sentia-se estranho, era como se visse o diabo em figura de gente.
.

16.3.09

João Pião

.

.

O Zé tinha 7/8 anos e já nessa altura tinha ferrado no corpo o gosto pela partidas e a vontade de brincar. Algumas delas já foram aqui contadas, outras, se a memória não me falhar e tiverem paciência para aturar os meus devaneios, continuarei aqui a descrevê-las.
O meu avô era homem do campo. Tinha várias quintas, dedicando-se por isso à lavoura. A minha avó, segundo a minha óptica, era a máquina de ter filhos.
Naquele tempo apenas existiam umas charruas rudimentares, puxadas por mulas para mexer a terra e a mão-de-obra disputava-se entre os agricultores. Portanto, dono de terras com mulher saudável e fértil, era certo e sabido que… era casa cheia de catraios.
Na casa dos meus avós paternos, não foram nada comedidos e foram pais somente de… 18!
Participo-lhes desde já que não bateram o recorde, pois os meus avós maternos tiveram de dar comer a 19. Eram outros tempos, é verdade, mas sempre foram outros tempos para tudo.
Tive necessidade de dar esta explicação prévia, dado que a história se vai desenrolar numa das quintas do meu avô, com um filho de um dos seus trabalhadores.
Tiago foi contratado para trabalhar de sol a sol, como cavador. Era homem corpulento e mestre na arte de mexer a enxada. Praticamente levava todos os dias o seu filho (de nome Pião e da mesma idade que eu) lá para a quinta, com a obrigação de pôr comida nas manjedoiras dos animais. Como não eram poucos, tinha muito que fazer, dando-lhe eu muitas vezes ajuda, para mais depressa ficar livre e darmos asas às nossas brincadeiras.
Comia comigo e minha avó, na cozinha grande, e no fim de cada semana o meu avó dava-lhe uns “tustos”, que seriam depois religiosamente entregues à sua mãe.
Nunca soube se Pião era mesmo nome da família ou se era alcunha. Todavia, confirmo que pela sua ligeireza, vivacidade e esperteza, o moço era um autêntico pião. Calçado, nunca tinha entrado nos seus pés, tão-pouco alguma vez ouvi qualquer lamúria ou queixa por esse facto. Montava o jerico com destreza e que sempre acariciou desde que começou a ir lá para a quinta. O asno estava na flor da idade e o João Pião era o único que o montava, coisa que fazia com máximo dos prazeres. Bastava bater com os seus calcanhares descalços na barriga do animal e este seguia indolente, devagar, devagarinho a caminho do local habitual e seu conhecido. Nunca o vi correr e mesmo assim nunca tive tentação de o montar. Quantas o vezes o Pião júnior me convidou e aliciou para eu ir com ele, para imitarmos os cowboys.
Um dia, o meu avô foi ao mercado à Moita do Ribatejo e trouxe umas botas pequenas, com cardas, para oferecer ao Pião. Que contente estava ele! Correu campo fora com elas na mão, para mostrar a seu pai a oferta que o patrão Manel lhe tinha oferecido. Minha avô, chamou-o e, mandando-o lavar os pés, deu-lhe uma peúgas minhas para completar a satisfação do petiz, pois era oportunidade de se estrear as botas imediatamente.
Enquanto o nosso Pião lavou os pés e calçou as meias, eu, na arrecadação da quinta brinquei com as botas.
Poucos minutos depois, aí estava o João Pião, qual “toutinegra” correndo campo fora com as botas nos pés.
Chegou a hora de montar o burro, para fazer a sua costumada e maçadora viagem. O Pião salta-lhe para cima, com a língua dá aquele estalinho característico ao animal para se pôr em marcha, bate-lhe com os calcanhares das botas na barriga e… pasmem-se!
O burro indolente, preguiçoso no andar, desata a correr em tal velocidade, que nada o fazia parar. O Pião bem o mandava parar, batia com a língua, acariciava-lhe a barriga com os calcanhares das botas, mas qual quê, quanto mais lhe batia com as botas mais corria e até dava coices à mistura, nada fazendo prever quando pararia. Não fosse ele tão especialista na arte de montar e seria cuspido de cima do animal. Acho que a correria só parou quando, ao passar junto a uns fardos de feno, o Pião resolveu atirar-se do burro abaixo. Estavam todos na quinta boquiabertos a apreciaram esta corrida do “Porsche de Orelhas” e admirados com tal façanha. Um animal tão dócil, tão meigo e faz-lhe uma partida daquelas!
O Pião, com os pés em brasa, pois como contei era primeira vez que se tinha calçado, resolveu tirar as botas dos pés. Sentou-se e, ao pôr a mão atrás no calcanhar para as descalçar, picou uma das mãos, ficando a saber nessa ocasião por que motivo a velocidade do burro tinha sido aquela, e creio até ser capaz de fazer concorrência com o Alfa Pendular.
É que, enquanto o João Pião lavou os pés e calçou as meias, eu preguei em cada bota um prego de sapateiro, para servir de esporas quando montasse o burro.
Claro que não esperava que o animal voasse como um “cavalo alado”, mas ao ver a aflição do Pião e aquela correria desenfreada, achei por bem dar corda aos meus sapatos e dar o salto para junto da minha protectora (mãe Júlia), que estava numa das outras quintas ali perto.
O meu avô bem me procurou, pois queria dar-me o correctivo em presença dos assistentes da corrida do fórmula “B”, só que o Zé fintou-o e teve uns largos dias sem lhe aparecer.
.

2.3.09

Saramago - Carpinteiro

..



Em 1976, o Zé trabalhava numa empresa cujos armazéns se situavam no local onde mais tarde se realizou a Expo 98, tendo por isso desaparecido.
Em seu redor havia mais armazéns e num deles estava instalada uma carpintaria, tendo sido aí que conheci o João Saramago, homem já bem idoso com experiência de vida bem vivida, mas cuja estrelinha da sorte nunca lhe bateu à porta.
Artífice de primeira, na arte de entalhar. Sempre bem disposto, mesmo quando as adversidades lhe batiam à porta. Nunca soube ao certo o local da sua residência, já que tão depressa dizia que morava numa barraca no Vale de Santo António, como num apartamento com todos os requisitos modernos nas Olaias, com cores berrantes “tipo Taveira” (este Taveira… também saiu um passarão…).
Admito que não falava verdade, inclinando-me mais para a primeira, pois o Saramago tinha sempre um sorriso maroto quando falava no “albergue”.
Certo dia entra-me porta dentro e contou-me que tinha respondido a um anúncio de convívio e tinha tomado a liberdade de dar o número de telefone do meu escritório…
Estava aflito e esperava uma reacção minha pela negativa. Coitado do Saramago, não conhecia o meu coração e do que o Zé seria capaz. Pu-lo à vontade e prontifiquei-me para dar toda a colaboração no arranjinho. Não queria que a sua Filomena soubesse de nada, mas reconhecia que estava a meter-se em entalanço; para que queria ele um encosto se se mijava todo, confessou-me, dando uma valente gargalhada, pois sofria de incontinência.
Talvez ela fosse rica e então queria lá saber da Filomena para alguma coisa; já lhe tinha aturado tantas, que ao menos assim deixava-a livre até ao fim da vida.
Eu delirava com os seus comentários e combinamos que se a senhora do anúncio lhe telefonasse e ele não estivesse, eu atenderia, aldrabava como podia e logo se veria onde paravam as modas.
Selamos o acordo com um aperto de mão e a promessa de um almoço bem regado, num restaurante rasca, junto ao mercado da 24 de Julho, nesta linda cidade de Lisboa.
Três ou quatro dias depois o Saramago estava triste, pesaroso e enfadonho. Segundo ele, a senhora pendurou a carta que ele lhe escreveu, num arame que algumas famílias usam na casa de banho e cujo destino todos sabemos qual é.
Que não, que tenha paciência, porque decerto a senhora deve estar a fazer uma selecção e só depois disso entrará em contacto consigo, alvitrei eu já a matutar na partida que se ia seguir.
Primeiro, entro em contacto com uma colega que trabalhava nos nossos escritórios da Praça da Alegria, precisamente por cima do Maxime. Conto-lhe a história e peço a sua colaboração, para falar com o Saramago. A seguir, digo a este que uma senhora, mulher talvez aí de 55/60 anos, bem vestida com um grande casacão de peles, tinha estado ali no escritório a perguntar por ele, dizendo que falaria amanhã por voltas das 16 horas, pois desejava conhecê-lo.
Naquela ocasião confirmei que na realidade todos nós somos duas vezes crianças e o Saramago estava tão, mas tão contente, que o mijo lhe corria pernas abaixo sem ele dar por isso. E no outro dia, pela hora aprazada, lá recebe um telefonema, cheio de melaço e promessas para se conhecerem pessoalmente.
Perguntei-lhe onde levaria a senhora a almoçar. Respondeu-me: sei lá, tomara eu ter dinheiro para mim. Fiz-lhe ver que ela deveria estar acostumada a frequentar o Tavares Rico e que ele tinha de ir bem arranjado e engravatado para fazer boa figura.
Chegou o dia… Encontro o Saramago à porta da casa da Sorte no Rossio. Diz em casa, à Filomena, que vai a um funeral de um amigo, para justificar a necessidade de vestir o melhor fatinho que tinha; põe gravata preta, metendo às escondidas outra mais garrida dentro do bolso.
Passa pelo escritório para eu confirmar se estava no «´sconforme», muda de gravata e alvitrei que uma flor na lapela era coisa indispensável.
Fiz de seu motorista e fomos à Praça da Alegria, para que a minha colega o conhecesse; regou-o com perfume, no sentido até de disfarçar o cheiro que andava sempre atrás dele fruto da sua incontinência.
Partimo-nos a rir e pretendi acabar ali mesmo com a “cegada”, mas a minha colega lembrou-me que não seria oportuno.
Chovia copiosamente, mas o Saramago estava com pedalada invulgar e em vez de ficar à esquina da porta na Casa da Sorte (casa que vende lotaria), meteu-se dentro duma barraca das obras que a Carris estava a fazer mesmo ali em frente, e diz-me assim:
- Vamos lá ver qual vai ser a minha sorte, ao menos que me saia a aproximação.
Coitado do Saramago! Bem podia esperar sentado. Lá se foi a ilusão de mudar de vida e a Filomena teve de o aturar até ao resto dos seus dias.
Não tive coragem para lhe contar que tinha sido uma partida.
.

16.2.09

O LEITEIRO

.
No passado sábado, comemorou-se o dia dos namorados.
Este é o meu contributo.
.

.
Conheci a “nena” à porta do cine-teatro Éden, na praça dos Restauradores. Esperávamos que a bilheteira abrisse. O filme, já não recordo o nome, era em 3 dimensões.
Uma novidade que segundo diziam vinha revolucionar o cinema. As filas eram enormes e comprava-se o bilhete com antecedência. Comprei lugar de plateia e constatei que a menina ficaria ao meu lado se tivesse adquirido para o mesmo dia.
Sorte dela, sorte minha? Foi tiro na muge.
No Sábado seguinte, às 15,30 da tarde, lá estávamos lado a lado cada um na sua poltrona, de óculos na mão à espera do início da sessão.
O Zé nunca foi coxo para iniciar uma conversação. Cumprimentei-a com a vénia que se impunha e memorizei a sua blusa decotada. A saia da época, abaixo do joelho. A mini ainda não tinha aparecido (tenho pena).
Reparei que os seus óculos destinados a ver a película tremiam na sua mão, tendo perguntado se estava nervosa. Respondeu que tinha receio de se assustar com o desenrolar da “faena”.
Bela entrada (digo agora)! Tentei acalmá-la, acrescentado que estava ao seu lado e a protegeria se algo de mal sucedesse. A partir daqui, já sabem como é, palavra puxa palavra e a porta escancarou-se para estarmos à vontade e divagarmos sobre qualquer assunto…
Os meus temas estavam sempre actualizados. Não eram muito variados e a tecla era sempre a mesma. Se namorava, se… e se…e a resposta foi «NÃO». Como é evidente fiquei mais à vontade, preparei o carreto, enrolei a linha, pus a minhoca no anzol, tomei balanço e lancei a cana. Agora era uma questão de ter paciência para ver se o peixe picava e se eu tinha músculo, capacidade e imaginação para o puxar para cima sem o deixar fugir.
Com o desenrolar do filme, que não era de terror mas tinha bonitos efeitos especiais, íamos trocando impressões sobre o mesmo e tocávamos no braço ou do outro, alargando os nossos laços de confiança. Acabada a sessão, acompanhei-a a pé até ao bairro dos actores, onde morada, ali bem ao lado da Alameda D. Afonso Henriques.
Passámos a trocar telefonemas e iniciando o Zé mais uma aventura amorosa, que nessa altura, com 23 anos, a contagem já prosseguia a bom ritmo.
Às quintas-feiras, os nossos encontros eram no Jardim Constantino. Aos sábados batia-mos os cinemas Rex, Capitólio, Odeon, Condes (no fundo como calhava em função dos filmes) e aos domingos Jardim Zoológico, Estufa Fria ou Jardim da Estrela. Era assim passado o nosso idílio, com as semanas a correr vertiginosamente e sem os seus pais terem conhecimento dele.
Estávamos mo Inverno e quando trocávamos telefonemas, que ela fazia sempre com pressa para não aumentar a conta telefónica de casa, deu-me conhecimento de que os progenitores, ele polícia de costumes (aí engoli em seco) e ela doméstica, saíam no próximo sábado logo pela manhã para assistir ao carnaval de Torres Vedras, voltando já noite alta e que seria uma boa oportunidade para eu a visitar pela primeira vez na sua casa.
Fiquei nas nuvens e as marteladas na minha cabeça a lembrar-me a toda a hora aquele acontecimento não me deixavam um momento sossegado.
Levantei-me “temperano”, merecendo por isso um reparo da mãe Júlia, que deveria estar algum burro para morrer por me levantar tão cedo.
Depois de ter feito um telefonema (confirmação para saber se o caminho estava desimpedido), comprei numa pastelaria meia dúzia de pasteis de nata (ainda hoje sou doido por eles) e avancei, qual tropa de elite a caminho do Kosovo.
Fui recebido à porta, com abraços, beijos e sei lá que mais. Ficou impressionada com a minha lembrança e ofereceu-me um chá.
E pela primeira vez na minha vida almocei em casa de jantar alheia, com a maior despreocupação do mundo e sem que os donos da dita tivessem conhecimento, com a mesa decorada a preceito. A queridinha arranjou um petisco que nunca tinha provado (repolho com salsicha, daquelas grandes, compradas avulso). Não devia ter jeito para a culinária.
Comi. Não me soube mal nem bem, mas disse que estava divinal. Todavia, tinha imaginado que a comida daquele dia, tão especial, iria ser febras.
E foram tantas as mesuras e as delicadezas, que o amor começou a derreter-se, acabando por nos deitarmos ao cair da noite em cima da sua cama, vestidos, tendo tirado somente os sapatos e o casaco.
Conversamos, fizemos juras ao futuro e, numa audácia incontrolável, puxei as calças para baixo. Nesse preciso instante tocam a campainha insistentemente.
Pulámos da cama, puxo as calças para cima sem apertar os botões (e penso: é o polícia, estou lixado), calço os sapatos deixando os atacadores pendurados, visto o casaco só com uma mão, dado que a outra segurava as calças, coloco a gabardina de fazenda debaixo do braço, olho para a “nena” que me pega num braço e me levou para a copa.
Dá-me este recado (isto tudo em velocidade mais rápida do que o TVG) eu vou ver quem é, se for alguém para entrar abres esta porta e sais por aí.
Enquanto oiço os seus passos no corredor a caminho da porta de entrada, encontrava-me ainda no estado como atrás descrevi. Vejo que a porta tinha um fecho de correr em cima e outro em baixo, ambos fechados, bem como a fechadura, esta, a duas voltas.
Tudo me vem à ideia: como consigo fazer isto em tão curto espaço de tempo e como vou para a rua neste estado.
A campainha não para de tocar, ouço a Joana a dar as voltas na fechadura e, na porta que eu tinha à disposição para me pirar (nem ainda hoje sei onde é que ia dar), ouço do lado de for um tilintar, batem à porta com força e anunciam: LEITEIRO…
O tilintar era as medidas de alumínio presas com uma corrente a baterem na bilha.
Digo-vos de verdade: as tripas deram-me uma volta, senti uma vontade enorme e tive a sensação de que me ia cagar todo.
A Joana esclarece a pessoa que tocava, que desculpasse mas tinha de atender o leiteiro, fecha a porta e corre trocando comigo de posição.
Aperaltei-me, abotoei as calças, os sapatos, o casaco, vesti a gabardina e de despedida devo ter dado o beijo mais frio da minha vida.
Cheguei à rua e senti-me feliz ao receber o frio gelado do mês de Fevereiro…
Safei-me de boa…e o namoro tinha acabado na hora, no minuto, no segundo, em que o meu calcanhar do pé que ficou atrás, saiu a porta principal da Joana.
.

2.2.09

Iscas com "elas"

.


Estávamos no mês de Agosto de mil novecentos e oitenta e dois. A “Dona” e o Zé esperavam ansiosos o nascimento do seu segundo rebento, que viria ao mundo nos primeiros dias de Setembro.
A coisa podia estar feia, pois o rapaz mostrava-se irrequieto e tinha enrolado ao pescoço o cordão umbilical. Duas vezes por semana, deslocávamo-nos ao consultório médico situado na rua Latino Coelho para observação.
Todo o cuidado era pouco e com o tempo a passar redobramos as preocupações, mas saímos sempre com os nossos corações tranquilos pois o “petiz”, se calhar já jogando à defesa, resolveu não dar mais cambalhotas.
Fomos fazer a última revisão e marcar a data e o local onde se realizaria a cesariana que se impunha, para evitar alguma surpresa desagradável.
O Zé tinha um comportamento igualzinho à grande maioria dos pais e tratava de animar a sua querida, dando-lhe palavras de animo, mas no fundo sentia-se todo acagaçado e sem saber o que fazer.
A “Dona”, que sempre foi uma mulher de coragem, ouvia as suas palavras, sorria e dizia que seja o que Deus quiser.
Ao arrumar a viatura no separador central na rua Latino Coelho, cá na Lisboa, encontro o actor Eugénio Salvador, agora já falecido, acompanhado da sua segunda esposa, Odete Antunes, que procuravam também lugar para estacionar. Ambos bem conhecidos do Zé e com quem mantinha lanços de amizade de longa data.
Demos ali um bom bate-papo, que foi bem demorado pois deu tempo a que a “Dona” fosse à consulta e voltasse.
Na altura levei um “raspanete” por não a ter acompanhado, até porque iria ser marcado o dia do nascimento do “pimpolho” e eu teria de evitar que fosse à quinta-feira, meu dia azarado. O “amor” sabia disso e marcou a data para a sexta-feira da semana seguinte.
Ambos queríamos comer e, havendo ali mesmo em frente um restaurante, cujo nome é parecido com “Palheiro”, resolvemos entrar para saciar a nossa gula.
Estava feliz, sentia aproximar-se a data do nascimento e isso fez aguçar o desejo de mulher grávida. Pediu iscas, não recordo se com ou sem “elas”.
Normalmente é um prato já confeccionado em recipiente de barro e em dose individual, bastando aquecer e servindo-se imediatamente. O Zé, vinte e seis anos depois já não recorda o que comeu, mas garanto que iscas não foram.
Segundo dizia, estavam deliciosas e aquele molhinho com um gosto como nunca tinha provado. Ricas de morrer…
Insistiu para eu molhar o pão e provar. Recusei e quase a vi amuar por isso.
Mas estava contente e feliz por a ver comer com tanta satisfação. As iscas já tinham terminado e os bocadinhos de pão iam absorvendo os restos do molho que tanto estava a apreciar.
Era o resto, faltavam somente dois bocaditos pequenos, que pareciam dois “niquitos” de iscas… Não, não pode ser, não acredito, é impossível! Duas baratas estavam no fundo e pouco faltou para serem digeridas… Estava a ver que a criança nascia naquela ocasião.
O Restaurante ainda existe hoje e, tal como naquela altura, não é de preço popular.
Chamei o empregado e disse-lhe que sendo restaurante caro, não era admissível ter baratas.
Perguntou-nos se queríamos outra coisa. Sim, sim, a conta, respondi.
Perdi as estribeiras quando nos apresentou a conta do prato com as iscas, reclamando a falta da inclusão do preço das baratas na factura.
Pronto, pronto, pode ir embora que não paga nada.
Na Clínica de S. Gabriel correu tudo como programado, um lindo menino, e como a mãe estava anestesiada, fui eu o primeiro a dar-lhe um beijo. Ainda hoje saboreio esse prazer.
Acrescento, que naquela época, ainda não havia a concorrência dos restaurantes chineses.
.

20.1.09

TURISTAS BRASILEIRAS

.

.

.
Seis horas da tarde do dia dezoito de Setembro deste ano, o Zé tinha acabado de apanhar o metro na estação de Sete Rios com destino aos Restauradores. Eis que na estação imediata entram duas mulheres, uma aparentando cinquenta anos, a outra talvez já a passar os setenta. A primeira ostenta na mão um papelito onde está anotada qualquer coisa. Olham, preocupadas, o mapa sobre a porta e perguntam onde está a estação dos Restauradores. Alguém lhes indica. Ficam tranquilas.
Saímos ao mesmo tempo e achei que estavam aflitas, sem saber para onde se virar. Perguntei-lhes para onde iam e resolvi ajudá-las.
Queriam o Rossio, pois sabiam que num quiosque se vendiam bilhetes para uma volta turística pela cidade, num “bondinho”.
O seu receio era enorme pela minha presença. As suas malas penduradas ao ombro e apertadas bem contra o peito eram o sinal desse receio.
Perguntaram-me com subtileza porque as ajudava. Respondi-lhes que sabia muito bem o que era estar numa cidade que não conhecemos e as dificuldades que encontramos. Eu mesmo, que já corri meio mundo, senti sérias dificuldades em alguns países e sempre gostei de ser ajudado.
Disse-lhe que elas estavam num País que conheciam a língua e que portanto tinham essa vantagem, ao contrário de mim que, estando por exemplo na Turquia sem perceber “népia de turco”, era muito mais complicado. No entanto, perguntaram-me de onde era, que religião tinha e o que pretendia comprar. Respondi a tudo e fiquei orgulhoso de mesmo sem ajuda me ter desenrascado. A mímica e o indicador da mão direita é língua universal (se me entenderam não faço ideia, agora que comprei o que pretendia isso é verdade). Apontei o objecto que tinha o preço marcado, paguei e alcei os cucos que se fazia tarde.
Tinham acabado de chegar e resolveram dar uma passagem ligeira por Lisboa, tendo, nos dias imediatos, visitas já previamente marcadas, A Sintra, Jerónimos, Torre e Centro Cultural de Belém, ao Museu dos Coches e aos Pastéis de Nata.
Para uma ida aos fados aconselharam-se comigo. Indiquei-lhes a casa de que mais gosto e julgo que não as defraudei.
Já mais tranquilas, perguntaram-me como estava a criminalidade em Lisboa, pois estavam receosas dalgum encontro com gente de mau carácter. Lamentei dizer-lhes que os seus conterrâneos vindos das favelas do Rio estavam fazendo estragos.
Conversa aqui, conversa ali, soube o seu hotel na cidade e perguntei-lhes se gostariam da minha companhia para lhes servir de guia, já que a minha disponibilidade era total, visto a minha “Dona” se encontrar num congresso em Coimbra.
Agradeceram e, no dia imediato, o Zé estava pelas 9 horas da manhã à porta do hotel para as levar Fátima (onde rezaram à virgem), Alcobaça, Nazaré. S. Martinho do Porto, Caldas da Rainha (onde riram e compraram pequenas recordações de loiça, algumas com alfinete) e Óbidos, onde jantamos na Pousada.
Quando as levei ao hotel, quiseram fazer contas comigo para pagar toda a despesa. Respondi-lhes que tinha feito tudo com o maior gosto do mundo e a única intenção que tivera foi conseguir dar-lhes um dia feliz para que levassem uma boa recordação de Portugal.
Se fosse noutros tempos, metia-as num foguetão e leva-as à lua.
Ai levava, levava. E ainda era capaz de me apaixonar por alguma… Lá tinha que ir ver o Corcovado e meter-me nalguma desventura!
.

29.12.08

A Cinza da Lareira


.
Quem tem lareira, sabe quanto custa limpá-la e quanto custa limpar os móveis à sua volta.
O Zé era felizardo, possuía lareira encastrada (a chamada cassete) e tinha um depósito próprio para através do aspirador fazer uma limpeza eficaz, eficiente e sem dificuldades para evitar o pó a que atrás me referi.
Esta cena trágica/cómica passou-se no inverno de 2006, quando vivia numa pequena povoação do Concelho de Palmela. Peço a Deus que os olhos do outro protagonista não leiam estas linhas.
Ainda hoje, noutra casa, mas com o mesmo tipo de lareira, faço a sua limpeza somente uma vez por semana.
Quando o tal deposito está cheio, e isso só acontece ao fim de 3 ou 4 semanas, a cinza, coisa finíssima, é metida num saco de plástico enorme, repetindo a mesma operação por mais 2 ou 3 vezes. Quero dizer que o saco de plástico acaba por ter cinza acumulada de 3 meses, que diga-se já é bem pesado e de quantidade considerável.
Portanto é necessário desfazer-me dela.
Vez a vez a quantidade é pequena e vai para o contentor do lixo doméstico. Agora com um exagero destes já é mais complicado desfazer-nos daquele incómodo.
.
Frente à minha casa havia a falta de um prédio, vendo-se por isso na rua do outro lado dois contentores de lixo doméstico que a serviam.
Não obstante a minha rua possuir seis daqueles contentores, achei, por questão de comodidade e a fugir a olhos indiscretos na distância ir despejá-lo, num dos outros que me referi e estavam na rua do outro lado. Com dificuldade fiz o trajecto e quando cheguei ao dito, reuni todas as forças que tinha, levantei o saco e ao tentar deitá-lo lá para dentro, este rompe-se e vaza de uma só vez a cinza de quatro meses.
Fiquei aliviado e prometi a mim mesmo nunca mais deixar atrasar tanto tempo.
O camião que fazia a recolha do lixo passava normalmente por volta das 10 horas da manhã. Nesse dia já tinha passado e portanto a recolha ficaria para o dia seguinte.
Fiz a minha previsão do pó que se levantaria aquando daquela operação e nisso, caros amigos, não falhei. No outro dia e à hora aprazada, quando senti que o momento se aproximava, vim para o jardim fazer de conta que apanhava hortelã ou um raminho de salsa.
O trabalhador/cantoneiro engata o contentor na parte mecânica da camioneta, aquele faz o pino e fica vazio, mas a poeira era tanta, tanta, que o desgraçado ficou completamente coberto daquele pó. O homem protestou, chamou nomes ao diabo e à sua sorte, mas como sabemos a vida continua e o trabalho tinha de prosseguir.
Ao passar pela minha porta e enquanto procedia a outra manobra de esvaziamento, disse-lhe assim:
Meu amigo, você está bem caçado, até as suas sobrancelhas e pestanas têm pó. Como arranjou isso?
Levei de rajada esta enorme quantidade de impropérios. “Estes filhos da puta, cabrões, paneleiros, fascistas, não têm mais nada que fazer do que atirar para os contentores do lixo, as cinzas das suas lareiras”.
Estava perdido de riso e ainda tive coragem para comentar. “Realmente isto não se faz, se fosse comigo nem sei o que faria”…
.
Entrem com o pé direito, em 2009 que a coisa está preta…

15.12.08

PERU NO NATAL


No primeiro Natal que passei no Norte, tinham os meus dois filhos três e quatro anos.
Idade maravilhosa e as suas gracinhas fazem parte das nossas alegrias.
Os meus sogros, cheios de saudades dos netos, arrancaram à papo-seco por aí acima no comboio rápido e fizeram-nos a companhia.
A casa passou a estar mais cheia e o movimento passou a ser outro.
A “Dona” chegou do trabalho, trazendo como oferta um peru enorme. Aquilo não eram patas, eram uma garras afiadas, que se dessem no peito de um indígena rasgava-o até ao coração.
Foi um alvoroço. Quem mata, quem não mata, todos se faziam fortes, mas com um receio enorme de pegar no animal de tão grande porte. Até que surge a conversa. É preciso primeiramente embebedar o peru. Embebedar, pergunto eu. Mas com quê? Vinho tinto, champanhe ou verde? Não, diz o meu sogro. Os perus embebedam-se com aguardente.
Mas o único álcool que cá temos é uma garrafa de whisky! “Pois bem: vai com Whisky”.
Primeiro foram-lhe amarradas as patas, meu sogro abriu-lhe o bico meteu-lhe um funil goela abaixo e eu tratei de vazar a garrafa. Vazei, vazei, ficando somente um restinho para amostra.
Desamarramos o peru, deixámo-lo à vontade, o animal levanta-se e foge de nós, pára, mira-nos e começa a cambalear. Pata para a direita, pata para a esquerda, o seu corpo bambeia para todos os lados e cai no chão espumando da boca.
Entrou em coma, fiquei atrapalhado, pois nunca me tinha visto em assados daquele quilate.
Minha mulher com um facalhão enorme aproxima-se, corta-lhe a cabeça, seguindo-se depois a água quente para tirar as penas e a autópsia, até ficar só em cotos.
Todos adivinhávamos um opíparo almoço no dia de Natal.
Quando da cozedura, vinha da panela um cheiro esquisito, que se acentuou quando na mesa o queríamos comer. O Whisky fez os seus efeitos para embebedar o bicho, mas em contrapartida possivelmente pelo exagero ou abuso na quantidade, estava a sua carne intragável.
Pois mesmo com este azar, fruto da falta de conhecimento para executar uma tarefa que outros com a maior simplicidade o fazem, não foi perdido o espirito natalício, sendo a tradição quebrada com uns bifes e batatas fritas de pacote.
Uns anos antes, numa festa de fim de ano, onde várias famílias se reuniram para festejar aquela data, os perus servidos tinham sido alimentados a farinha de peixe e a canja de peru sabia a chicharro, carapaus., sardinhas e atum. Admira-me não ter sido aproveitado para constar em qualquer livro de culinária.
Foi um Natal e fim de ano inolvidável, coisa para nunca mais esquecer.
.
Do mal o menos, desejo a todos as amigas/os um Natal feliz, com muitos “carcanhóis” e um fim de ano a entrar com o pé direito, neste mundo torto em que vivemos.
Pela minha parte, com a crise que está estou a sentir-me empenado.

2.12.08

LUA-DE-MEL NA MADEIRA


1978, Avenida 5 de Outubro – Lisboa. O Zé encontrava-se no escritório de advogado seu amigo. Este esperava a visita de uma filha de um seu conhecido, que lhe tinha telefonado informando que pretendia falar-lhe e que tinha casado há 15/20 dias.
A moça, assim que entra e depois de me cumprimentar e ao advogado, inicia a conversa com o causídico, tendo eu feito menção de me retirar, ao que ela se opôs.
Talvez pensasse que eu também era advogado, não percebi, mas, sinceramente, adorei a história.
Senta-se e começa a falar do namoro com o Miguel, rapaz que o advogado também conhecia, não sei se por namorar a filha do amigo, se de outra maneira qualquer.
Quatro anos de namoro, rapaz sossegado, até de mais, dizia ela, católico confesso e frequentador da igreja. Foi sempre, segundo disse a recente casada, muito respeitador, merecendo por isso a confiança dos seus pais, que se sentiam felizes por a filha ter arranjado tal peça, aliada a bom partido, dado que a sua família tinha bens ao luar.
Até ao dia do casamento, que se realizou na Igreja de S. João de Deus, ali na Praça de Londres, com o copo-de-água servido na Pastelaria S. João, na Avenida Paris, que na época, era a flor desta Lisboa que adoro.
A noiva desenrolava toda esta conversação com notório nervosismo e eu cada vez percebia menos. Por quê contar, com todos os pormenores, o casório? Tinha convidado o advogado para assistir e evitava toda esta “fanfarronice”.
A lua-de-mel, oferta dos pais do noivo, seria na ilha da Madeira, com viagem no barco “Funchal”, aproveitando um cruzeiro que aquele navio fazia às Canárias e à Pérola do Atlântico. Aqui, pedi licença e perguntei por que não faziam o cruzeiro completo, visto ser muito mais barato do que ficar na Madeira, em hotel.
Explicou a noiva que oferta dos pais do noivo não se discutia e que o regresso seria em avião, também à sua conta.
Pela manhã do dia imediato, praticamente toda a comitiva que tinha estado no casamento foi ao cais da Rocha Conde de Óbidos despedir-se dos noivos, acenando com lenços, a fazer lembrar os tempos próximos passados quando partiam para as colónias os soldados portugueses em defesa de não sei o quê.
Na noite do casamento o noivo sentiu-se mal-disposto, razão por que não fez a investida à sua amada e, durante a viagem, ou porque viu alforrecas ou enjoasse, a mulher chegou à Madeira virgem como tinha partido.
O barco chegou pela manhã, disseram adeus ao cruzeiro e partiram para o hotel, iniciando logo visita a Câmara de Lobos, Machico e Curral das Freiras para aproveitarem ao máximo a estadia, visto que nem um nem outro alguma vez lá tinham posto os pés.
O advogado olhava para mim, como a querer dizer-me “mas que seca, o que é que eu tenho a ver com isto?”, e eu, sinceramente, estava cada vez mais interessado em saber como acabaria a história e em que altura ela acabava por ser desflorada. Fazia-me confusão toda aquela conversa e estava desejoso de ver o fundo da panela.
Então, chama ela a atenção, “agora é que vai ser o melhor”.
Quem já assistiu ao “Amor de Perdição”, do Manoel de Oliveira, está disposto a tudo e portanto, qual raposa em pleno mato, arrebitei os orelhinhas de forma a não perder pitada do que se seguia.
Desejava não ver goradas as minhas expectativas.
Alegando cansaço (continuava ela), foi-se mais uma noite em branco e, pela manhã, alvitrou, ir eu ao salão tomar o pequeno-almoço, pedindo o seu servido no quarto.
Que tola ingenuidade a minha, como aceitei uma coisa daquelas! Comi tranquilamente, olhei o mar imenso e, quando acabei, estava disposta a quando chegasse ao quarto ter uma conversa muito séria com o meu querido. Juro que gostava muito dele.
Meto a chave na porta, abro e os meus olhos que a terra há-de comer, dão de caras com esta cena incrível. O Miguel estava todo nu, em posição de apanha-cavacas como se estivesse procurando qualquer coisa no chão. O empregado que lhe levou o pequeno-almoço, de colete às riscas com duas fivelas atrás, tinha as calças caídas sobre os sapatos, encostando as suas partes intimas, ao rabinho do Miguel, que estava a dar a dar. Aí o Zé não resiste e dá continuidade à cantiga “pio, pio, pio passarinhos a cantar”. O advogado dá uma valente gargalhada. Ela, com lágrimas nos olhos, não tinha vontade de rir.
Deixou as malas e arrancou para Lisboa, procurando o doutor, não para lhe tratar do divórcio, mas para o anular, dado não querer ser divorciada, mas solteira.
Foi um acto demorado, porque o rapaz aceitava divorciar-se, mas não queria a anulação. Correu muita tinta, variadas sessões à porta fechada, até que, finalmente, houve uma autorização da Santa Sé.
Para o que estava guardada aquela moça, coitada. Sonhava, como a maioria das demais, ter filhos e criar netos…
Se fosse agora, com a presumível legalização dos casamentos entre o mesmo sexo, ele também quereria ficar solteiro, sendo a diferença entre ambos é que ele já não era virgem, portanto já não lhe ficava bem ir com véu, grinalda e flor de laranjeira.

18.11.08

“Ai no me lo diga!”

(Caravela que habitualmente ornamenta a entrada do recinto da feira)


Nas minhas andanças por terras de Espanha, conheci um casal de Huelva, gente simpatiquíssima que vivia juntamente com uns tios já maiores, que tinham uma pequena mercearia de bairro. Os tios eram de Burriana, da Província de Castellon, comunidade Valenciana e desde que partiram à procura de melhor vida, nunca mais visitaram a terra natal.
A D. Carmen, nome da tia, tinha um horror às estradas, aos automóveis, aos comboios, tendo chegado a pensar que ela tinha medo de tudo quanto mexesse. Portanto, pouco saía de casa, a não ser para ajudar o marido na sua loja. Os sobrinhos, ele, Juan e ela, Maruga, esperavam ansiosos a visita da cegonha.
Certa ocasião, visitei-os aquando da realização das festas Columbinas, que se realizam na primeira semana de Agosto em honra de Cristovão Colombo, pois foi daquela Cidade espanhola, que partiu, à descoberta do novo mundo.
O Juan, Maruga, eu e a minha companheira Lurdocas que já foi interveniente no meu conto da atribulada “Viagem a Sevilha”, fomos ao teatro ver uma peça cómica, num desmontável sito no recinto das festas. Havia um artista que, por tudo e por nada, dizia esta frase: “Ai no me lo diga!”. Frase que pegou no nosso vocabulário e passamos também por tudo e por nada a dizer : “Ai no me lo diga!”.
Falando, em sua casa, das grutas de Aracena, que tínhamos visitado aquando da deslocação a Sevilha de tão boa ou má memória, a D. Carmen disse que nunca tinha visitado umas grutas e eu propus-me imediatamente a levá-la para ver aquelas, satisfazendo assim o seu desejo.
Que não, que tinha muito medo da estrada, mas, com paciência, lá a convencemos e, no outro dia, munidos de um piquenique, lá partimos no Fiat 500, subindo a serra de Rio Tinto a caminho das grutas, ficando o marido em casa entregue ao pequeno comércio.
Dado que a D. Carmen era dos “pesos pesados”, ia ao meu lado, sendo notório o “stress” que a senhora passava pelo medo que tinha. As conversas desenrolavam-se e, de quando em quando, lá ia “Ai no me lo diga!”. Parámos para petiscar e não levávamos nada fresco. “Ai no me lo diga!”. Nas curvas, nas grutas “Ai no me lo diga!”, que medo a senhora tinha e por que pressão estava aquele anjo sénior a passar.
Quando saímos das grutas já era noite, sentámo-nos numa esplanada, comemos qualquer coisa e começámos a viagem de regresso. Aí, a senhora confessa que estava com um medo de morrer, ao fazer a viagem de noite em plena serra. Claro que… “Ai no me lo diga!”.
Ocupámos os mesmos lugares na viatura e, quando estávamos a meio caminho, a D. Cármen, que ainda não tinha aberto a boca, demonstrou que estava atrapalhada e queria vomitar. A Lurdocas, para animar a malta, diz assim: “Ai no me lo diga!”. Eu paro o carro e, quando me debruço para tentar abrir a porta do seu lado, saiu pela boca da D. Carmen uma descarga que bateu no vidro e fez ricochete, ficando o raio da velha e eu em mísero estado. “Ai no me lo diga!”, diz o Juan. Entretanto, já tinha sido aberta a porta e ela, coitada, envergonhada, limpava-se com um pano, quando lhe dá vontade para segunda convulsão, debruçando-se ainda mais, para fazer directamente para o chão, ficando com o traseiro espetado e virado para mim e enquanto descarregava pela boca, dá um pum...mas um pum tão grande, tão grande, que se eu não tivesse a porta do meu lado fechada, saía disparado para a arcem (valeta) do outro lado da carretera e a protecção civil chamada para me socorrer, teria de me apanhar aos bocados.
A sua sobrinha diz assim: “Ai no me lo diga!”. Toda a gente queria rir, toda a gente se conteve, e à minha pergunta de se encontrar mais aliviada, respondeu. “Que vergoenza, que vergoenza”.
A partir daí, aquela viagem de regresso mais parecia um velório do que um passeio.
Com os meus botões, pensava: se ela se caga outra vez, temos caldo entornado.
Quando chegámos a Huelva, já noite dentro, ainda apalpei o meu braço direito, para ver se não estaria deslocado, porque um torpedo daquela envergadura tem efeitos devastadores, que o digam os militares americanos em missão no Iraque.
No outro dia, quando partimos rumo à capital portuguesa, toda a gente veio despedir-se de nós, excepto a D. Carmen que, por se ter esvaziado como uma boneca insuflada, não se aguentava de pé.
Para desanuviar o ambiente, quando os visitei novamente fiz a entrega de um macaco de cerâmica a subir uma corda, que me disseram nas Caldas de Rainha (vejam lá onde fui arranjar aquela obra) ser o macaco do azar, esclarecendo eu aos amigos de Huelva que se tratava do macaco da sorte.
O “mono” foi imediatamente pendurado na loja, para dar sorte, e, quando mais tarde voltei, vi aquela encerrada, as ervas já altas à entrada da porta e fiquei preocupado, julgando ter contribuído para a falência do comércio de ultramarinos que era a sua subsistência. Eis que veio ao meu encontro o amigo tendeiro e a sua amada Carmen dar-me um abraço bem forte, pois o macaco lhes tinha dado tanta sorte que se viram obrigado a mudar de local, para aumentar o negócio.
Confirmei que afinal estas coisas de macacos de sorte ou azar não passam de mito. A sorrir e ao ouvido dele e sem que a Carmen ouvisse, disse baixinho: “Ai não me lo diga!”

3.11.08

O Hipólito, Castanhas e o Tinto





Aproxima-se o S. Martinho, já faltam poucos dias para o dia 11 de Novembro.
Esta história passa-se em 1947 e o Zé ainda não tinha ido a Oeiras à Inspecção militar.
Não sei como, mas recebi um postal com uma vista de Zaragoza, convidando-me a entrar num jogo, enviando para o primeiro nome de uma lista de quatro ou seis lá inscritos com respectivas moradas, um postal da cidade onde morava ou era natural, eliminando a seguir aquele para onde escrevia e colocando o meu e respectiva morada no último lugar, remetendo para 6 amigos que por sua vez enviavam para outros, fazendo todos a inclusão do seu nome em último lugar em substituição dos que iam suprimindo.
Se não houvesse quebra no jogo, receberia umas centenas de postais num curto espaço de tempo. Calhou-me enviar um desses postais postal para uma moça de Zaragoza, residente no Bairro de Santa Isabel, nome alusivo em homenagem à nossa Rainha Santa, natural de Aragon, cuja Zaragoza é sua capital.
.
- Na mesma época, o Albano, protagonista do conto “O Celular”, meu companheiro inseparável vivia em Amora, com seus pais, numa pequena casa de rés-do-chão.
O gás de bilhas ainda não tinha chegado às casas portuguesas e portanto a comida era feita em fogareiro a carvão ou a petróleo, este da marca Hipólito, construído por empresa do mesmo nome localizada em Torres Vedras.
Era bonito o fogão, amarelo, que as donas de casa punham a brilhar com “solarire”.
.
A chaminé da casa do Albano tinha uma bancada feita em placa de cimento, onde era colocado o Hipólito, e na frente da dita chaminé colocavam uma cortina, para dar um ar mais gracioso à cozinha.
Ao lado da chaminé existia uma pia de pedra com buraquinhos que servia para deitar restos de comida, esta também tapada com uma cortina perfeitamente igual à da chaminé e que não era mais do que a sua continuação.
O Albano fazia anos dentro desta data e portanto, com um grupo de amigos, resolvemos comemorar os seus anos e o S. Martinho em simultâneo. A comida foi ao gosto de todos, línguas de bacalhau, batatas couves, azeite, pimenta, alho e como complemento castanhas assadas e cozidas. O vinho era bom (sabíamos lá nós, pequenos fedelhos, sem experiência nenhuma na arte de apreciá-lo, o que era bom ou mau) e o certo é que o Zé e o Albano, depois do repasto e a hora tardia, sentimos necessidade de curtir uma piela tamanha (primeira e última que o Zé teve na vida) na cama do Albano, onde dormimos os dois com foguetes, morteiros e bombinhas de carnaval à mistura, pondo a casa dos seus pais em alvoroço, já que agoniados e com o peso da “bilis” tivemos de dar algumas descargas ao mar.
Com a cabeça à roda, o estômago pesado, agoniado, salto da cama sem acender a luz e dirijo-me à cozinha, afasto a cortina da pia, quase meti a cabeça lá dentro e aqui vai obra. Que alivio… não sei se cheguei a dormir, mas às sete da manhã, a mãe do Albano levantou-se para tratar do pequeno-almoço para o marido, que ia trabalhar para uma fábrica de cortiça que havia na povoação.
Desata a gritar com o filho (eu era visita, escapava), ralhando porque o Hipólito estava em mísero estado, com toda a descarga que eu lhe tinha feito em cima. É que enganei-me e, em vez de afastar a cortina da pia, afastei a da chaminé e despejei-lhe para cima.
Que horror, que vergonha senti naquela ocasião. Andei uns dias que nem passava à porta daquela casa, onde fui sempre tão bem recebido. O Albano lá desbravou terreno e mais tarde, coitados, perdoaram-me o caso.
Entretanto, recebo resposta de Zaragoza, já acompanhada de fotografias da beldade Aragoneza, iniciando assim um namoro à distância de 1.000 Km., destinado ao fracasso. O Albano também arranjou borracho, mas desistiu pouco tempo depois, tendo eu alimentado sonhos, até que fui à terra dos “manhos” (naturais de Zaragoza) conhecê-la. Fui recebido com pompa, e estou convencido que toda a malta do bairro quis conhecer a ave rara, acabada de cair de pára-quedas nas terras de Alfonso I, o Batalhador, sendo muito bem recebido sempre que me deslocava lá, tendo ela retribuído com 4 ou 5 visitas à capital portuguesa.
Estávamos anos sem nos escrever e de repente iniciávamos o que nunca devíamos ter começado. Em Outubro de 2006, fui com o Albano até Barcelona ver a réplica da caravela Santa Maria (ahahah…) e no regresso, quando passávamos em Zaragoza, vinha com ele a recordar a historia do “hipolito”, quando alvitra para irmos visitar a “manha”, tendo eu anuído.
Comentei com ele que devia ir acompanhado de uma tortas para lhe adoçar a boca, respondeu-me: “vamos lá ver se não vens de lá todo torto, com uma arrochadas pelas costas abaixo”…
Bati à porta, abriu-a, cumprimentei-a e não respondeu, olhou para mim e bateu-me com a porta na cara. A caminho de Madrid, muito o Albano se riu e gozou à minha custa.
Dias depois, o Albano, o meu amigo companheiro de tantos e tantos momentos da minha vida, deixou o nosso planeta. Fiz a promessa de por estas datas fazer-lhe uma visita, trocarmos impressões, lembrar as nossas aventuras, até ao dia que me vá juntar a ele.

20.10.08

PASSEIO A PERNES



Talvez aí por volta de 1960/61, conheci, na empresa onde trabalhava, um agente de uma empresa de recauchutagem de pneus da Marinha Grande.
Orlando de seu nome, homem trabalhador, muito activo, que tinha gosto pelo trabalho que fazia.
Pessoa de trato fácil, simpática e, portanto, não lhe era difícil granjear amigos.
Não demorou muito tempo que, na minha empresa, os amigos se tivessem multiplicado e daí, certo dia, fez um convite a seis (entre eles, eu) para ir à sua terra, à matança de um porco.
Claro que não é coisa que se veja todos os dias e eu fiquei entusiasmado pelo passeio, pela camaradagem e pela visita a um lugar que não conhecia e que nem sequer alguma vez tinha ouvido falar, assim como a matança, coisa a que nunca tinha assistido.
Um sábado foi o dia escolhido e aos seis, mais o Orlando, juntou-se um seu amigo, que não conhecíamos.
Antes do início da viagem houve a apresentação da nova cara e, quando nos preparávamos para entrar na carrinha, constatámos que no seu interior não existiam bancos para nos sentarmos.
Foi uma surpresa grande, mas a juventude tudo supera e cinco de nós, com o convidado especial incluído, lá entrámos e sentamo-nos no chão do furgão, tendo o Orlando como motorista e o Óscar como seu acompanhante.
Metemo-nos ao caminho, não havia auto-estradas e as nacionais e municipais tinham mais buracos do que uma rede de pesca.
Já estão a ver uma viagem cómoda, confortável, rápida e ainda com agravante da viatura não ter janelas, portanto, tudo às escuras.
O Jonas, mais velho do que eu e que já é vosso conhecido do conto “El Rocio”, fazia parte do grupo e sentou-se ao meu lado, no início da viagem.
Com o andamento, curvas e contracurvas, rolávamos contra as paredes do furgão, sendo um desassossego permanente e sem saber por onde passávamos.
Lá chegámos, inteiros mas bem machucados e sem vontade de fazer retorno em tão incómodo transporte.
Depois, seguiram-se as apresentações à família do Orlando, umas festinhas no lombo do porco e assistir ao ritual da matança.
Recordo que até os animais de capoeira estavam em alvoroço com o barulho e a azáfama de todos a querem fazer parte daquele acto que, na altura, considerei bárbaro e que só tinha visto nos livros do Asterix, quando este apanhava um javali.
Os guinchos do animal tiraram-me a vontade de, mais tarde e aquando a refeição, trincar a sua carne, que estava estupenda, segundo a versão de todos os presentes.
Visitámos a nascente do Alviela, um dos rios que abastece Lisboa, e entretivemo-nos fazendo maroteiras uns aos outros.
Antes de regressarmos, fomos a uma pastelaria onde comprámos uns bolos especialidade da terra, já não recordo se pastéis de feijão, mas pelo menos eram muito parecidos.
O amigo do Orlando comprou quatro dúzias em embrulhos separados de duas cada e disse-nos que um era para a namorada e outro para levar para casa.
Pela noite, alguns, já com o grão na asa, iniciámos o regresso que, para não variar, foi igual à ida, exceptuando que, em dada altura, o Jonas encontrou duas almofadas que andavam, tal como nós, ora para cá ora para lá aos trambolhões e não esteve com meias medidas. Pega numa delas, mete-a debaixo do assento e dá-me a outra para fazer o mesmo. Do mal, o menos, sempre aliviava o rabo daquele pavimento de ferro, às ondas, de que todos se queixavam.
E lá viemos até Lisboa, rindo, contando anedotas, às escuras.
Todos vinham para a outra banda, ou seja para a margem esquerda do Tejo, exceptuando o amigo do Orlando, cujo nome já se me foi há muito, tendo-se apeado ali para os lados do Areeiro.
O carro parou. O Óscar, felizardo, que acompanhava o condutor, veio abrir a porta atrás, coisa que nós não podíamos fazer por dentro, e o dono dos dois embrulhos com os bolos tratou de os procurar.
Como não os encontrou, perguntou onde estavam, sendo entregues pelo Jonas e por mim, as almofadas que nos tinham feito um jeitão, toda a viagem.
Evidentemente que o que tinha sido bolos há umas horas, estavam transformados numa massa informe, com o feitio de umas badanas de cu, e a sair de um deles, pelos cantos, bocados de bolo que se me pegaram às calças.
O moço não podia pegar pelos cordéis que atavam os embrulhos, porque aquilo se desfazia e caía tudo no chão. Olha para dentro da carrinha e diz assim. “Isto é que está um trabalho bonito! O que é que eu faço agora a isto?” Realmente, aquilo parecia mais duas boinas bascas do que um pacote com bolos; só lhe faltavam as piroletas em cima.
O Jonas, com a maior descontracção do mundo responde assim. “Na hora de repartir os bolos, sempre chega mais um para comer. Assim, este inconveniente até te traz vantagens. Cortas à faca, dá para todos e fazes do tamanho que desejares. Como vês, aqui há solução para tudo”.
Sem dizer mais nenhuma palavra, o rapaz aproxima-se da cabina do condutor e dá este recado:
“Orlando, tu nunca mais me convides para dar passeios com cabrões e filhos da puta iguais a estes”!
Os embrulhos teriam andado num reboliço para cá e para lá e às escuras ainda alguém era capaz de os comer. Sentando-nos em cima, seria a maneira de escaparem a uma “degustacion” forçada. Mantivemos toda a viagem os embrulhos com os bolos debaixo d’olho defendendo-os sem unhas e sem dentes e afinal foi mal agradecido. Deus ensinou-nos a saber perdoar a quem nos ofende e foi isso que fizemos. Regressamos com a consciência tranquila, por ter prestado um acto de louvar…

6.10.08

A TROCA



Naqueles períodos em que o Zé andava tonto, não sabia o que queria, corria atrás de qualquer saia, a mãe Júlia não sabia o que fazer e atarantava-se também.
Queria que eu assentasse, queria que o seu filho seguisse as pisadas do irmão, fosse bem comportado, tivesse juízo, namorada e arrumasse de vez, talvez mesmo quisesse netos.
A nossa grande cozinha quadrada tinha uma enorme mesa de madeira, com dois bancos corridos, um de cada lado. Era ali que habitualmente comíamos as refeições.
Se por um lado eu corria atrás das saias, também não era menos verdade que as saias andavam num desassossego atrás de mim.
Lá no sítio, toda a raparigada sabia quando eu piscava o olho a alguma.
Como era possível que, sabendo elas que o Zé não era de assoar, tivesse tanta procura?
Fazia-me confusão, mas a vida era assim mesmo e portanto aproveitava a ocasião.
Não havia sábado que a mãe Júlia não tivesse que arranjar almoço para as amigas do queridinho. Claro, a coisa constava, a ”nena” tal foi almoçar a casa do Zé e no outro fim-de-semana, em vez de três passava a ser quatro ou mesmo cinco.
A mãe Júlia devia ter as suas preferências, mas observava as corridas, os segredinhos e ficava-se na sua.
Se eu me pirava, desatavam a falar entre si para ver se descobriam com quem tinha saído. E às vezes não acertavam, porque eu tinha o cuidado de lhes dar a volta.
Não sei como, mas na procura de convívio salutar, desinteressado e simpático, apareceu-me uma prima já em terceiro grau, disposta (segundo a sua opinião e das amigas habituais, séria candidata a cortar a fita em primeiro lugar na corrida desenfreada do amor) a vestir a camisola amarela, calções, dar corda às sapatilhas e apresentar-se ao sábado na hora do cozido à portuguesa.
Naquela capoeira já havia galinhas que chegasse, mas uma prima tem lugar assegurado na mesa. Sinceramente, a sua presença cheirou-me a fumaça e não demorou muito tempo que não confirmasse as suas intenções.
Residia numa povoação aí a 7 km da minha, mas para ela isso não era problema, pois tinha pasteleira (bicicleta da moda), com uma rede em cada lado das rodas de trás que era para não prender a roupa.
Passou a chegar sempre primeiro do que as outras e, sendo familiar, movimentava-se com desembaraço pela casa, sabendo por isso uma ou outra novidade.
Se eu não aparecia, era ela a primeira a indagar, a coscuvilhar para onde fui e com quem.
Era ela que intrigava, metia o veneno às outras e portanto estava a meter-me a vida num inferno.
Um dia, disse-me que no domingo próximo faria 20 anos e queria almoçar comigo a sós e sem o conhecimento de ninguém. Que sim, que contasse, pois iríamos os dois fazer um fim-de-semana a Badajoz. Ficou nas nuvens e cacarejou perante as outras durante toda a semana.
Comprei um broche (este em forma de papagaio, vindo expressamente da selva amazónica) para lhe oferecer, mandei embrulhar e meti-o no porta-luvas do carro.
Na véspera do dia aprazado partimos rumo a Badajoz, levando quase quatro horas, mais alfândega, para nos instalarmos no Zurbaran, unidade hoteleira de 4 estrelas. No quarto lavei-lhe as costinhas a seu pedido. Verdade que não ia muito à bola com aquela cara e feitio, mas já que estava, deixei estar e portanto seja o que Deus quiser amanhã se verá.
Depois de jantar saímos para dar uma volta, mas Badajoz ainda hoje tem pouco que ver, fará naquele tempo. A calle S. Juan, junto da Catedral, era o melhorzinho da Cidade e a “Alba” onde todos os portugueses compravam caramelos e brandy Pedro Domec era visita obrigatória.
Recordo bem. Numa farmácia mesmo ao lado da “Alba”, comprei uma pasta dentífrica, daquelas que quando se apertava saía com duas riscas à cores. Era novidade e ainda não tinha chegada à terra dos parolos (a nossa). Embrulhadinha, meto-a no porta-luvas do carro.
Dormimos alguma coisa. A moça tinha insónias e estava preocupada com medo que os seus pais viessem a descobrir que não tinha dormido em minha casa.
Mas aí já era tarde, o comboio que o Zé tinha apanhado seguia em velocidade acelerada sem admitir qualquer possibilidade de travagem, caso contrário podia ocasionar algum descarrilamento.
Quando partimos de regresso ainda o sol ia alto, mas tinha por hábito nas minhas viagens chegar sempre em noite cerrada para evitar alguns mirones indiscretos.
Já bem perto de casa, a Gertrudes faz-me lembrar que afinal tinha passado um fim-de-semana comigo, coisas que para ela era inolvidável, e que eu nem sequer lhe tinha dado os parabéns pelos seus anos. Anos que tinha guardado para mim (não pensem mal).
Dando atenção ao trânsito, disse-lhe que me tinha preparado para lhe fazer uma surpresa e que no porta-luvas havia uma prenda para ela. Pegou-a, não a abriu, mas pregou-me uma beijoca tão lambuzada de agradecimento que tive de passar com manga da camisa para a limpar.
A partir daí e até chegarmos, era outra mulher. Despedimo-nos, com a promessa de não falarmos às outras rançosas do nosso passeio, que ficariam ruídas de inveja se soubessem.
Dois dias depois, retirei a pasta dentífrica para lavar os dentes e, no seu lugar já quase asfixiado e algumas penas a cair, encontrei o broche que tinha comprado para oferecer à priminha.
Lembrei-me imediatamente do Eça de Queiroz, quando por engano trocou a relíquia vinda da Terra Santa e destinada à titi.
Até hoje, nunca tugiu nem mugiu, nunca mais foi à minha casa e nunca quis aceitar falar comigo para uma explicação.
Eu não tive culpa, ela é que pegou no embrulho errado. Mas que passou a andar com os dentes mais branquinhos, isso é incontestável.

22.9.08

O MEU CÃO “FIORE”

.

Imagem rigorosamente igual, incluindo a raça, quando pôs na boca a dentadura da sogra do Zé


. .
Era um dia de calor insuportável. A sede do concelho da terra alentejana estava ao rubro; aquele mês de Agosto tinha rebentado todas as escalas dos termómetros.
Sentado na cadeira de verga, a fazer parte da mobília que tinha encomendado e vindo expressamente da ilha do Atlântico, naquela sala da casa de madeira, oferta do Governo da Suécia, após o vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, para fazer face à avalanche dos refugiados de Angola e Moçambique, eu olhava a televisão (note-se que não fui retornado e nem sequer alguma vez visitei as chamadas colónias ou províncias ultramarinas, algumas daquelas casas serviram para alojar outros que se encontravam a trabalhar nas terras alentejanas e não havia habitação para lhes oferecer).
A ventoinha trabalhava a toda a velocidade e o meu pensamento vagueava, como se circulasse num automóvel descapotável com o vento rude e grosseiro a bater-me na cara, tornando a minha pele mais morena e acentuando-me as rugas.
O Setter, cão irlandês que tinha adquirido por cinco mil escudos a um estudante de veterinária na Faculdade de Lisboa, veio deitar-se em cima dos meus pés.
Este acto contribuiu para eu vir à realidade e dou com o animal a mirar-me, olhos nos olhos, como se estivesse a implorar qualquer coisa. Mudei de posição, retirando os pés de baixo do seu corpo. Levantou-se, fitou-me e tornou a deitar-se do mesmo jeito, com os olhos postos nos meus.
Então percebi o que se passava e compreendi aquela voz silenciosa do meu canito.
.
O cachorrinho foi tratado com todo o desvelo, acariciado, mimado e aprendia com uma facilidade invulgar os ensinamentos que lhe dávamos.
Fazíamos campismo e tínhamos uma caravana no Parque da Urbitur, no Guincho, dormindo numa barraquita improvisada que lhe arranjámos e bastou um sinal para entender imediatamente que ali era o seu local de pernoita.
Durante a semana, havendo poucos campistas, saltava e corria livremente por entre as tendas, em velocidade louca. Por vezes, nessas correrias, deitava uma espia abaixo e lá tinha que ir pôr tudo em ordem. No entanto, podia continuar a passar mil vezes por esse sítio que nunca mais tropeçava nela.
Aquela “criança” brincalhona, em casa de minha sogra, tendo-a apanhada distraída por ter colocado a dentadura na beira da banheira, meteu-a na boca e brincou, correndo e desviando-se, antes que à força lha tirassem.
A minha mulher, funcionária pública, ia ser transferida, a seu pedido, para uma unidade hospitalar perto de Lisboa, para não estarmos separados toda a semana, dado que o meu trabalho também se situava na zona.
Sentíamos que o nosso “menino” gostava tanto de mim como dela, pois quando os visitava à quinta-feira a sua alegria era demonstrado das mais variadas maneiras.
Mas aquela deslocação de lugar de residência obrigava-nos a pensar no que fazer com animal, se deixávamos de ter condições para o manter. Era um problema que teria de ser resolvido com brevidade.
A minha mulher tinha, no Hospital de Portalegre, um colega que era caçador e que se interessou pelo “Fiore”.
Uma noite, conversámos sobre o assunto demoradamente e alvitrei que ela fosse ver o alojamento que o colega tinha para oferecer ao nosso príncipe.
No outro dia veio com a notícia de que, amanhã vou a “Galoucha”, povoação sita mais ou menos a 7 km da capital do Alto Alentejo, para ver as instalações e o seu colega estava entusiasmado com a oferta.
.
Implorava-me aquele olhar, demonstrando o desejo de não querer sair da nossa companhia.
Afaguei-o, não o demos e foi para Queijas, onde ficou até ser roubado.
Sentimos tanto desgosto como se de um familiar muito chegado se tratasse.

8.9.08

Sabrinas de padrão escocês


Depois daquelas cenas em que me vi envolvido por ter namorado duas “Margaridas” e da forma desastrosa como tudo acabou, resolvi ter juízo, ser bem comportado e não dar desilusões à mãe Júlia.
Eu bem tentava, de todas as formas, não contribuir para a sua infelicidade, dado que sabia que se preocupava muito com o seu “colibri”. Mas o tal cornudo da forquilha e do capote vermelho não me largava, colocando-me à frente dos olhos autênticos monumentos andantes, falantes e cheios de paixão.
Eu bem não queria, alhadas já me bastavam, mas ele segredava-me ao ouvido a todas as horas, que namorar duas ao mesmo tempo sempre era melhor do que ser só uma e prometia-me coisas que hoje me envergonho só de pensar nelas.
És um burro, dizia-me ele, há lá coisa mais saborosa… és um tonto, não sabes aproveitar as oportunidades que te dou.
É claro, acabei por seguir o seu conselho e mais uma vez acabou de maneira desastrada.
O Zé tinha a protecção da mamã, o Zé tudo quanto ganhava era para os seus devaneios, e a mãe Júlia era raro o mês que por debaixo da mesa da cozinha não lhe metia umas notitas na mão.
E, o Zé começou a namorar uma “brasa” de se lhe tirar o chapéu. Era boa rapariga e cheguei a pensar que finalmente ficaria por ali.
Residia num terceiro andar num prédio de seis, com dois apartamentos por piso, que tinha elevador cuja porta era de lagartas.
Seus pais fizeram questão de conhecer quem era o passarão que arrastava a asa à filha e acharam por bem consentir no namoro; passando às terças-feiras e quintas a visitar a apaixonada, durante ou depois do jantar e, desde que às vinte e três horas alçasse os cucos, dando por encerrada a conversa, que na maior parte das vezes, não passava de sussurros para que os “velhotes” não nos ouvissem.
Reparava que o papá tinha pouca confiança no Zé, já lhe devia ter chegado aos ouvidos alguns zunzuns, porque quando se sentava para ver televisão, colocava-se sempre em posição de não retirar um olhinho dos pombinhos e em tom baixo, mandava a mamã afastar-se da frente.
A coisa corria bem, mas ao fim de quatro ou cinco meses encontrei no elevador do prédio – e quando me dirigia para a “roça” – uma cara que não conhecia e de quem nunca tinha ouvido falar. Aspecto desenxovalhado, cara branquinha, pele fina, papo bem cheio e que cheirava a galinha do campo, coisa rara nas redondezas.
Encontrava-me já dentro do ascensor, iniciando o movimento para fechar a porta de lagartas, mas ao ver chegar aquela ave cheia de frescura, beleza a irradiar saúde e simpatia, levantei as orelhas, qual perdigueiro em presença de uma lebre e dei-lhe passagem.
Meti conversa e fiquei a saber que era empregada doméstica no 5º direito, desde há somente 7 dias.
O meu coração batia desordenadamente e lembrei-me das Margaridas (se fosse agora até me lembrava da cantiga do Marco Paulo, “eu tenho dois amores”). Qual filme desenrolado no “além”, vejo o “cornudo” rir-se e fazer-me sinal com a mão fechada, o dedo polegar virado para cima, como a querer dizer-me que eu não perdesse a oportunidade.
Nunca o elevador subiu tão depressa até ao terceiro andar como naquele dia, despedi-me com um sorriso e uma vénia e fiquei no patamar à espera, para ouvi-lo parar, abrir e fechar a lagarta, abrir e bater a porta de casa, nos dois pisos mais acima…
Respirei fundo, bati na porta da namorada que me esperava de braços abertos com o seu sorriso encantador e um olhar que só ela sabia fazer.
Nessa noite, o Zé pouco tinha para conversar e nem uma oferta para beber um copo, feito pelo pai da nubente me animou, e achei mesmo que as vinte e três horas demoraram a chegar.
Passei a desejar encontrar naquele transporte vertical, a Carla, nome da empregada doméstica e a imaginar qual o paladar que teriam as sopas e outros acepipes, feitas por aquelas mãos e que mais “melaços” saberia fazer. Os dedos polegares, tinham sinais de alguns cortes, fruto de descasca de batatas, mas isso não me interessava.
Talvez por coincidência ou por obra do “mafarrico”, sempre que ia subir na “caixa”, ela aparecia, trocávamos olhares e passámos a cumprimentarmo-nos apertando as mãos, que com o tempo passaram a demorar mais a separarem-se.
Um dia perguntei-lhe qual era o seu dia de folga e encontramo-nos no cruzamento das Amoreiras, local de tão boa memória, pelas aventuras e desventuras do arquitecto Taveira, dia em que chovia e que por isso julgava que ia faltar. Nada disso, a moça teve palavra. Passámos tempo a circular pelas ruas de Lisboa, falando de tudo ou de nada, coisas ao acaso. Beijamo-nos, apertámo-nos, fizemos juras de amor, sem sequer dar importância à traição que estávamos a cometer.
Tivemos vários encontros, todos à socapa evidentemente, sem que alguém e muita menos a Victória se apercebesse.
Para lhe fazer oferta de prenda em dia de anos, comprei na sapataria Violeta sita rua de S. Justa, umas sabrinas de padrão escocês. Nesse dia, que não coincidia com terça ou quinta, fui ao prédio disposto a entrega-los. Subi e desci o ascensor e ela não aparecia.
Fiz tantas viagens para cima e para baixo que a Victória, em casa, ouviu a máquina a trabalhar tanto tempo que resolveu ver do que se tratava.
Encontra-me no patamar com a caixa na mão, estranhou a minha presença e pergunta-me o que fazia ali e o que trazia na caixa. Não tive mais que fazer do que oferecer os sabrinas à namorada, que me beijou demoradamente, como agradecimento de tão gentil acto.
És um amor, meu querido, fazendo-me vir à face um vermelhão e um sorriso malandreco.
- Só podia ter sido o meu anjo da guarda a proteger-me perturbando e desfazendo a trama em que o “demo” me metia.
Pois foi, mas o anjo da guarda, julgando o caso arrumado definitivamente, bateu as asas e voou, deixando o Zé entregue novamente às traquinices do “diabo”.
A seu conselho resolvi voltar à Violeta, comprar outras sabrinas perfeitamente iguais, que entreguei à Carla, sem qualquer dificuldade.
Pouco tempo depois, e já se conhecendo, encontraram-se numa paragem de autocarro, calçando sabrinas iguais e estando ambas orgulhosas pela oferta que os namorados lhes fizeram.
Palavra puxa palavra e foi o desmoronar da ilusão da Victória, regressando a casa com muita baba e ranho e com vontade de me dar com as sabrinas nas “ventas”.
Assim que eu soube, através de um telefonema que a Carla me fez, nunca mais voltei ao prédio, não fosse o diabo tecê-las e ver-me envolvido noutra ocorrência desagradável, que desta vez era capaz de meter o José Botas, pai da Victória.
Vejam lá a ingratidão das mulheres, fui um mão abertas, calcei as duas moças e como pagamento do facto levava com as Botas do José no fundo das costas, que ainda me partia o cóccix.
A partir dali, fiquei com uma raiva ao guardião do inferno, que ainda hoje não o quero ver. E fiz uma jura.
Nunca mais fazer caso do diabo, namorar sim, mas uma de cada vez.

25.8.08

Acidente de Trabalho


.

Meus caros amigos:
Nas andanças pelo mundo, o Zé foi aventureiro, namoradeiro, “cafageste”, como dizem os brasileiros, sei lá que mais coisas poderia acrescentar.
Fui um assíduo frequentador do Parque Mayer. Tinha pelas revistas à portuguesa um carinho muito especial. Não faltava em noites de estreia e houve algumas que as vi tantas, tantas vezes, que tenho a certeza que era capaz de substituir algum actor que faltasse. Havia um motivo para não deixar aquele recinto: é que a cantiga da Anita Guerreiro diz que os rapazes cheiram-lhes a raparigas e era esse cheiro que eu sentia quando lhe passava perto. O cheiro às coristas das revistas.
Tinha um amigo (julgo que já faleceu) que possuía uma casa com muitos quartos na rua Fernão Lopes, ali mesmo ao Saldanha, prédio já demolido, como todos os outros do mesmo lado dessa rua, que alugava quartos às coristas dos teatros do Parque Mayer.
Portanto já estão a ver! Cheiro a raparigas, coristas, e contacto fácil na casa do amigo que me as apresentava, deixando depois por minha conta os “ I love you”.
No prédio do amigo, no tempo do agarra, agarra, chegou a estar lá instalado o mrpp nos dois rés dos chãos, esquerdo e direito, tendo se calhar na altura sido ponto de encontro para o Durão Barroso, actual presidente da Comunidade Europeia, quando seu militante. De quando em quando havia visitas de outros partidos e a bordoada estalava por todo o lado, chegando alguns apaniguados do mrpp a refugiar-se, vindo pelas escadas de ferro das traseiras, em casa do meu amigo Sousa que residia no 3º andar esquerdo.
Os esgotos dos prédios antigos eram exteriores, de manilhas grés, feitas na cerâmica do Carvalhal, povoação situada perto de Terras Vedras. Era inestético, é verdade, mas em contrapartida quando por qualquer razão era necessário mexer-lhe, seria fácil a sua reparação. Estavam sempre situados nas traseiras e portanto não se viam, sendo as ligações das referidas manilhas feitas com cimento.
Um dia, nesse prédio houve uma rotura num desses canos ao nível superior do rés-do-chão, sendo necessário proceder à sua reparação.
O artista (pedreiro), no dia combinado com o proprietário do prédio, chegou cedo, montou escada que encostou à parede, subiu para confirmar bem o local da fissura, estudou a maneira mais conveniente de fazer um trabalho perfeito, preparou toda a ferramenta e atirou-se ao osso.
Antes porém, e não poderia ser de outra maneira, foi a todas as casas do lado esquerdo do prédio e recomendou que não fossem usados os esgotos, naquela manhã, porque ele ia proceder à sua reparação.
Todos os inquilinos tomaram conhecimento do facto e prometeram respeitar aquele pedido.
O homem iniciou o seu trabalho em cima das escadas, batendo com escopo e martelo ao nível da sua cabeça, partindo o grés da manilha, para poder fazer um remendo eficiente e definitivo para acabar com a anomalia.
Aí pela volta das 10:30, o Zé sobe as escadas do amigo para lhe fazer a costumeira visita, ouve a batucada do pedreiro, mas como é evidente não ligou ao assunto, até porque o desconhecia.
Chegado ao 3º andar, bate à porta, cumprimenta o amigo, que aproveitando a oportunidade da sua presença, pede para ficar ali em casa por 20 ou 30 minutos, dando-lhe assim a possibilidade de dar um pulinho ao Mercado do Matadouro, ali ao fim da rua, comprar abastecimentos para a comida do dia.
Claro que sim, e fico guardião do casebre pelo tempo que o Sousa se deslocava ao mercado. Judiei um pouco com um papagaio que tinha na gaiola preso por um pé e deu-me vontade de ir à casa de banho.
Na parede ao lado da sanita, existia uma janela que estava aberta e que dava para o saguão, ouvindo-se perfeitamente a labuta do pedreiro a arranjar a deficiência com esmero e perfeição, coisa a que eu estava perfeitamente alheio.
O Zé assenta-se e não é necessário dar mais explicações, porque todos nós sabemos o que o Zé fez. Acabado que foi o seu serviço, puxa a corrente do autoclismo e não tarda, que sente alarido, espreita pela janela e vê o pedreiro a ficar engasgado com a enxurrada que veio pelo cano abaixo.
Nesse preciso momento entra o Sousa, que ao ter conhecimento do uso inadequado da sanita ficou preocupado e tem este desabafo “ coitado do senhor, a fumar de charuto, quando nem toca em cigarros”.
Aí, não resisto e dou uma valente gargalhada, imediatamente abafada pelo barulho que ouvimos nas escadas.
O “sinistrado”, com a maceta na mão (coisa aí de 1 kg.) sobe-as e bate em todos os andares do lado esquerdo a perguntar quem tinha feito um trabalho daqueles, e que lhe dava com a maceta nos “.ornos” que o lixava.
Com os acontecimentos em desenvolvimento acelerado, optei em fazer figura de cobarde, não fosse acabar nas urgências do hospital de Santa Maria, ou estendido dentro de uma gaveta no piso -2.
O Sousa (era especialista em simulações) responde que dali não foi, porque ele nem estava em casa, tinha acabado de chegar naquele momento.
O certo é que o pedreiro desalvorou (sem ter feito o gosto ao dedo). Nunca mais lá apareceu e o dono do prédio teve que contratar outro para acabar o trabalho.
Todo o cuidado é pouco, até em casa e sentado na sanita um homem não está descansado, até naquele lugar pode originar um acidente de trabalho.
A seguradora deveria ter tido alguma dificuldade em atribuir, para estatística, o acidente na secção de Domésticos ou de Construção Civil.