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.O Zé tinha 7/8 anos e já nessa altura tinha ferrado no corpo o gosto pela partidas e a vontade de brincar. Algumas delas já foram aqui contadas, outras, se a memória não me falhar e tiverem paciência para aturar os meus devaneios, continuarei aqui a descrevê-las.
O meu avô era homem do campo. Tinha várias quintas, dedicando-se por isso à lavoura. A minha avó, segundo a minha óptica, era a máquina de ter filhos.
Naquele tempo apenas existiam umas charruas rudimentares, puxadas por mulas para mexer a terra e a mão-de-obra disputava-se entre os agricultores. Portanto, dono de terras com mulher saudável e fértil, era certo e sabido que… era casa cheia de catraios.
Na casa dos meus avós paternos, não foram nada comedidos e foram pais somente de… 18!
Participo-lhes desde já que não bateram o recorde, pois os meus avós maternos tiveram de dar comer a 19. Eram outros tempos, é verdade, mas sempre foram outros tempos para tudo.
Tive necessidade de dar esta explicação prévia, dado que a história se vai desenrolar numa das quintas do meu avô, com um filho de um dos seus trabalhadores.
Tiago foi contratado para trabalhar de sol a sol, como cavador. Era homem corpulento e mestre na arte de mexer a enxada. Praticamente levava todos os dias o seu filho (de nome Pião e da mesma idade que eu) lá para a quinta, com a obrigação de pôr comida nas manjedoiras dos animais. Como não eram poucos, tinha muito que fazer, dando-lhe eu muitas vezes ajuda, para mais depressa ficar livre e darmos asas às nossas brincadeiras.
Comia comigo e minha avó, na cozinha grande, e no fim de cada semana o meu avó dava-lhe uns “tustos”, que seriam depois religiosamente entregues à sua mãe.
Nunca soube se Pião era mesmo nome da família ou se era alcunha. Todavia, confirmo que pela sua ligeireza, vivacidade e esperteza, o moço era um autêntico pião. Calçado, nunca tinha entrado nos seus pés, tão-pouco alguma vez ouvi qualquer lamúria ou queixa por esse facto. Montava o jerico com destreza e que sempre acariciou desde que começou a ir lá para a quinta. O asno estava na flor da idade e o João Pião era o único que o montava, coisa que fazia com máximo dos prazeres. Bastava bater com os seus calcanhares descalços na barriga do animal e este seguia indolente, devagar, devagarinho a caminho do local habitual e seu conhecido. Nunca o vi correr e mesmo assim nunca tive tentação de o montar. Quantas o vezes o Pião júnior me convidou e aliciou para eu ir com ele, para imitarmos os cowboys.
Um dia, o meu avô foi ao mercado à Moita do Ribatejo e trouxe umas botas pequenas, com cardas, para oferecer ao Pião. Que contente estava ele! Correu campo fora com elas na mão, para mostrar a seu pai a oferta que o patrão Manel lhe tinha oferecido. Minha avô, chamou-o e, mandando-o lavar os pés, deu-lhe uma peúgas minhas para completar a satisfação do petiz, pois era oportunidade de se estrear as botas imediatamente.
Enquanto o nosso Pião lavou os pés e calçou as meias, eu, na arrecadação da quinta brinquei com as botas.
Poucos minutos depois, aí estava o João Pião, qual “toutinegra” correndo campo fora com as botas nos pés.
Chegou a hora de montar o burro, para fazer a sua costumada e maçadora viagem. O Pião salta-lhe para cima, com a língua dá aquele estalinho característico ao animal para se pôr em marcha, bate-lhe com os calcanhares das botas na barriga e… pasmem-se!
O burro indolente, preguiçoso no andar, desata a correr em tal velocidade, que nada o fazia parar. O Pião bem o mandava parar, batia com a língua, acariciava-lhe a barriga com os calcanhares das botas, mas qual quê, quanto mais lhe batia com as botas mais corria e até dava coices à mistura, nada fazendo prever quando pararia. Não fosse ele tão especialista na arte de montar e seria cuspido de cima do animal. Acho que a correria só parou quando, ao passar junto a uns fardos de feno, o Pião resolveu atirar-se do burro abaixo. Estavam todos na quinta boquiabertos a apreciaram esta corrida do “Porsche de Orelhas” e admirados com tal façanha. Um animal tão dócil, tão meigo e faz-lhe uma partida daquelas!
O Pião, com os pés em brasa, pois como contei era primeira vez que se tinha calçado, resolveu tirar as botas dos pés. Sentou-se e, ao pôr a mão atrás no calcanhar para as descalçar, picou uma das mãos, ficando a saber nessa ocasião por que motivo a velocidade do burro tinha sido aquela, e creio até ser capaz de fazer concorrência com o Alfa Pendular.
É que, enquanto o João Pião lavou os pés e calçou as meias, eu preguei em cada bota um prego de sapateiro, para servir de esporas quando montasse o burro.
Claro que não esperava que o animal voasse como um “cavalo alado”, mas ao ver a aflição do Pião e aquela correria desenfreada, achei por bem dar corda aos meus sapatos e dar o salto para junto da minha protectora (mãe Júlia), que estava numa das outras quintas ali perto.
O meu avô bem me procurou, pois queria dar-me o correctivo em presença dos assistentes da corrida do fórmula “B”, só que o Zé fintou-o e teve uns largos dias sem lhe aparecer.
O meu avô era homem do campo. Tinha várias quintas, dedicando-se por isso à lavoura. A minha avó, segundo a minha óptica, era a máquina de ter filhos.
Naquele tempo apenas existiam umas charruas rudimentares, puxadas por mulas para mexer a terra e a mão-de-obra disputava-se entre os agricultores. Portanto, dono de terras com mulher saudável e fértil, era certo e sabido que… era casa cheia de catraios.
Na casa dos meus avós paternos, não foram nada comedidos e foram pais somente de… 18!
Participo-lhes desde já que não bateram o recorde, pois os meus avós maternos tiveram de dar comer a 19. Eram outros tempos, é verdade, mas sempre foram outros tempos para tudo.
Tive necessidade de dar esta explicação prévia, dado que a história se vai desenrolar numa das quintas do meu avô, com um filho de um dos seus trabalhadores.
Tiago foi contratado para trabalhar de sol a sol, como cavador. Era homem corpulento e mestre na arte de mexer a enxada. Praticamente levava todos os dias o seu filho (de nome Pião e da mesma idade que eu) lá para a quinta, com a obrigação de pôr comida nas manjedoiras dos animais. Como não eram poucos, tinha muito que fazer, dando-lhe eu muitas vezes ajuda, para mais depressa ficar livre e darmos asas às nossas brincadeiras.
Comia comigo e minha avó, na cozinha grande, e no fim de cada semana o meu avó dava-lhe uns “tustos”, que seriam depois religiosamente entregues à sua mãe.
Nunca soube se Pião era mesmo nome da família ou se era alcunha. Todavia, confirmo que pela sua ligeireza, vivacidade e esperteza, o moço era um autêntico pião. Calçado, nunca tinha entrado nos seus pés, tão-pouco alguma vez ouvi qualquer lamúria ou queixa por esse facto. Montava o jerico com destreza e que sempre acariciou desde que começou a ir lá para a quinta. O asno estava na flor da idade e o João Pião era o único que o montava, coisa que fazia com máximo dos prazeres. Bastava bater com os seus calcanhares descalços na barriga do animal e este seguia indolente, devagar, devagarinho a caminho do local habitual e seu conhecido. Nunca o vi correr e mesmo assim nunca tive tentação de o montar. Quantas o vezes o Pião júnior me convidou e aliciou para eu ir com ele, para imitarmos os cowboys.
Um dia, o meu avô foi ao mercado à Moita do Ribatejo e trouxe umas botas pequenas, com cardas, para oferecer ao Pião. Que contente estava ele! Correu campo fora com elas na mão, para mostrar a seu pai a oferta que o patrão Manel lhe tinha oferecido. Minha avô, chamou-o e, mandando-o lavar os pés, deu-lhe uma peúgas minhas para completar a satisfação do petiz, pois era oportunidade de se estrear as botas imediatamente.
Enquanto o nosso Pião lavou os pés e calçou as meias, eu, na arrecadação da quinta brinquei com as botas.
Poucos minutos depois, aí estava o João Pião, qual “toutinegra” correndo campo fora com as botas nos pés.
Chegou a hora de montar o burro, para fazer a sua costumada e maçadora viagem. O Pião salta-lhe para cima, com a língua dá aquele estalinho característico ao animal para se pôr em marcha, bate-lhe com os calcanhares das botas na barriga e… pasmem-se!
O burro indolente, preguiçoso no andar, desata a correr em tal velocidade, que nada o fazia parar. O Pião bem o mandava parar, batia com a língua, acariciava-lhe a barriga com os calcanhares das botas, mas qual quê, quanto mais lhe batia com as botas mais corria e até dava coices à mistura, nada fazendo prever quando pararia. Não fosse ele tão especialista na arte de montar e seria cuspido de cima do animal. Acho que a correria só parou quando, ao passar junto a uns fardos de feno, o Pião resolveu atirar-se do burro abaixo. Estavam todos na quinta boquiabertos a apreciaram esta corrida do “Porsche de Orelhas” e admirados com tal façanha. Um animal tão dócil, tão meigo e faz-lhe uma partida daquelas!
O Pião, com os pés em brasa, pois como contei era primeira vez que se tinha calçado, resolveu tirar as botas dos pés. Sentou-se e, ao pôr a mão atrás no calcanhar para as descalçar, picou uma das mãos, ficando a saber nessa ocasião por que motivo a velocidade do burro tinha sido aquela, e creio até ser capaz de fazer concorrência com o Alfa Pendular.
É que, enquanto o João Pião lavou os pés e calçou as meias, eu preguei em cada bota um prego de sapateiro, para servir de esporas quando montasse o burro.
Claro que não esperava que o animal voasse como um “cavalo alado”, mas ao ver a aflição do Pião e aquela correria desenfreada, achei por bem dar corda aos meus sapatos e dar o salto para junto da minha protectora (mãe Júlia), que estava numa das outras quintas ali perto.
O meu avô bem me procurou, pois queria dar-me o correctivo em presença dos assistentes da corrida do fórmula “B”, só que o Zé fintou-o e teve uns largos dias sem lhe aparecer.
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