
Depois daquelas cenas em que me vi envolvido por ter namorado duas “Margaridas” e da forma desastrosa como tudo acabou, resolvi ter juízo, ser bem comportado e não dar desilusões à mãe Júlia.
Eu bem tentava, de todas as formas, não contribuir para a sua infelicidade, dado que sabia que se preocupava muito com o seu “colibri”. Mas o tal cornudo da forquilha e do capote vermelho não me largava, colocando-me à frente dos olhos autênticos monumentos andantes, falantes e cheios de paixão.
Eu bem não queria, alhadas já me bastavam, mas ele segredava-me ao ouvido a todas as horas, que namorar duas ao mesmo tempo sempre era melhor do que ser só uma e prometia-me coisas que hoje me envergonho só de pensar nelas.
És um burro, dizia-me ele, há lá coisa mais saborosa… és um tonto, não sabes aproveitar as oportunidades que te dou.
É claro, acabei por seguir o seu conselho e mais uma vez acabou de maneira desastrada.
O Zé tinha a protecção da mamã, o Zé tudo quanto ganhava era para os seus devaneios, e a mãe Júlia era raro o mês que por debaixo da mesa da cozinha não lhe metia umas notitas na mão.
E, o Zé começou a namorar uma “brasa” de se lhe tirar o chapéu. Era boa rapariga e cheguei a pensar que finalmente ficaria por ali.
Residia num terceiro andar num prédio de seis, com dois apartamentos por piso, que tinha elevador cuja porta era de lagartas.
Seus pais fizeram questão de conhecer quem era o passarão que arrastava a asa à filha e acharam por bem consentir no namoro; passando às terças-feiras e quintas a visitar a apaixonada, durante ou depois do jantar e, desde que às vinte e três horas alçasse os cucos, dando por encerrada a conversa, que na maior parte das vezes, não passava de sussurros para que os “velhotes” não nos ouvissem.
Reparava que o papá tinha pouca confiança no Zé, já lhe devia ter chegado aos ouvidos alguns zunzuns, porque quando se sentava para ver televisão, colocava-se sempre em posição de não retirar um olhinho dos pombinhos e em tom baixo, mandava a mamã afastar-se da frente.
A coisa corria bem, mas ao fim de quatro ou cinco meses encontrei no elevador do prédio – e quando me dirigia para a “roça” – uma cara que não conhecia e de quem nunca tinha ouvido falar. Aspecto desenxovalhado, cara branquinha, pele fina, papo bem cheio e que cheirava a galinha do campo, coisa rara nas redondezas.
Encontrava-me já dentro do ascensor, iniciando o movimento para fechar a porta de lagartas, mas ao ver chegar aquela ave cheia de frescura, beleza a irradiar saúde e simpatia, levantei as orelhas, qual perdigueiro em presença de uma lebre e dei-lhe passagem.
Meti conversa e fiquei a saber que era empregada doméstica no 5º direito, desde há somente 7 dias.
O meu coração batia desordenadamente e lembrei-me das Margaridas (se fosse agora até me lembrava da cantiga do Marco Paulo, “eu tenho dois amores”). Qual filme desenrolado no “além”, vejo o “cornudo” rir-se e fazer-me sinal com a mão fechada, o dedo polegar virado para cima, como a querer dizer-me que eu não perdesse a oportunidade.
Nunca o elevador subiu tão depressa até ao terceiro andar como naquele dia, despedi-me com um sorriso e uma vénia e fiquei no patamar à espera, para ouvi-lo parar, abrir e fechar a lagarta, abrir e bater a porta de casa, nos dois pisos mais acima…
Respirei fundo, bati na porta da namorada que me esperava de braços abertos com o seu sorriso encantador e um olhar que só ela sabia fazer.
Nessa noite, o Zé pouco tinha para conversar e nem uma oferta para beber um copo, feito pelo pai da nubente me animou, e achei mesmo que as vinte e três horas demoraram a chegar.
Passei a desejar encontrar naquele transporte vertical, a Carla, nome da empregada doméstica e a imaginar qual o paladar que teriam as sopas e outros acepipes, feitas por aquelas mãos e que mais “melaços” saberia fazer. Os dedos polegares, tinham sinais de alguns cortes, fruto de descasca de batatas, mas isso não me interessava.
Talvez por coincidência ou por obra do “mafarrico”, sempre que ia subir na “caixa”, ela aparecia, trocávamos olhares e passámos a cumprimentarmo-nos apertando as mãos, que com o tempo passaram a demorar mais a separarem-se.
Um dia perguntei-lhe qual era o seu dia de folga e encontramo-nos no cruzamento das Amoreiras, local de tão boa memória, pelas aventuras e desventuras do arquitecto Taveira, dia em que chovia e que por isso julgava que ia faltar. Nada disso, a moça teve palavra. Passámos tempo a circular pelas ruas de Lisboa, falando de tudo ou de nada, coisas ao acaso. Beijamo-nos, apertámo-nos, fizemos juras de amor, sem sequer dar importância à traição que estávamos a cometer.
Tivemos vários encontros, todos à socapa evidentemente, sem que alguém e muita menos a Victória se apercebesse.
Para lhe fazer oferta de prenda em dia de anos, comprei na sapataria Violeta sita rua de S. Justa, umas sabrinas de padrão escocês. Nesse dia, que não coincidia com terça ou quinta, fui ao prédio disposto a entrega-los. Subi e desci o ascensor e ela não aparecia.
Fiz tantas viagens para cima e para baixo que a Victória, em casa, ouviu a máquina a trabalhar tanto tempo que resolveu ver do que se tratava.
Encontra-me no patamar com a caixa na mão, estranhou a minha presença e pergunta-me o que fazia ali e o que trazia na caixa. Não tive mais que fazer do que oferecer os sabrinas à namorada, que me beijou demoradamente, como agradecimento de tão gentil acto.
És um amor, meu querido, fazendo-me vir à face um vermelhão e um sorriso malandreco.
- Só podia ter sido o meu anjo da guarda a proteger-me perturbando e desfazendo a trama em que o “demo” me metia.
Pois foi, mas o anjo da guarda, julgando o caso arrumado definitivamente, bateu as asas e voou, deixando o Zé entregue novamente às traquinices do “diabo”.
A seu conselho resolvi voltar à Violeta, comprar outras sabrinas perfeitamente iguais, que entreguei à Carla, sem qualquer dificuldade.
Pouco tempo depois, e já se conhecendo, encontraram-se numa paragem de autocarro, calçando sabrinas iguais e estando ambas orgulhosas pela oferta que os namorados lhes fizeram.
Palavra puxa palavra e foi o desmoronar da ilusão da Victória, regressando a casa com muita baba e ranho e com vontade de me dar com as sabrinas nas “ventas”.
Assim que eu soube, através de um telefonema que a Carla me fez, nunca mais voltei ao prédio, não fosse o diabo tecê-las e ver-me envolvido noutra ocorrência desagradável, que desta vez era capaz de meter o José Botas, pai da Victória.
Vejam lá a ingratidão das mulheres, fui um mão abertas, calcei as duas moças e como pagamento do facto levava com as Botas do José no fundo das costas, que ainda me partia o cóccix.
A partir dali, fiquei com uma raiva ao guardião do inferno, que ainda hoje não o quero ver. E fiz uma jura.
Nunca mais fazer caso do diabo, namorar sim, mas uma de cada vez.